Crítica | Slovenian Girl
Slovenian Girl, também conhecido como Slovenka ou A Call Girl, é um filme sem arroubos, de narrativa mansa e introspectiva, pautada em detalhes que exigem de seu diretor um olhar mais clínico. Logo, quando encontramos apenas uma história batida sem qualquer novo fôlego ou mesmo permeada por excessos de dramas satélites, nos sentimos um pouco cansados, o que não nos impede, no entanto, de absorver momentos diversos mais bem conduzidos do filme ou sermos dragados pela belíssima canção Run Along, que dita o teor da trilha sonora original.
Seguindo o dedilhar do teclado, ou apenas sons diegéticos que exalam a turbulência de uma cidade agitada contraposta à calmaria do subúrbio, acompanhamos a história de Aleksandra, uma garota de 23 anos atormentada por sua realidade como prostituta. Usando o pseudônimo que dá título ao filme – a garota eslovena – a jovem acaba por se envolver acidentalmente na morte de um diplomata estrangeiro e vê a sua já não tão indolente vida virar de pernas para o ar.
Assim, o que acompanhamos em Slovenian Girl é a clássica história de uma garota que, por questões econômicas, acaba virando prostituta e passa por inúmeros problemas em vários níveis de sua vida. Estão lá os cafetões para ameaçá-la, o homem possessivo e apaixonado que tenta trazê-la para perto de si enquanto a afasta, o pai emotivo, condescendente e preocupado, a mãe distante, homens degradantes e todo tipo de elemento que possa encher o roteiro, ocupar tempo de projeção e jogar luz sobre a obra. Logo, quando as mesmas circunstâncias que já vimos em outras produções surgem, o que ocorre na mente do espectador é um total desinteresse em contemplar mais do mesmo. É complicado aceitar, portanto, as idas e vindas entre o subúrbio e a cidade sem um elo que realmente conecte os dois pontos, quando a trama foge de sua personagem principal para focar no pai dela, Edo, e sua tentativa de trazer de volta uma antiga banda de rock. A mudança na história não só atira o público para longe do que realmente importa como não faz qualquer sentido com o conjunto do filme.
Por outro lado, e para fazer de Slovenian Girl um filme que merece um tomate vermelhinho, as falhas não suplantam inúmeras de suas qualidades, a começar por Nina Ivanisin, sua protagonista. A atriz, beneficiada pela maquiagem sutil que lhe confere olheiras e um rosto “amassado”, carrega nos ombros o drama de Aleksandra, nos convencendo com sua fala morta e seu andar arrastado o quão pesada é sua rotina. Porém, quando encaramos os joguetes da personagem para se beneficiar é que somos surpreendidos pela intérprete, que dissimula, trapaceia e não tem receio de usar um câncer inexistente como desculpa para fugir dos mais variados problemas ou mesmo aceitar dinheiro de seu pai quando as condições dela são um pouco melhores. É interessante notar que mesmo usando um timbre monocórdico, a personagem se impõe ao entrar no quarto do seu primeiro encontro no filme ao assumir uma fala mais firme. Peter Musevski, como Edo, também convence ao conferir um ar paternalista e protetor ao homem que, mesmo encarando o desdém da garota por ele, como reflexo da vida de distanciamento que ela leva, ignora-o para manter uma boa relação.
Interessante é ver que, quando abandona os estereótipos da história e se foca em seus personagens, o roteiro escrito a seis mãos (uma provável explicação da falta de rumo da trama e das mais variadas interrupções) é bem sucedido, principalmente ao retratar os homens que se envolvem com Aleksandra. Apesar de encontrarmos muitos inescrupulosos, percebemos que não há uma uniformidade física ou mesmo de caráter atribuída a eles. Tanto que, em um dos encontros, um senhor a trata com uma gentileza inesperada.
As composições visuais de Slovenian Girl também somam pontos à nota final, já que são permeadas de interpretações interessantes, como quando vemos a protagonista ao lado da amiga, Vesna. Enquanto a primeira não traz nada marcante, a segunda exibe um cabelo ruivo bem cuidado, utiliza maquiagem e emana vida. Contemplar o apartamento de Aleksandra também surge como ótima experiência que define o lado psicológico da personagem. Quase totalmente vazio, exceto por um colchão no chão, uma mesa, cadeiras e algumas coisas espalhadas, o local é um reflexo da alma da prostituta em meio à vida citadina, que encontra um vislumbre de salvação quando a jovem leva para casa um abajur luxuoso, que poderia facilmente ser visto como uma tentativa de trazer algo novo para aquela experiência, alguma coisa cara e distante. Ver então seu quarto na casa de seu pai, arrumado, cheio de pôsteres de bandas, com objetos mais infantis e femininos, é visualizar o retorno ao local onde ela se sente segura e pode descansar, voltando à infância ou adolescência.
No apagar das luzes, quando a câmera do diretor Damjan Kozole foca em sua “heroína”, criando um paralelo interessante com a abertura do filme, e a garota canta com a voz falha uma canção que dá pistas sobre seu destino, o que temos é um filme interessante que, mesmo não conseguindo se libertar das garras da falta de originalidade, obtém êxito em partes mais isoladas, além dos nos fazer pensar se realmente torcemos por Aleksandra, já que não sabemos ao certo se seu comportamento imoral é uma necessidade para sua sobrevivência ou uma atributo indistinguível dos seus demais aspectos.












