Crítica | Sobre Homens e Tubarões, de Gabriel Ganme

Os tubarões são criaturas com imensa importância para o equilíbrio do ecossistema marinho, você sabia? Deixe-me explicar. Suponhamos que o tubarão-branco, a espécie mais famosa por conta do clássico Tubarão, de Steven Spielberg, desapareça do planeta após um processo de extinção. Diante da situação haverá um descontrole populacional de elefantes-marinhos e leões-marinhos, algumas de suas presas prediletas. Os animais descritos alimentam-se de peixes e com o avanço do tempo haverá uma drástica redução da quantidade de peixes disponíveis nos mares. Os impactos serão sentidos pelos humanos, mas a base da cadeia alimentar também entrará em colapso, pois isso trará problemas para as algas planctônicas, maiores produtores de oxigênio do mundo. Compreendeu o problema?

Quem traz essas informações por meio de uma escrita leve, que vacila apenas quando tenta introduzir algum comentário tipicamente oral no meio do texto, é Gabriel Ganme, autor de Sobre Homens e Tubarões, uma das melhores publicações brasileiras sobre o mundo dos predadores de topo dos oceanos. Ele também reforça as informações citadas anteriormente ao apontar que os tubarões alimentam-se de peixes doentes, feridos ou mortos, numa ação que preconiza a saúde oceânica, tal como os urubus em zonas terrestres. No livro conhecemos diversas espécies, algumas mais rapidamente, outras em pormenores, tanto textuais quanto fotográficos, com destaque para o gigantismo do tubarão-baleia, espécie que assusta à primeira vista, mas é dócil e tranquila; o galapaguenho, espécie que juntamente com o galha-preta-oceânico, o galha-branca-oceânico, o tubarão-tigre e o bico-fino, ganham as fotografias mais luminosas e bem enquadradas. Há ainda boas imagens do tubarão-limão e das duas espécies estranhas de tubarão-martelo.

Como não podia deixar de ser, o tubarão-branco também ganha destaque e é relacionado ao filme dos anos 1970 que o tornou famoso no que diz respeito “deixar as pessoas assustadas e com medo de entrar na água num passeio pela praia”. Ganme comenta rapidamente os impactos do filme Tubarão para a espécie, pois ambientalistas acreditam que depois do filme de Spielberg houve uma baixa dos tubarões-brancos pelos oceanos.

A situação não é nada esperançosa. De acordo com alguns dados do autor, o tubarão-martelo teve redução de 90% na natureza desde os anos 1950, seguido do tubarão-branco, com 79% e o tubarão-tigre, com alarmantes 65%. Outros peixes de grande porte, tais como o Atum e o Espadarte também tiveram uma baixa muito grande, haja vista as demandas industriais em detrimento do tempo necessário para que essas espécies cresçam e consigam se reproduzir. Aos que amam comer “cação” em restaurantes ou nas moquecas dos almoços aos domingos, um aviso: Ganme avisa que o nome é apenas um disfarce. Cação é tubarão e corre risco de extinção. De maneira sarcástica o autor informa que é apenas um nome simpático. Em suma, algo para a viabilização comercial do animal, bem como a diminuição (quando há) do sentimento de culpa por conta dos consumidores.

A hipótese que abre a análise em questão teve algo similar na Austrália nos anos 1980. Ganme revela que a pesca de algumas espécies de tubarões provocou uma expansão veloz dos polvos, o que por sua vez, reduziu a oferta de lagostas, alimento dos polvos, situação que teve como resultado um impacto profundo na economia local, haja vista a parca disponibilidade de lagostas. Há ainda críticas ao finning, uma prática comercial com as barbatanas de tubarão, cultura muito comum na China e que pode ser vista na abertura do recente Do Fundo do Mar 2 e dois capítulos de Marcelo Szpilman, o primeiro intitulado “Os Tubarões e o risco de extinção”, trecho elucidativo e com função complementar eficiente, ao trazer os motivos que levaram os tubarões ao desaparecimento nos últimos anos, dentre eles, a caça excessiva e a visão deturpada das pessoas sobre a importância desses animais, caçados entre os 50 e 100 milhões de unidades ao ano, segundo o relatório da FAO (Estatísticas das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). O segundo, “Biologia dos Tubarões”, está presente logo nas primeiras páginas do livro, preâmbulo para as imagens e informações que nos acompanharão pelas viagens de Ganme.

Ao longo do livro, há também reflexões sobre atividades turísticas envolvendo a alimentação de tubarões e o controle no que tange aos meandros da pesquisa das espécies. Ganme acredita na necessidade de interferir delicadamente no ambiente dos tubarões para compreendê-los, mas que há formas menos agressivas para tais procedimentos. Toda essa gama de informação é entregue ao leitor de maneira leve e com tons de entretenimento, pois as fotografias praticamente nos permitem um mergulho juntamente com o autor, através das águas dos maiores oceanos que banham o planeta Terra.

O resultado visualmente exuberante, mas sem exageros ou distrações, pode ser atribuído aos trinta anos de experiência de Gabriel Ganme no mergulho com tubarões, juntamente com a sua extensa lista de colaboradores, pessoas que forneceram as fotos que ajudaram no excelente trabalho do designer gráfico e da diagramação. Dentre os destaques temos Noeli Lara Ribeiro, presidente da ABISUB (Associação Brasileira de Imagens Subaquáticas); Érica Beux, bancária e fotógrafa subaquática; Marcio Lisa, fotógrafo especializado em vida selvagem; Silvio Piesco, músico e fotógrafo; Kadu Pinheiro, fotógrafo submarino; Lawrence Wahba, documentarista que também é prefaciador do livro, conhecido pelo trabalho 10 Anos em Busca dos Grandes Tubarões; Marcelo Szpilman, autor de Tubarões no Brasil e idealizador, realizador e presidente do AQUARIO, dentre outras contribuições que deram forma ao livro.

Sobre Homens e Tubarões possui 208 páginas com excelente projeto gráfico de Felipe Rosa. A escolha da foto de Silvio Piesco para ilustração da capa é certeira, tal como as imagens internas, todas muito bem selecionadas. Gabriel Ganme, especialista em Medicina Esportiva, atua como mergulhador há 30 anos e já viajou por vários locais do planeta, tendo encontrado diversas espécies de tubarões, animais incríveis que se adaptam às condições dos seus ambientes e passam por um opressor processo de caça que aquece a economia formal e informal. A cápsula de óleo de seu fígado é uma das desculpas formais para a sua caça. Já a sopa de barbatanas que os chineses tanto amam não são necessariamente algo legalizado, mas infelizmente encontra-se fora de controle. Basta aguardar para ver os impactos de publicações como essa, responsáveis por tentar conscientizar as pessoas leigas que ainda acreditam que os tubarões são os monstros que aterrorizaram homens como Santiago, o pescador sofrido do romance O Velho e o Mar, de Hemingway, ou o trio formado pelo detetive de polícia, um biólogo marinho e um caçador de tubarões no blockbuster de Spielberg.

Sobre Homens e Tubarões (Brasil, 2018)
Autor: Gabriel Ganme
Editora: Labrador
Páginas: 208.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.