Crítica | Sniper Americano

estrelas 2,5

Sniper Americano (2014) é possivelmente o filme mais fraco e ideologicamente questionável já dirigido por Clint Eastwood.

Baseado na vida do SEAL Chris Kyle, um francoatirador que despachou 160 almas para Alá (número confirmado pelo Pentágono, mas atribui-se a ele 255 mortes), o longa, escrito por Jason Hall traz fatos da vida do militar retirados de sua autobiografia e procura nos mostrar a Guerra do Iraque através do olhar dos invasores americanos, especialmente através do olhar de Kyle, “A Lenda”, e seu grupo de libertação.

Pelo patriotismo e tom conservador do filme – nada de novo aí: Eastwood é um conservador assumido e militante do Partido Republicano desde 1951 –, ou seja, algo que fala ao coração da maioria dos americanos, não é de se espantar que as bilheterias tenham explodido para vê-lo, o que deu ao longa o posto de maior estreia do mês de janeiro na história do cinema americano até hoje. Também não passa em branco as 6 indicações ao Oscar que o filme recebeu.

Mas junto com a estreia, veio a polêmica. O cineasta Michael Moore disse pelo twitter que “snipers são covardes, não heróis“. O ator Seth Rogen, também pelo twitter, disse que o filme lembrava Stolz der Nation, o terceiro ato de Bastardos Inglórios. Parte do público também entrou na dança pelas redes sociais. O furor foi tal que Dan Isett, diretor do Parents Television Council, foi a público em defesa do filme, afirmando que as críticas vindas de Hollywood eram de uma “hipocrisia insensível”.

Mas fica a pergunta: todo esse furdúncio tem razão de ser?

A resposta, claro, é subjetiva, mas independente das ideias políticas ou visões de cinema do espectador, é sempre importante ter a obra em contexto. Já falamos das inclinações políticas do realizador e da fonte primária para o roteiro. Pois bem. Como Eastwood trabalha com elas?

O que nos chama a atenção em primeiro lugar é fato de que um diretor do porte de Clint Eastwood, que já havia mostrado o lado americano com alto nível de crítica para uma série de questões e em diversas ocasiões históricas ou políticas como em Os Imperdoáveis (1992), A Conquista da Honra (2006), Gran Torino (2008) e J. Edgar (2011), produz e dirige um longa que, mesmo que siga um ponto de vista X, é inteiramente alheio ao ambiente em que se passa. O texto de Sniper Americano é estúpido e reducionista, reproduzindo às claras os clichês dos medianos longas de guerra e valendo-se do contexto emotivo/ideológico do público, da exemplar montagem de Joel Cox e Gary Roach, e da ótima interpretação de Bradley Cooper para cavar algum significado terceirizado, algum sentido um pouco mais profundo que o próprio filme não consegue se dar.

Se olharmos para a estrutura da obra temos com todas as letras um filme medíocre, com um ou outro setor funcionando de maneira notável (atuações e montagem) e o restante apenas existindo como fator de reconhecimento de quem assiste: o cidadão americano indignado com os ataques às Torres Gêmeas; a história familiar e pessoal desse cidadão, cuja mulher grávida o espera voltar da guerra; a dificuldade em combate, com algum amigo ferido e a disposição do protagonista para vingá-lo; o desfecho claramente condescendente para com as atitudes do protagonista, chamado de herói e louvado por isso, mesmo que ele próprio tenha crises de consciência e esteja constantemente perturbado pelo que fez em campo. Se Jason Hall tivesse problematizado essa casca comum o resultado final seria outro. Mas não. Sniper Americno é exatamente a exposição dessa miríade de clichês e tudo fica por isso mesmo.

No filme, não existem implicâncias políticas externas, interesses econômicos, armas de destruição em massa sendo procuradas, nada que fuja à simplória visão do sniper para a guerra. Aqui, os americanos estão no Iraque fazendo um favor para aqueles que chamam de “selvagens”. Cooper vive um personagem que funciona no automático: ele sabe apertar o gatilho, jamais questiona nada, e tudo o que acontece no filme depois dos 25 minutos iniciais está inteiramente ligado ao homem e sua arma, sua compulsão pela defesa da nação ou seu “divertimento”, para usar as palavras do próprio Chris Kyle, morto em 2003 por um veterano.

Essa superficialidade e as teclas dramáticas há muito batidas acabam tornando o enredo do filme bem familiar e facilmente apreendido pelo espectador. Alguns vão se incomodar, é claro, mas a maioria, e talvez também esses que se incomodarão, serão fisgados pelas cenas de perseguição, tiros e missões do protagonista. Nesse ponto, a obra cumpre bem o seu papel de mercado. Há entretenimento e há emoção. Mas, além de moralmente questionáveis, o roteiro e a condução geral da fita são rasos, algo mais ou menos no caminho de A Hora Mais Escura (2012), de Kathryn Bigelow, especialmente no desvio moral e reducionismo histórico-político.

Curiosamente, outro filme de Bigelow, Guerra ao Terror (2008), pode ser trazido à tona para mostrar que esse tipo de questão pode sim ser trabalhado através do olhar americano de forma crítica e bem mais interessante narrativa e tecnicamente. E para não dizer que é apenas coisa de cinema, por que não citar a série Homeland (2011) como exemplo de fértil problematização para a causa?

Não há dúvidas de que Clint Eastwood é um ótimo diretor e ator. Seu currículo está aí para provar. Mas o que ele faz em Sniper Americano é um trabalho que praticamente não se sustenta nem como linguagem, porque apenas parte de seus ingredientes são satisfatórios. A ideia do filme é grandiosa (o que não quer dizer que sua execução não possa ser preguiçosa), e temos uma exposição instigante – criada pela montagem – dos eventos propostos pelo roteiro. Mas assistir a pouco mais de duas horas de louváveis e bravos heróis da paz lutando contra Darth Vaders de Alá sem nada que vá além do óbvio para sustentar ou problematizar a ação é um grande incômodo para quem assiste e isso não tem nada a ver com posições ideológicas.

Mesmo sabendo que Eastwood poderia trazer algo em outro patamar (como já fizera em outros de seus filmes), não há que se espantar com o ideal geral que ele carrega, afinal, a obra se chama Sniper Americano, não é mesmo? Mas sabendo o quão bom Clint Eastwood pode ser na direção, o espectador talvez imagine que haverá ali uma mescla de cinismo e ironia por parte do diretor, o que não acontece. O longa é uma panfletagem pura e simples, mas não aquelas panfletagens bem feitas e cheias de significado histórico e cinematográfico como O Encouraçado Potemkin ou O Triunfo da Vontade. O diretor até tenta brincar um pouco com o cinema de um gênero específico, trazendo a realidade da criação de uma lenda que é morta pela sua própria fama (O Matador, 1950), mas isso é muito sutil e de impacto zero para dar tutano ao todo do roteiro.

Para um grande admirador do cineasta, dói ver que alguém com tamanho talento e tanta experiência no cinema tenha entregue um trabalho com esse nível de mediocridade e temática engessada. Como já disse, o filme cativa por um determinado aspecto, mas no final, tudo o que temos é ópio óptico ao som de sirenes, tiros e vivas para um matador tornado herói por uma nação.

Sniper Americano (American Sniper) – EUA, 2014
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Jason Hall (baseado no livro de Chris Kyle, Scott McEwen e James Defelice).
Elenco: Bradley Cooper, Kyle Gallner, Cole Konis, Ben Reed, Elise Robertson, Luke Sunshine, Troy Vincent, Brandon Salgado Telis, Keir O’Donnell
Duração: 132 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.