Crítica | Sob Pressão (2016)

estrelas 4,5

Andrucha Waddington, responsável por filmes como Eu Tu Eles, Casa de Areia e Os Penetras, nos entrega sua mais nova obra, um longa-metragem sobre a vida em um hospital em zona de guerra: uma das favelas em constante conflito no Rio de Janeiro. O diretor nos traz um retrato bastante realista sobre um desses locais, abordando desde o psicológico dos médicos, como já sugere o título, Sob Pressão, até a intervenção de policiais e bandidos no lugar, compondo um cenário angustiante pelo seu frenesi, que não oferece a nós ou a seus próprios personagens, nenhum tempo para respirar.

A projeção tem início com Evandro (Júlio Andrade), protagonista do filme, tomando seu café da manhã, um misto-quente na porta do hospital. Desde já descobrimos que ele está sem descansar – quanto tempo exatamente não sabemos, mas enxergamos em seu semblante, seu olhar e inferimos pelas pílulas que tomara o seu cansaço. Não demora para uma sirene tomar conta do espaço sonoro e rapidamente uma ambulância chega até a porta do local. Evandro se levanta e começa a ajudar os paramédicos com a situação. Dois gravemente feridos: o dono do morro e um PM, que o capitão da polícia, que chegara junto, exige que seja tratado primeiro. Começa mais um dia para o cirurgião que nem tivera tempo de tomar seu café da manhã.

A pressão presente no título da obra vem de diferentes lados. Primeiro temos a proveniente do capitão Botelho (Thelmo Fernandes) e sua interferência no centro cirúrgico, que chega a ameaçar Evandro de ser preso, caso não opere primeiro seu policial. Segundamente temos a administradora do hospital, Ana Lúcia (Andrea Beltrão), que acredita que todo aquele centro cirúrgico deveria acabar para dar espaço para atendimentos normais. Por fim, a própria pressão de seus trabalhos, a constante luta para salvar uma vida e a necessidade de fazer escolhas que podem definir a vida ou a morte de um paciente.

Sob Pressão é um filme que simplesmente não para. A todo e qualquer momento nos vemos diante de uma difícil situação para essa equipe de médicos. Andrucha Waddington insere, em diversos pontos da narrativa, elementos que visam quebrar a ética de Evandro como médico, mas ele é colocado como uma figura, nesse sentido, inabalável – um doutor que enxerga o homem ferido como paciente e não como rico, pobre, traficante ou policial. Aos poucos nos vemos indignados como esse homem pode trabalhar em um local como aqueles – seu talento é palpável, como o da sua equipe, mas a falta de equipamentos, quedas de luz, dentre outras questões, são constantes barreiras a serem vencidas.

O cansaço em seu olhar e voz é visível, mas isso não o impede de fazer seu trabalho. Júlio Andrade faz um ótimo trabalho ao nos passar uma segurança no que seu personagem faz, rapidamente se estabelecendo como uma figura de autoridade ali, ao mesmo tempo que evidencia os impactos de seu trabalho em sua própria vida. Como o veterano de guerra que, logo após chegar em casa, sente a necessidade de voltar para o front, ele está preso àquele cenário e chega a ser triste ver o quanto é indispensável ali.

Os constantes problemas que deve enfrentar, muito bem inseridos no roteiro de Leandro Assis e Renato Fagundes abordam diferentes aspectos que essa equipe deve enfrentar e essa tensão gerada em nós ainda consegue ser amplificada na sala de cirurgia, que, mesmo sem conhecimentos médicos, conseguimos entender o que se passa, a fragilidade da linha que divide a vida da morte e a corrida contra o tempo à qual esses médicos estão submetidos. Naturalmente que a direção de Waddington é essencial aqui e transforma tais momentos em verdadeiras sequências de ação, com uma decupagem que consegue mostrar o necessário para fisgar seu espectador, mas sem precisar cair de cabeça na operação em si. O olhar dos doutores frequentemente ocupa o quadro, intercalando com suas mãos em trabalho.

O texto ainda consegue trabalhar o lado emocional e psicológico de cada um desses personagens de forma orgânica. Esse aspecto está perfeitamente inserido dentro da narrativa, que somente aborda uma questão quando outra, dentro da trama principal, a puxa. Nada é jogado em tela, há uma coesão que permeia todo o roteiro. Devo, contudo, apontar um único ponto que soa fora da curva e este é a relação entre Paulo (Ícaro Silva) e Carolina (Marjorie Estiano), que soa artificial e é inserida de forma a ficar perdida dentro da narrativa, não desempenhando nenhum papel posteriormente.

Sob Pressão, parte da competição longa ficção do Festival do Rio 2016, é um filme que consegue nos deixar em um estado de constante tensão, nos trazendo uma história angustiante e que ainda se encerra em tom cíclico, nos revelando que aquilo tudo fora apenas mais um dia na vida desses médicos. Temos aqui uma obra que não nos deixa respirar, uma projeção que voa diante de nossos olhos, nos engajando completamente.

Sob Pressão — Brasil, 2016
Direção:
Andrucha Waddington
Roteiro: Renato Fagundes, Leandro Assis
Elenco: Júlio Andrade, Ícaro Silva, Marjorie Estiano, Andréa Beltrão, Stepan Nercessian
Duração: 90 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.