Crítica | Síndromes e Um Século

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O tailandês Apichatpong Weerasethakul não é um diretor dos mais acessíveis. Sem fazer grandes concessões ao público, seus filmes promovem uma experiência imersiva que valoriza a longa duração de planos-sequência em detrimento de uma montagem mais ágil e de um desenvolvimento mais dinâmico dos enredos. O cinema de Apichatpong é de uma linhagem que aprecia a contemplação e a demora, tentando transformar a experiência cinematográfica numa ilha de tempo distendido dentro de um mundo real cujo cotidiano, cheio de tarefas e obrigações, é enlouquecidamente acelerado.

Se este autor retoma a tradição realista da qual os teóricos André Bazin e Siegfried Kracauer foram os maiores apologistas, não deixa de ser curiosa a penetração de temáticas sobrenaturais em sua obra. Para descrevê-lo, e a outros diretores de estilo similar, alguns críticos recorreram ao termo “realismo fantasmagórico”, nome bem adequado pois expressa, na estranheza de seu paradoxo, a ambivalência das filmografias que descreve. É em termos desta ambiguidade que Apichatpong constrói o seu Síndromes e um Século (2006). O filme mobiliza dois itens aparentemente inconciliáveis: por um lado, o mundo da técnica medicinal cientificamente fundamentada; por outro, as crenças tailandesas no budismo.

Num texto intitulado Fantasmas no Escuro, o diretor descreve sua infância em Khon Kaen, “cidade selvagem” em que morava com sua família numa casa de madeira próxima ao hospital onde seus pais trabalhavam como médicos. A ambientação biográfica deu inspiração à primeira parte do filme, que se passa mormente dentro de um centro de saúde cercado pela natureza. A essa seção, mais uma decorrerá, cujo ambiente principal é um hospital tecnicamente avançado, rodeado por uma cidade altamente urbanizada que domesticou a vastidão da mata transformando-a, quando muito, em jardins cingidos. A divisão em dois não é novidade na filmografia do diretor, que já fizera isso no belíssimo Mal dos Trópicos (2004).

A dualidade (temática e temporal) que permeia o filme está intimamente associada à estrutura do roteiro. Porém, qualquer tentativa de sumarização, no caso das obras de Apichatpong, deve levar em conta paradigmas outros, distintos daqueles que regem os filmes narrativos tradicionais. Isso porque Síndromes e um Século não pode ser organizado com base em um arco dramático bem definido; nele, quase nada acontece de conclusivo e a trama é formada por episódios apenas tenuemente conectados entre si. A apreensão dos conteúdos dessa obra desafiadora, portanto, não parte do entendimento imediato de conteúdos que aparecem na tela, ou da empatia com dramas pessoais, ou da identificação de tensões a serem resolvidas ao longo do entrecho. Tudo se baseia, ao contrário, numa repetição de procedimentos que pode, quando captada a lei de seu funcionamento, iluminar os possíveis sentidos do filme. O que estou sugerindo, em outras palavras, é que somente após radiografada a dinâmica dos significantes fica mais facilitado o caminho em direção aos significados.

Pois bem. Qual seria, então, a regra do jogo subsumida nos eventos que figuram no longa? Já foi dito que ele é sustentado por uma dualidade entre fé e fato: as crenças budistas coabitam curiosamente com os exames médicos. Enquanto a doutora Toey (Nantarat Sawaddikul) indica remédios, o monge atendido por ela retribui com ervas curativas. Na segunda parte do filme, dentro do hospital paramentada com maquinário de última geração uma mulher pretende curar pela energia revigoradora das mãos.

Por sua vez, a dualidade temporal desdobra uma repetição de ocorrências no passado e no futuro. Ou melhor: uma repetição transfigurada, um retorno modificado de incidentes já apresentados anteriormente. Refiro-me, por exemplo, à duplicação das entrevistas de emprego para o cargo de médico; ao predomínio do hospital como ambiente em que se passam os eventos; e à consulta com o monge, na qual ele repisa uma narrativa sobre seus pesadelos, a indicação de ervas terapêuticas e os problemas de asma da mãe de seu colega.

Constatada a dualidade formal do filme, caberia perguntar em que medida ela se coaduna aos conteúdos apresentados. Quando falamos de Arte, diz-se que uma obra possui forma orgânica quando os seus elementos estruturantes estão imbricados aos sentidos exprimidos. Creio ser este o caso de Síndromes e um Século: a revivescência modificada de excertos visa retomar a noção budista de reencarnação, segundo a qual a alma do ser subsiste à morte do corpo e pode habitar outro, posteriormente. O salto temporal dado pelo filme segrega contextos- separam-se o antigo e o recente, e tal separação é marcada por recursos como a mudança da qualidade e definição das filmagens, a inserção, na segunda metade do filme, de travelings e sequências com câmera na mão ou, ainda, a melhora na infraestrutura do hospital mais moderno. Mas, assim como numa reencarnação, as transformações exteriores não anulam a continuidade da essência das cenas. Sob a aparência da metamorfose, subsiste ainda algo de fundamental. A parcela secundária da fita, portanto, reexibe e reencarna a primeira parte, mas numa inscrição espaço-temporal diferente.

Já a geminação no plano do conteúdo, isto é, o convívio entre rigor empírico e espiritualidade budista, retrata algo com que Apichatpong se acostumou culturalmente desde sua infância. Filosoficamente, o filme parece sugerir uma negação da razão dualista, tipicamente ocidental. Nenhuma das áreas detém o monopólio da verdade, cada uma tem seu momento de eficácia. O raio-X pode andar de mãos dadas com a reza, o fantasma e o remédio não se anulam.

A percepção das linhas de força que se destacam em Síndromes e um Século não pode obliterar o fato de que o longa permanece refratário a interpretações muito organizadas. Em várias cenas, não se pretende significar algo. Elas têm valor em si mesmas, merecem ser cuidadosamente contempladas em toda a força de sua poesia. Aliás, a analogia com o universo poético é muito apropriada ao filme. Ele possui ritmos e cadências próprias, sua sintaxe é elíptica, o olhar mobilizado pela câmera é lírico. O cinema litúrgico e espiritualizado de Apichatpong Weerasethakul supera qualquer obrigação de funcionalidade ou clareza do enredo. Deve-se apreciá-lo com cuidado e prazer; o diretor nos ensina a apurar a visão como se apura um vinho, voltar os ouvidos ao devir da natureza, maturar o espírito com o deleite da demora.

Síndromes e um Século (Sang sattawat, Tailândia/França/Áustria- 2006)
Diretor: Apichatpong Weerasethakul
Roteiro: Apichatpong Weerasethakul
Elenco: Nantarat Sawaddikul, Jaruchai Iamaram, Sophon Pukanok, Jenjira Pongpas, Arkanae Cherkam, Sakda Kaewbuadee, Nu Nimsomboon, Wanna Wattanajinda, Sin Kaewpakpin, Putthithorn Kammak
Duração: 105 min.

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.