Crítica | Slice & Dice – The Slasher Film Forever

Não há depoimentos de John Carpenter. Wes Craven não aparece sequer numa foto de bastidores. Sean S. Cunningham também não dá as caras. A surpresa é que mesmo sem a presença dos cineastas responsáveis por três medalhões do slasher entre os anos 1970 e 1980, o documentário consegue dar conta da sua proposta panorâmica de reflexão sobre o subgênero, numa grata surpresa, pois Em Pedaços já havia sido lançado alguns anos antes e parecia ter contemplado as informações suficientes sobre o campo de produção em questão.

Dirigido por Callum Wadell, Slice and Dice: The Slasher Film Forever, lançado em DVD apenas no exterior, em 2013, conta com os depoimentos de Corey Feldman, um dos sobreviventes de Sexta-Feira 13 – O Capítulo Final; do cineasta Tobe Hooper, responsável pelo clássico O Massacre da Serra Elétrica; Mick Garris, produtor da série de TV Mestres do Terror; Tom Holland, diretor de Brinquedo Assassino; Jeffrey Reddick, criador da franquia Premonição; Adam Green, diretor de Terror no Pântano; Scott Spiegel, produtor da franquia O Albergue; Patrick Lussier, montador dos filmes da franquia Pânico e diretor de Drácula 2000 e da refilmagem de O Dia dos Namorados Macabro.

Não temos os depoimentos “legitimadores” dos grandes nomes do cânone slasher, mas isso não impede o documentário de ser didático, bem realizado, em suma, um presente para o público que busca entretimento, bem como aos que buscam investigação científica ou análise crítica. Sem o uso excessivo de fotos cansativas e monótonas em sua concepção, no que tange aos aspectos de conteúdo, Slice and Dice: The Slasher Film Forever trafega entre depoimentos, trechos do filme, entrevistas de arquivo e fotografias de bastidores, material editado por Naomi Holwill.

A condução musical é inexpressiva e não se destaca, mas o que importa mesmo é o resgate de algumas imagens raras, inclusive de filmes poucos referenciados em outros documentários debruçados na memória do subgênero slasher.  Por meio de gráficos e efeitos visuais curiosos, caracterizados como incomuns em minha percepção, algo que não chega a atrapalhar o resultado final. Dividido em blocos, Slice and Dice: The Slasher Film Forever é apresentado em cinco principais tópicos: a gênese do slasher, as convenções do subgênero, a importância de um antagonista para o estabelecimento do medo, a final girl, a estética das mortes e a impossibilidade de dizimar o “bicho-papão”.

O documentário abre com o ator Corey Feldman brincando com as convenções de estilo, ao reforçar as regras básicas. Em poucas palavras, ele afirma em tom jocoso, “não fume, não beba, não fique nu”. Tal como Em Pedaços e Halloween – The Inside History, o filme em questão demarca Psicose como as primeiras pegadas do slasher. Os expoentes deixam em evidência o legado e o impacto da famosa cena do chuveiro, sendo ainda mais cuidadoso ao também creditar a presença de A Tortura do Medo, de Michael Powell, lançado em 1960, como parte deste momento de ressonâncias culturais. Mesmo que Psicose ganhe nos relatos sobre a mitologia das origens do slasher, o filme de Powell ao menos foi respeitosamente referenciado.

As convenções do gênero: não fumar e não beber. Desta forma, para a sobrevivência, talvez seja ideal ser mãe ou criança, mas isso é relativo, pois Sexta-Feira 13 Parte 4 – Capítulo Final matou uma boa mãe, além do novo Halloween, com Michael Myers, ter dizimado uma criança sem piedade.  Não investigue barulhos, tampouco seja uma pessoa estúpida. Importante: evite retornar para o segundo filme. Isso, claro, é relativo também, principalmente quando pensamos Sidney Prescott, Laurie Strode e Julie James, personagens com mais sorte que Adrienne King em Sexta-Feira 13 Parte 2. Em tom irônico, os depoentes dizem que o ideal é saber para onde correr e agir com inteligência ao traçar a rota de fuga.

A importância de um vilão forte é o tópico que dá continuidade ao documentário. Corey Feldman, inclusive, defende Michael Myers como o mais assustador, seguido de Freddy Krueger, “traindo” o seu antagonista Jason Voorhees, agente persecutório ao longo de três filmes. O tópico seguinte versa sobre a final girl, feixe de personagens apresentados dentro dos seus respectivos moldes. Mais adiante, os comentários tratam da estética das mortes, algumas gráficas demais e outras mais sutis. Um dos pontos mais interessantes é o seguinte, sobre a impossibilidade de matar o antagonista, uma ideia base do slasher, daí a justificativa de suas constantes sequências.

Na última parte, os entrevistados comentam as refilmagens e criticam a indústria por falta de criatividade. Core Feldman propõe, de maneira bem humorada, uma versão de reencontro entre seu personagem Tommy Jarvis e Jason Voorhees, ao estilo Jamie Lee Curtis e Michael Myers em Halloween – A Noite do Terror, filme que inclusive, é elogiado como o mais promissor e bem realizado do circuito. A questão é que isso já não aconteceu de maneira similar e Sexta-Feira 13 parte 6 – Jason Vive? Seu personagem Tommy Jarvis reencontrou Jason e o acorrentou nas águas profundas de Crystal Lake.

Um dos filmes com maior tempo de trechos disponibilizados é o assustador Armadilha Para Turistas, de 1979. Há trechos de filmes e muitas captações estáticas de cenas basilares da formação do slasher, mescladas com um formato kitsch de exibição dos comentários, mas nada que incomode o espectador. Parece coisa de fã, feita para fãs, mas o exercício retrospectivo está presente, bem organizado por sinal. Vencedor na categoria de Melhor Documentário no South African Horror Film Festival de 2012, a produção participou da mostra competitiva do Sitges Film Festival.

Ademais, entre os pontos que merecem reflexão encabeçam a lista que segue: Jogos Mortais é slasher? Tom Holland, cineasta que assumiu o comando de Brinquedo Assassino, alega que nunca imaginou que o seu filme fosse ganhar continuações e se questiona sobre a saga de Chucky ser atrelada ao subgênero de assassinos mascarados. Há exposição de cenas de filmes giallo, mas devemos estar atentos ao fato de que são perspectivas diferentes. O giallo, historicamente, surgiu anteriormente, dando espaço para o estabelecimento do slasher.

Os títulos italianos são expostos com suas traduções culturais para o inglês, mas é preciso compreender que Seis Mulheres Para o Assassino, Tenebre, O Pássaro das Plumas de Cristal e O Estripador de Nova Iorque não estão no bojo de produções slasher. O empréstimo, talvez indevido, chega a ser perdoado. Para os que não conhecem o subgênero, ótima oportunidade, principalmente se assistido como complementação do elucidativo Em Pedaços. Aos especialistas no assunto, a oportunidade gravita em torno do entretenimento, da soma de curiosidades para o cabedal de informações sobre o gênero em questão e a opção de assistir aos trechos de filmes do segmento menos comuns nestes materiais que investem em retrospectiva memorialística. O slasher, como se pode observar, caminha atuante na indústria cultural. Basta saber até quando.

Slice & Dice – The Slasher Film Forever (Estados Unidos – 2012)
Direção: Michael Ruggiero
Roteiro: Mark Frost, Nicholas Conde
Elenco: Wes Craven, John Carpenter, Sean S. Cunningham, Joseph Stefano, Tom Savini, Debra Hill, Rob Zombie, Harry Manfredini, Betsy Palmer, Greg Nicotero, Amy Holden Jones, Janeth Leigh, Joseph Zito, Nick Castle, Adrienne king, Moustapha Akkad, Jamie Lee Curtis, Donald Pleasence, Corey Feldman,
Duração: 88 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.