Crítica | “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa” – Emicida

estrelas 4

Já tem um tempo que parece que o Rap/Hip-Hop é o novo Rock n’ Roll. Uma sociedade que teve Cazuza e Renato Russo como ídolos musicais, hoje tem rappers como Emicida e Criolo como alguns dos maiores artistas nacionais. E é nesse seu segundo trabalho de estúdio que Leandro – ou melhor, Emicida – consolida mais ainda essa afirmação. Mostra que sua música se extendeu e hoje não se restringe ao rap, mas já é uma peça essencial da música popular brasileira atual.

Emicida já mostrava toda essa multiculturalidade em seu trabalho anterior, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve AquiNo entanto, seu mais novo disco, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, ainda que siga as mesmas características, possui algumas abordagens diferentes, além de, mediante a popularidade do rapper hoje em dia, definitivamente bem mais mergulhada no mainstream. O novo disco parece se centrar fortemente na cultura africana (a própria capa entrega isso) e nas críticas sociais, ainda que não se resuma só a isso.

Abrindo com umas das mais belas canções lançadas esse ano, em Mãe já é indicado o nível alto que o disco vai seguir. Aqui nós vemos Emicida abrir seu coração e desfilar rimas extremamente emotivas sobre sua mãe em cima de uma base de forte teor melancólico. É Emicida compartilhando grande parte de sua vida, (Alexandre no presídio, eu pensando em suicídio/ Aos oito anos, moça/ De onde você tirava força?) lembrando bastante a ótima e triste Crisântemo do disco anterior, já que ambas também contam com a participação de Dona Jacira, sua mãe. Segurar as lágrimas é uma tarefa difícil em tais canções.

Inspirado pela viagem que fez ao continente africano, Emicida mergulhou de vez no tema e inseriu a cultura negra local por toda parte em seu disco. Grande parte das batidas, por exemplo, são retiradas da música africana. E essa característica dá tanto tons dançantes ao disco – podendo ser como o swing de Mufete – ou batidas agressivas e impactantes como a de Boa Esperança e Casa. Aliás, o single Boa Esperança, por sua vez é um enorme soco de mão fechada cheia de críticas sociais sendo seguradas, é onde Emicida reverencia suas raízes com seu rap bastante crítico e agressivo (Cês diz que nosso pau é grande/ Espera até ver nosso ódio). Outra na mesma vibe e de nível altíssimo é Mandume onde Emicida reune um time de rappers (Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike & Raphao Alaafin) e cria talvez a melhor faixa do disco. Entre revezamentos de rappers, versos inteligentes (Tipo Mario, entrei pelo cano, mas levei a princesa) e críticas pesadas entram por toda parte, tudo isso por cima de uma excelente base sonora, cheia de batidas fortes, dançantes e samplers pontualmente inseridos. São 8 minutos onde vale cada segundo.

Mas nem tudo são flores no novo trabalho. O single Passarinhos lançado com Vanessa da Mata destoa totalmente do disco e mostra ser uma das canções mais fracas de Emicida. Letra bastante mediana, arranjo havaiano bastante manjado e clichê, além de um refrão um tanto vergonhoso. O Emicida de versos inteligentes e fortes chega a ser contraditório com o que escutamos aqui, parecendo canção feita pra tocar em novela. O que poderia se repetir na faixa com participação de Caetano Veloso, Baiana, não acontece, e temos uma demonstração de ótima faixa com pegada mais pop e “MPB” de nível muito maior que a citada anteriormente, com vocais bem sutis de Caetano nos refrões e batidas leves, acústicas e um tanto dançantes.

É com ótimas rimas cheias de referências pop, críticas sociais e exaltação a raça negra, batidas e arranjos de origem africana e de sonoridade bem pop que Emicida constrói mais um excelente álbum. Uma busca às raízes negras e a própria vida desse tal “Leandro”, como são todos seus trabalhos. Definitivamente deixar parte de si em um álbum e transformá-lo em algo único é uma tarefa que todo artista deve fazer e que Emicida sabe fazer com maestria.

Aumenta!: Mandume
Diminui!: Passarinhos
Minha canção preferida: Mãe

Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa
Artista: Emicida
País: Brasil
Lançamento: 7 de agosto de 2015
Gravadora: Laboratório Fantasma
Estilo: Rap, MPB

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.