Crítica | Slasher: Guilty Party – 2ª Temporada

A trama é bastante familiar. Observe: cinco amigos que foram monitores durante as férias em um acampamento de verão se metem numa confusão ao preparar uma lição tendo em vista se vingar de uma pessoa inoportuna, mas as coisas saem do controle e uma morte inesperada muda o curso de tudo. Explorado em diversos filmes de terror, este molde é a base para o segundo ano de Slasher.

O criador da primeira temporada, Aaron Martin, retornou para a série, lançada desta vez pela NETFLIX, serviço de streaming responsável por comprar os direitos de produção e exibição do Chiller, rede de transmissão canadense especializada em histórias de terror. No mesmo formato antológico da primeira incursão, temos mais um assassino mascarado a perseguir jovens numa região distante da urbanização.

Na temporada anterior, Pânico deu a base estrutural para a trajetória de Sarah Bennett (Katie McGrath), jovem que retorna para a sua cidade natal, a “tranquila” Waterbury, juntamente com o seu companheiro, o jornalista Dylan (Brandon Jay McLaren), sem esperar que um segredo do passado envolvendo os seus pais fará um rastro de sangue marcar a vida de todas as pessoas que a circundam. Para a segunda empreitada, os produtores investiram novamente num arsenal de referências, mas é com Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado que a história buscará norteamento.

Sem nenhuma ligação com a história anterior, a nova empreitada em oito episódios aposta no maior derramamento de sangue e no aumento da violência gráfica para o desenvolvimento do enredo: com a estrutura tal como descrita anteriormente, a série traz à tona os segredos que envolvem uma vingança mal sucedida. Irritados com a “falsiane” Talvinder (Melinda Slankar), os jovens de um acampamento de verão decidem armar uma cilada para a moça inescrupulosa. O problema é que as coisas fogem do planejamento e a garota acaba morta, o que compromete o futuro de todos os envolvidos.

O que fazer diante da situação? Enterrar o corpo? Cortar em pedaços? Diante do estresse, eles buscam uma solução que se apresenta sem eficácia, pois colocam o cadáver num local de difícil acesso, mas para a infelicidade de todos, Dawn (Paula Bracati), uma das envolvidas, descobre que há planos de revitalização da área, tendo em vista a construção de um resort. Com a obra é bastante provável que encontrem o corpo, o que culminará numa nova etapa de aflição para os jovens carregados pelo sentimento de culpa.

Assim, ela consegue convencer a todos no que diz respeito o retorno ao local, um espaço que hoje pertence à irmã de um antigo proprietário do acampamento. Renee (Joanne Vannicola) é a nova gerenciadora, mulher que conta com o apoio de Antoine (Christopher Jacot), seu atual companheiro. Ambos vivem numa relação pouco convencional, pois são gays, mas por falta de opções favoráveis, decidiram que seriam felizes se “ficassem” juntos. Fazem parte deste ambiente outros personagens com as suas subtramas: Judith (Leslie Hope), Mark (Paulino Nunes), Keira (Madson Cheeatow), Wren (Sebastian Pigott) e Glenn (Ty Olsson), este último, responsável por um dos fios narrativos mais desconectados com a história central.

Como pede a cartilha slasher, logo no primeiro dia de viagem, morrem dois personagens envolvidos com a tragédia de Talvinder. Presos no local, pois alguém fez questão de subtrair todo o combustível do carro, os jovens agora precisam descobrir quem está por detrás do mistério que os envolvem neste local longe da civilização. Perseguidos por uma figura mascarada, as peças vão sendo ajustadas neste quebra-cabeça que a cada momento, perde um jogador, ceifado através de mortes coreografadas e bastante violentas.

Através das idas e vindas que lembram How To Get Away With a Murder, o clima desta segunda temporada nos remete também ao universo da franquia Sexta-Feira 13 (o acampamento) e ao genérico de Pânico, o divertido e limitado Lenda Urbana (o visual do assassino). Há várias citações, inclusive ao personagem Jason, bem como outras referências visuais que só pega quem é especialista no subgênero slasher. Com desfecho convincente, mas escolhas já saturadas nos meandros da dramaturgia (quem já assistiu aos ótimos Os Outros, Identidade, O Sexto Sentido, etc. saberá do que estou falando), Slasher – Guilty Party é o tipo de entretenimento que vicia, mesmo diante dos seus problemas narrativos.

O surgimento de uma nova temporada é comercialmente inevitável, principalmente por conta do resgate contemporâneo do tema na indústria cultural. É a persistência da memória dos psicopatas mascarados dos anos 1970, 1980 e 1990 em seu momento de pleno desenvolvimento e reconfiguração, resgatados, refilmados e referenciados através de livros, filmes, séries, etc.

Slasher – Guilty Party (Idem, Estados Unidos/Canadá – 1º de novembro de 2017)
Criação: Aaron Martin
Direção: Vários
Roteiro: Aaron Martin
Elenco: Leslie Hope, Paula Bracanti, Jefferson Brown, Ty Olsson, Jim Watson, Paulino Nunes, Joanne Vannicola, Sebastian Pigott, Christopher Jacot, Kaitlyn Leeb
Duração: 50 min. por episódio (08 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.