Crítica | Sobre Amor e Ervilhas

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A poesia nacional sempre foi farta de grandes nomes. De Gregório de Matos a Augusto dos Anjos. De Tomás Antônio Gonzaga a Ferreira Gullar. Muitas vezes nos vemos tentados a reler as obras mais importantes dos grandes baluartes ou a escarafunchar os recônditos de sua produção em busca de pérolas menos conhecidas. O livro de poemas Sobre Amor e Ervilhas, da poetisa brasileira Maria Diva Boechat, que chegou até mim como um generoso presente da própria autora, traz a oportuna lembrança de que a boa poesia vive em toda parte e em todo tempo. Seus poemas evocam a mitologia grega para cuidar do cotidiano e resgatam os mitos bíblicos para desvelar o real que se revela a tão poucos. Há alguns que dialogam claramente com a obra de seus prováveis ídolos literários, como Rimbaud e Drummond. E há ainda aqueles que parecem ter surgido como resposta imediata a um golpe rápido e certeiro da realidade.

O eu lírico do livro de Maria Diva, já no primeiro poema, intitulado Éden, parece provar das belezas da vida como quem prova do fruto proibido. O conhecimento, representado pelo fogo dos deuses roubado em Prometeu, salva o eu lírico de uma existência que agoniza – faminta e sedenta por ir mais fundo. A poetisa revela uma capacidade admirável de retirar os maiores sentidos dos menores detalhes dos fatos que a rodeiam. A falta de um simples botão em uma camisa acusa algo maior. Uma epifania que traduz o sentimento de falta e de um estado eterno de inacabamento de todas as coisas. É comovente ver tanta sensibilidade encapsulada no breve poema Memória. A combinação de uma peça de Chet Baker no som do carro com um semáforo fechado, no belíssimo poema homônimo, me traz à memória a experiência de Bernardo Soares no maravilhoso fragmento 298 de O Livro do Dessassossego. Há nos dois textos algo de catártico, de revelação irrecusável.

Destaco a expertise especial da autora nos poemas mais eróticos. Em Prece, Maria Diva Boechat consegue realizar uma poética que parece mesmo ter sido retirada do livro mais erótico da Bíblia – o Cântico dos Cânticos, cujo trecho serve de epígrafe ao poema. O eu lírico, feito em pedaços pela condenação de amar, espera por uma indulgência que sabe que jamais virá. Aqui, parece ecoar Camilo Castelo Branco em Amor de Perdição: “Não há baliza racional para as belas nem paras as horrorosas ilusões quando o amor as inventa”. O amor, no segundo livro de poesia de Maria Diva, tem urgência. Sofre da ansiedade do entrelaçar dos corpos e das almas. Em mais um curto e significativo poema, surge a síntese do erotismo que se faz presente em todos os demais. O amor é uma planta. “Carnívora”, completa o verso logo abaixo. Mas esse amor erótico de Sobre Amor e Ervilhas não idealiza, apenas sente. Não vasculha escombros. Deseja “apenas o que os olhos podem ver”, como revela o também ótimo poema Brinquedo.

Em Um Cão Sem Luz, o fazer poético surge em um diálogo insone com o clássico de Luis BuñuelUm Cão Andaluz. A mão do poeta rasga a realidade com sua navalha de palavras, tal como o homem que corta o olho de uma mulher no curta-metragem (uma parceria de Buñuel com Dalí). O tom onírico da obra-prima espanhola é evocado por Maria Diva e as formigas infestam novamente a mão, agora ávida de poesia. Há muitas outras conversas entre o eu lírico, aqui confundido com a própria poetisa, e outros nomes da arte ao longo do livro. São convidados aos versos de Sobre Amor e Ervilhas a escultura de Francisco Brennand, a poesia de Carlos Drummond de Andrade, a música de Chico Buarque e até a prosa enigmática de Guimarães Rosa. Tudo muito bem cuidado e delicadamente esculpido. E ainda sobra espaço para uma boa dose de humor e auto-ironia nos últimos versos de Trágico.

O trabalho de Maria Diva Boechat, que tive a oportunidade de conhecer somente agora, surpreende por sua capacidade de inserir tantos elementos, dos mais prosaicos aos mais míticos, dentro de uma poética do cotidiano. Fala diretamente ao leitor. Aproxima-se dele e com ele se comunica sem falsos eruditismos. Autenticação maior da boa poesia.

Sobre Amor e Ervilhas – Brasil, 2015
Autora: Maria Diva Boechat
Editora: Funalfa
Número de páginas: 138

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.