Crítica | Skate Kitchen

“Sua mãe é uma vadia!”

O longa-metragem Skate Kitchen, apresentando aventuras e desventuras por um universo desesperadamente almejado, anseia a evidenciação, ainda que extremamente particular, da juventude presente nas cidades grandes, recortada para esse cerne específico. O estado retratado é o menos confinado possível – não sobre apartamentos pequenos e condições financeiras apertadas -, permissivo, em oposição, à liberdade absoluta, que desejamos quando jovens, porém, nunca encontramos verdadeiramente. O absoluto existe em qualquer instância? Crystal Moselle escolhe movimentar a narrativa através de meros passeios, pequenas passagens por localidades quase insignificantes, mas que, quando olhadas diferentemente, se tornam jornadas grandiosas. O mundo é a casa do jovem, a cidade seu espaço de descoberta. O espécime aprisionado em males sociais desaparece, dando margem a um grupo de garotas aproveitando a ambientação da metrópole e o contato com o asfalto, com o chão e qualquer coisa que a cidade, em suas maiores improvisações, pode providenciar a um skatista, para experimentar a vida.

Os apartamentos pequenos são aconchegantes e os personagens não possuem problemas em dividi-los com inúmeras pessoas – o problema, por outro lado, é o barulho, puxando uma problemática privilegiada para dentro de uma situação não-privilegiada. As condições financeiras sustentam o suficiente para uma simples, entretanto, jovial felicidade. O sexo não ocasiona problemas. A maconha é usada sem ressalvas – o próprio pai de uma das garotas permite o uso. A obra, de certa maneira, é uma versão quase limpa sobre esse contexto de descobertas, uma espécie de completo oposto de Kids, de Larry Clark. A cinematografia captura planos enormemente fotográficos. Um filtro na imagem da realidade? O filme não possui as malícias necessárias para uma abordagem crua do cenário, contudo, encontra-se sob um pretexto mais higiênico, disposto a explorar questões diferentes das que, normalmente, atendem situações como as tratadas. Camille (Kabrina Adams) surge como protagonista de uma narrativa sobre encontrar-se, sobre o abandono de uma vida tradicional para o cultivo de uma nova, humilde, mas livre.

O desapego do espectador à protagonista, porém, machuca gravemente a carga dramática da obra, insistindo, por meio do roteiro, na inserção de um pano de fundo para a personagem – sobre o seu pai – completamente desnecessário, porque Skate Kitchen não possui o menor interesse em explorar qualquer dessas coisas – Kabrina Adams é um espelho do espectador chateado. O comportamento da personagem soa deveras artificial, algo que, em um primeiro momento, pode ser consideravelmente aceito, para exemplificar um peixe fora d’água de costume, à procura de mares mais condizentes com a sua real natureza. O olhar permanece com o passar da duração do filme, sempre com a skatista atrás, visualmente, de suas colegas, que conhece através do falso – redes sociais – para encontrar, factualmente, através do verdadeiro – a pista. A verdade, todavia, não existe para além da ideia. Uma garota que quer a liberdade ou uma garota que não sabe o que quer? Caso conseguisse se adequar à contemplação da liberdade imaginada, o filme funcionaria, sem muitos apetrechos narrativos, mas situando-se em uma esfera sensorial própria.

A contraposição das garotas com os garotos é compreensível – as brigas recorrentes -, por justamente adentrarmos uma sociedade na qual o “feminino” sente-se à parte em cenários “masculinos”. Os conceitos de outrora são subvertidos, sobre o que cada um deles permite o indivíduo ser. A cineasta, paralelamente, consegue imprimir genuinidade nos momentos de interação entre as garotas, situações onde o roteiro, em termos de diálogo, consegue se sair melhor, encontrando certas trivialidades para movimentar conversas orgânicas – em outros, o adequado. O caráter quase documentarista na proposição percebida aufere uma condição equivocada à obra. Crystal Moselle segura na câmera e “invade” – sem nenhuma agressividade – os ambientes retratados. O seu demasiadamente comprido filme é inerte ao cenário apresentado. Quando chega a hora da protagonista aprender alguma coisa com essa liberdade vivida por pouco, mas tanto, o longa-metragem amarra as pontas para mostrar que, verdadeiramente, não expôs, senão imagens sobre a juventude “em ação”, composições sobre a juventude como verdade. O vago.

Skate Kitchen – EUA, 2018
Direção: Crystal Moselle
Roteiro: Crystal Moselle, Jen Silverman, Aslihan Unaldi
Elenco: Kabrina Adams, Emmanuel Barco, Tom Bruno, Thadeus Daniels, Kobi Frumer, Taylor Gray, Nico Hiraga
Duração: 106 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.