Crítica | Sob o Mesmo Céu

estrelas 3,5

Vira e mexe a crítica parece escolher a dedo um filme para simplesmente pegar no pé. Antes mesmo de estrear, Sob o Mesmo Céu (Aloha, no original, título infinitamente mais apropriado do que o que recebeu por aqui) foi bombardeado de críticas que acusavam o filme – e o diretor Cameron Crowe – de racismo, por ser um filme sobre o Havaí (e que se passa inteiramente nele) que não possui havaianos nativos no elenco principal. Diversos jornalistas atacaram principalmente a escalação de Emma Stone para o papel de uma descendente de havaianos, por não possuir semelhança física/étnica alguma com eles. Cameron Crowe veio a público pedir desculpas àqueles que se sentiram ofendidos com a escalação da atriz, e afirmou que tinha a melhor das intenções em escolhê-la para dar vida à jovem que é ¼ havaiana e que possui uma salada de nacionalidades em sua árvore genealógica, mas que é extremamente orgulhosa de sua pequena fração de sangue asiático-americano.

Polêmicas à parte, Sob o Mesmo Céu é a nova dramédia romântica de Cameron Crowe, cineasta responsável por filmes como Quase Famosos, Jerry Maguire, Vanilla Sky e Tudo Acontece em Elizabethtown. Brian Gilcrest (Bradley Cooper) é um militar que passou por inúmeros traumas e vê sua carreira decair. Ele decide, então, aceitar uma missão no Havaí, local onde possui assuntos inacabados com uma ex-namorada, Tracy (Rachel McAdams), e vai acabar conhecendo a oficial da Aeronáutica em ascensão Allison (Emma Stone). A missão da sorridente e agitada Allison é acompanhar o rabugento e depressivo Brian durante sua atividade na ilha, o que, obviamente, vai fazer com que os dois se aproximem.

“O futuro não é algo que simplesmente acontece. É uma força brutal com um ótimo senso de humor, que te encoraja quando você menos espera.” (trecho de uma fala de Carson Welch, personagem de Bill Murray)

Enquanto aguarda o dia de colocar em órbita um determinado satélite (sua missão), o cético Brian se vê cada vez mais aproximado dessa jovem que é o completo oposto dele: animada, agradável, positiva, esperançosa e, principalmente, apaixonada pelo misticismo da cultura havaiana. Uma grata surpresa do roteiro de Crowe é a quantidade de referências à cultura do país – as crenças desempenham um papel muito importante e são praticamente um personagem do filme –; Cameron as trata com o devido respeito e ainda abre espaço para uma ou outra rápida crítica à relação EUA x Havaí. É quase uma carta de amor à ilha.

Não se pode deixar de destacar o elenco de Sob o Mesmo Céu, e afirmar que o filme correria o risco de ser bem menos do que é se não contasse com ele. Bradley Cooper faz um bom trabalho como o decaído Brian; Rachel McAdams, sempre excelente, dá vida a uma Tracy leve e doce, mas que também convence ao dizer que precisa resolver os assuntos pendentes com o ex “se não vai explodir”, em suas próprias palavras; John Krasinski e Bill Murray, mesmo com poucas falas, marcam presença e são responsáveis por algumas das melhores cenas cômicas do longa (as cenas de diálogo mudo entre Krasinski e Cooper são impagáveis); porém, os holofotes ficam mesmo apontados para Emma Stone, sempre muito competente e carismática, no tom certo como Allison Ng, personagem que poderia facilmente parecer exagerada e irritar o espectador. A direção de Crowe e o talento de Emma tiram isso de letra e a jovem ¼ havaiana cativa desde a primeira aparição, sem nunca parecer forçada. Alec Baldwin também é uma das maiores supresas do filme. Fazendo um personagem que lembra o que interpretou em Elizabethtown, Baldwin coloca toda sua veia cômica para fora em uma das cenas finais e ela funciona muito bem em conjunto com as falas hilárias criadas por Crowe. Sob o Mesmo Céu é um filme surpreendentemente engraçado; só os mais ranzinzas não se deixarão levar pelas simpáticas e bem conduzidas cenas de comédia.

Seja por influência das polêmicas ou não, Sob o Mesmo Céu já é o filme mais fracassado de Cameron Crowe criticamente. Porém, ele está longe de ser essa bomba que a crítica especializada está dizendo que é. Erra a mão em alguns momentos, principalmente no último ato, que mistura a missão de Brian com o romance e o drama e o resultado parece uma confusão de gêneros, mas esse escorregão não chega a comprometer o filme por completo. Sob o Mesmo Céu é bastante agradável e tem as marcas do diretor estampadas do início ao fim: a trilha sonora de presença, uma bela fotografia e senso de humor. Leave Aloha alone!

(Fica a dica da linda música “First”, da banda Cold War Kids, que embala o trailer do filme)

Sob o Mesmo Céu (Aloha) – EUA, 2015
Direção: Cameron Crowe
Roteiro: Cameron Crowe
Elenco: Bradley Cooper, Emma Stone, Rachel McAdams, John Krasinski, Bill Murray, Alec Baldwin
Duração: 105 min.

ANDRÉ DE OLIVEIRA . . . . Estudante de Letras e aspirante a jornalista. Ainda se impressiona com o fato de curtir, na mesma intensidade, do cult ao pop; do clássico ao contemporâneo; do canônico ao best-seller. Usa camisa do Arctic Monkeys — sua banda favorita —, mas nada impede que esteja tocando Nicki Minaj no fone de ouvido. Termina de ler Harry Potter e começa um Dostoévski. Assiste Psicose e depois dá play em Transformers. Não tente entender. @andreoliveeira