Crítica | Sing Street

estrelas 4

Um dos melhores aspectos de termos serviços como a Netflix nos dias atuais é a possibilidade de ver filmes que talvez jamais seriam lançados em território tupiniquim, seja nos cinemas ou até mesmo em DVD ou bluray. Sing Street é um desses, que, apesar do sucesso na crítica e um bom faturamento comercial, não chegou às salas daqui e temos, através do canal de streaming a oportunidade de conhecer essa obra, que chegou a ser indicada como melhor filme de comédia ou musical no Globo de Ouro 2017.

Voltamos para a Irlanda dos anos 1980, em uma trama que gira em torno de Conor (Ferdia Walsh-Peelo), um jovem de dezesseis anos cujos pais, enfrentando dificuldades financeiras, o transferem para uma escola católica mais barata e que está longe de ser um sonho para seus alunos. Na frente desse novo colégio, ele acaba conhecendo Raphina (Lucy Boynton) uma jovem modelo para quem diz ter uma banda a fim de impressioná-la. Cabe ao garoto, portanto, formar a dita banda e elaborar algumas canções para conseguir o amor da jovem, projeto que acaba ganhando outras proporções, em virtude do talento de seus integrantes e os constantes conselhos do irmão de Conor, Brendan (Jack Reynor).

O maior destaque de Sing Street certamente não é a sua história principal, o roteiro de John Carney segue a fórmula básica de comédias românticas, estabelecendo uma narrativa sem qualquer surpresa – se você espera um filme repleto de plot-twists ou algo assim, pode deixar esse de lado, a obra está replete de clichês e, do ponto de vista do texto, não oferece nada verdadeiramente novo. Mas o clichê não é algo ruim, é um artifício narrativo que pode ser utilizado tanto de ótima maneira, como é o caso de filmes como Avatar, que segue uma trama já batida, mas que imprime sua própria alma na realização, ou de forma repetida, que acaba tornando tudo uma experiência cansativa.

O verdadeiro espírito do longa-metragem em questão está em como conduz sua história através da música. Mais que um romance sobre o garoto que deseja conquistar a menina, essa é uma obra sobre seguir seus sonhos, algo que é deixado claro através da figura de Brendan. Nele enxergamos uma versão do protagonista que tivera suas ambições limitadas, controladas, alguém que jamais pode exibir seu verdadeiro potencial. Como ele próprio diz, ele abrira caminho para seu irmão mais novo brilhar, algo igualmente lindo de se observar e triste, visto que assistimos situações parecidas constantemente em nosso dia a dia. Curiosamente, se o texto cai na mesmice em sua linha narrativa principal, ele traz uma necessária abordagem diferenciada da relação fraterna aqui, visto que o personagem interpretado de forma maravilhosamente naturalista por Jack Reynor funciona como uma espécie de guia para o irmão, a figura do mentor da clássica jornada do herói.

De fato, se o filme conta com um mérito é a maneira como trabalha alguns de seus personagens. Digo alguns pois os membros da banda são basicamente deixados de lado, à favor de um foco quase exclusivo no protagonista, seu interesse amoro e seu irmão. Isso, contudo, não nos incomoda, já que sabemos desde o início que essa não é a história da banda e sim de seu vocalista. Evidente que a relação entre ele e Raphina poderia ter seguido um caminho menos previsível – toda a história da paixão por uma garota que já tem um namorado de índole duvidosa já é muito batida. Felizmente, Ferdia Walsh-Peelo e Lucy Boynton contam com uma indiscutível química, que pode ser percebida desde a primeira vez que se veem. Naturalmente que muito disso pode ser atribuído ao trabalho dos dois atores. Enxergamos Walsh-Peelo cada vez mais se soltar, seu personagem gradualmente ganha mais segurança de si. Boynton, por sua vez, traz uma gigantesca profundidade em seu olhar, fisgando nossa atenção de imediato.

O maior charme da obra, contudo, permanece nas suas composições originais, uma verdadeira demonstração de coragem dos realizadores, visto que poderiam somente selecionar algumas músicas da época. Ao invés disso, a banda de Conor toca suas próprias canções, se apoiando nos estilos de diferentes bandas de rock dos anos 1980, ao mesmo tempo que empregam sua própria identidade, o que dialoga perfeitamente com a intenção do protagonista, que, como seu próprio irmão diz, não quer fazer apenas uma banda cover. Dito isso, em algumas sequências, como fonte de inspiração, podemos escutar composições de bandas como A-Ha, The ClashDuran Duran, dentre outras.

Sing Street finaliza quase como uma fantasia, um filme que oscila entre o território dos sonhos a serem realizados e a realidade, utilizando o rock n’ roll para preencher esse espírito de rebeldia necessário a qualquer um que deseja correr atrás daquilo que realmente quer de sua vida. Embora caia em alguns pontos já batidos, a obra consegue se distanciar da grande massa de produções cinematográficas do gênero através da forma como executa suas ideias, nos entregando um feel-good movie que definitivamente fará qualquer um se empolgar com suas melodias originais.

Sing Street — Irlanda/ Reino Unido/ EUA, 2016
Direção:
 John Carney
Roteiro: John Carney
Elenco: Ferdia Walsh-Peelo, Aidan Gillen, Maria Doyle Kennedy, Lucy Boynton, Jack Reynor, Kelly Thornton
Duração: 106 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.