Crítica | Slasher – 1ª Temporada

estrelas 3

O slasher, um dos subgêneros do terror com maior extensão territorial no campo da indústria cinematográfica, pois parece nunca ter fim. E por sinal, essa façanha de nunca acabar parece relação metalinguística entre os temas dos filmes deste segmento e a indústria cinematográfica, em especial, a hollywoodiana, especialista em reciclagem, haja vista uma das características mais comuns destas obras: um assassino que não morre nunca, mesmo após dezenas de tiros, facadas e outras formas de legítima defesa por parte dos perseguidos em combate.

Apesar das avaliações negativas por parte da crítica especializada, este tipo de narrativa ainda exerce fascínio no público, independente dos clichês, antagonistas imortais e personagens que dificilmente evoluem, sendo os filmes da franquia Pânico uma raríssima exceção. Responsável por dar novo fôlego ao subgênero, a saga de Sidney Prescott mostrou que havia a possibilidade de ser genial dentro deste tipo de narrativa, pois ao fazer uso da metalinguagem e discutir temas pertinentes para a contemporaneidade, como a sociedade do espetáculo e a violência no cinema, Wes Craven (direção) e Kevin Williamson (roteiro) oxigenaram o campo do terror em 1996, sendo os responsáveis por trazer à tona um estilo desgastado com as numerosas e insalubres continuações das franquias Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo e Halloween.

Vinte anos depois, estamos diante de um panorama nada promissor para as narrativas classificadas como slasher. Sem novidades, muitos produtores independentes lançam cópias explícitas inspiradas na “santíssima trindade” dos anos 1980: Jason, Freddy e Michael. Com a chegada de Slasher, série com apenas oito episódios de 52 minutos, criada por Aaron Martin, que assina o roteiro e a produção executiva, tendo na direção o trabalho de Craig David Wallace, houve bastante burburinho entre os seguidores da temática. As perguntas gravitavam em torno da seguinte especulação: será que a série vai resgatar o subgênero na atualidade, assim como Pânico fez em 1996?

Diante dos resultados da primeira temporada, não precisa ser um especialista em cinema para afirmar que não. A série é dinâmica em alguns pontos, o clima de investigação vai bem até uma média de 70% do desenrolar dos fatos, algumas piadas são interessantes e as referências tornam tudo mais interessante, mas o desfecho nos mostra que este tipo de narrativa já alcançou um patamar que se tornou praticamente impossível renovar-se. Serve para divertir os fãs do gênero ou até mesmo como ritual de iniciação para aqueles que nunca assistiram a um filme de assassino mascarado, entretanto, renovar e abrir um novo segmento slasher na indústria do cinema? Definitivamente, não!

Isso não significa que filmes de psicopatas mascarados vingando uma injustiça ocorrida na juventude traumática ou um moralista executando jovens que usam drogas, relacionam-se sexualmente fora do casamento ou realizam algo que esteja fora dos limites impostos pela “moral e pelos bons costumes”, vá deixar de existir, pelo contrário, estas narrativas são constantemente lançadas, principalmente nos circuitos alternativos. O que se reflete aqui é a falta de credibilidade para o surgimento de um boom dentro desta indústria fragilizada após tantas continuações, refilmagens e prelúdios.

Mas, afinal, do que se trata essa série?

No episódio piloto somos levados à noite de Halloween de 1988. A câmera capta o movimento da rua, crianças percorrem algumas casas entoando o clássico “gostosuras ou travessuras”. É possível ter uma leve impressão de que estamos na franquia de Michael Myers. Até nos enquadramentos e movimentação de câmera o estilo é parafraseado. Um casal conversa dentro de uma das casas, aguardando a chegada de um amigo para sair em comemoração. A esposa está grávida, decidiu por ficar em repouso, liberando o marido para se divertir com o amigo que ainda não chegou.

Alguém bate à porta. O sorridente homem abre e se diverte com a imagem do suposto amigo vestido de Carrasco, numa representação aterrorizante de uma figura com traços medievais, silenciosa e observadora. Convidado a entrar, o Carrasco aguarda a movimentação para surpreender os envolvidos em cena, bem como nós, espectadores em suspensão. Outra pessoa bate à porta. Ao abrir, o dono da casa surpreende-se com a chegada do amigo, pois achava que o mesmo estava vestido com a tal roupa medieval. Em segundos, o Carrasco ataca-o, empalando-o, cortando o rosto do amigo, mas liberando-o da morte sangrenta. O interesse ali era o casal que habitava a casa. Sem piedade, ambos são assassinados violentamente. Rachel (Alyson King), grávida de nove meses, é a que encontra a morte mais dolorosa, por sua vez, violenta.

Ao chegar, a polícia encontra o assassino, Tom Winston (Patrick Garrow), ninando o bebê recém-nascido. A narrativa ganha uma longa elipse temporal, somos remetidos ao presente, com a chegada de Sarah Bennett (Katie McGrath), uma galerista interessada numa vida tranquila na interiorana Waterbury, juntamente com o seu companheiro, o jornalista Dylan (Brandon Jay McLaren). Eles se mudaram e vão morar na casa com o tal passado sombrio. Tudo parece idílico e divertido, até que uma série de crimes ligados à vinganças bíblicas e aos sete pecados capitais começam a devastar a cidade. É aí que descobrimos que Sarah não é uma personagem qualquer: ela é nada menos que o bebê sobrevivente da horripilante noite de 1988.

Intrigada pelo modus operandi do psicopata, Sarah decide visitar o assassino dos seus pais, Tom, preso há mais de duas décadas. Ao passo que os crimes vão acontecendo, a jovem percebe que assim como Sidney, a heroína da franquia Pânico, todos ao seu redor podem ser suspeitos, assim como vítimas em potencial, haja vista que o Carrasco parece saber da maioria dos segredos sombrios aparentemente enterrados, mas que começam a vir à tona sempre que há a necessidade da narrativa avançar. E um detalhe importante: a confiança é um artigo de luxo que Sarah não pode gabar-se de ter. Para estreitar ainda mais a relação com Sidney Prescott, Sarah Bennett também sofre com o passado promíscuo da mãe, um item a mais no painel de preocupações cotidianas.

Após cada crime, Sarah percebe que as pessoas assassinadas estão ligadas às práticas que nos remetem aos pecados capitais, tema que ficou com poucas possibilidades criativas depois do ótimo filme de David Fincher. Popularizado pelos artistas por volta do século XIV, estes pecados estão ligados as condições humanas, os seus vícios e manias. Apesar de preceder o cristianismo, foi usada pelo catolicismo com o intuito de doutrinar os seus seguidores, como forma de controlar os instintos básicos do ser humano.

Sendo assim, há na série os crimes ligados à “gula”, diretamente relacionado ao egoísmo humano. No caso da “avareza”, a pessoa é punida pelo apego excessivo e sem controle aos bens materiais e ao dinheiro. O acometido pela “luxúria”, desejoso por numerosas formas de prazer corporal e material, também ganhará um destino cruel, bem como o que carrega consigo a “ira”, também conhecido como cólera, sentimento ligado a extravasar a raiva sem limitações, sendo este um dos responsáveis dos causadores de conflitos em toda a história da humanidade. Nesse ponto, Slasher também encontra Jogos Mortais.

Quem é pecador que se proteja, porque o Carrasco age sem piedade, colocando os personagens nas mais mortais “armadilhas”. Mas no caso da série, não há um jogo de redenção. Quem vai para o palco da sentença já está com a morte agendada e garantida. O desejo exagerado por posses e status alheios, ou seja, a inveja, também é garantia de punição, assim como a preguiça, responsável por causar danos que trafegam desde a falta de esmero, ao desleixo e a morosidade. A soberba, associada ao orgulho excessivo, a arrogância e a vaidade é considerado um pecado tão fora de série que deveria ser tratado diferente dos outros e ter atenção especial. Não é a toa que ficou por último na série e ganhou uma representação gráfica de violência no sétimo episódio, o que ao meu ver, deveria ter sido o derradeiro.

Há um ponto em que a narrativa se perde, deixando o nosso sensor ligado nos ditames da narrativa estilo “whodunit”. Quem matou? Quem será o próximo? Conforme apontou o roteirista, que também assina a produção executiva, em Slasher o interesse era “contar uma história de monstro atual, nada mitológico, mas um monstro totalmente humano”. Apesar da falta de experiência na área, Aaron Martin conhece o terreno em que pisa, mas falha ao traçar a sua caminhada. Há um momento em que a homenagem torna-se visivelmente uma colcha de retalhos que desesperadamente tenta agradar ao máximo de pessoas.

O criador afirmou que “a série é uma fusão dos seus gêneros favoritos, entre eles, o slasher clássico, as narrativas de mistérios e crimes contemporâneos e as obras atemporais de Agatha Christie”. Eis um coquetel de referências que perdeu o controle em seu desenvolvimento. Inicia-se bem, caminha deliberadamente instigante, mas perde impacto nos três últimos episódios, sendo o desfecho insosso e desnecessário. Talvez fosse o caso de terminar no sétimo episódio.

A promessa dos produtores de fazer Pânico parecer uma brincadeira de criança não deu certo. Slasher é interessante em partes, mas não chega aos pés da dinâmica do trio protagonista, tampouco das discussões contextuais envolvendo mídia, violência e sociedade. Os crimes podem até ser mais mirabolantes, mas não é só de mortes criativas que se ergue um bom slasher. Apesar de ser tributário de várias narrativas do estilo, tais como Sexta-Feira 13, Halloween, A Hora do Pesadelo, O Massacre da Serra Elétrica, Seven – Os Sete Pecados Capitais, entre outras, será com Pânico o maior paralelo de referenciais.

Nas cenas da cadeia, enquanto Sarah visita o experiente psicopata, percebemos uma alusão aos confrontos entre Hannibal e Clarice, dupla do excepcional O Silêncio dos Inocentes. Ele mentor, ela aprendiz, em trocas simbólicas instigantes. “Vou nadar, você deveria também!”. Um convite simples, aparentemente parte qualquer de um dos diálogos, mas que contém total relação com o elemento água, um dos focos da série Sexta-Feira 13. Tal convite já foi realizado por várias personagens ao convidar seus parceiros para um banho em Cristal Lake, antes claro, da chegada de Jason para estragar a festinha, destrinchando-os. Há até um empalhador que nos faz lembrar a taxidermia de Norman Bates, em Psicose. O turismo na cidade está em baixa após os assassinatos? Tubarão? Não sei, pode ser, e você, leitor, o que acha?

Ao passo que Sarah tenta se estabelecer como galerista, Dylan é convidado para o jornal da cidade. “Uma história desta tem prazo de vida curto”… “A história da água fica para a página cinco”: duas sentenças, amplos significados. Diante da primeira, Dylan percebe que será preciso passar por cima de tudo para conseguir o sucesso. Mesmo que a esposa sofra com as mortes que rementem ao seu passado, bem como o extermínio dos amigos mais próximos, o que está em jogo é o alavancar da carreira como jornalista responsável por cobrir os crimes hediondos daquela região interiorana que está, aos poucos, ganhando as manchetes dos principais jornais do país. É aí que Dylan torna-se a versão masculina de Gale, uma das protagonistas da franquia Pânico, personagem responsável por representar cabalmente o que se convencionou chamar de sociedade do espetáculo: quanto mais sangue, mortes e tragédias familiares, mais chances de aparecer na mídia como “júri, juiz e repórter”.

“Este tipo de história é a sua oportunidade”, aponta uma jornalista visitante, ao instigar Dylan à esquecer os princípios éticos e tomar a história como o pontapé para alavancar a sua vida profissional, mesmo que isso custe a vida de amigos e a da sua esposa. E com isso, a promessa de um livro cobrindo todos os acontecimentos, já aprovado por uma editora focada em produções sensacionalistas, o que nos remete ao best-seller Os Assassinos de Woodsboro, publicação de Gale Wheatrs em Pânico, obra que será adaptada para o cinema em Pânico 2, depois livremente inspirada para os bastidores de produção do filme Facada, em Pânico 3.

Produzida pelo canal Chiller, uma ramificação do grupo NBC Universal, desde 2007 especializado em transmitir programas e filmes do gênero terror, Slasher promete seguir o padrão antologia, com um tema diferente a cada temporada. Coproduzida pelo canal canadense Super Channel, a série foi filmada em Ontário, no Canadá, região que oferta o clima nublado e frio das cenas. O final delineia que a série provavelmente não terminará por agora. Fica, portanto, uma dúvida no ar: de acordo com a sua última cena, a próxima temporada será intitulada de A Cidade dos Amaldiçoados ou Colheita Maldita?

Slasher – 1ª Temporada (Canadá, EUA e Reino Unido, 2016)
Direção: Craig David Wallace.
Roteiro: Aaron Martin.
Elenco: Katie McGrath, Brandon Jay McLaren, Steven Byers, Alysa King, Christopher Jacot, Dean McDermott, Dylan Taylor, Erin Klarpuk, Jessica Sipos, Rob Stewart, Wendy Crewson.
Duração: 52 min (cada episódio).

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.