Crítica | Sobre Meninos e Lobos

estrelas 4

“Às vezes, são as pequenas decisões, que mudam toda a nossa história.”

Um trio de antigos amigos, composto por Sean (Kevin Bacon), Jimmy (Sean Penn) e Dave (Tim Robbins), remete o declínio da amizade do grupo para 1975. Na ocasião, enquanto brincavam nas ruas de Boston, os garotos foram abordados por dois homens que passavam-se por oficiais da polícia. Em consequência disso, Dave, convidado a entrar no carro, acabou sendo mantido em cativeiro e abusado sexualmente por 4 dias. Poderia ter sido qualquer um dos três, mas foi Dave que teve de carregar as memórias e o fardo de ter sido abusado sexualmente. Todavia, mesmo com o passado trágico, o menino conseguiria constituir uma família, embora não mais possuiria contato com seus outros amigos, os quais também permaneceram em Boston. As circunstâncias mais inusitadas podem fazer antigas amizades se reencontrarem e isso é o que acontece quando a filha de Jimmy é assassinada, Sean é coincidentemente o detetive encarregado das investigações e Dave é apontado como um dos principais suspeitos.

Em um primeiro momento, a revelação inicial do que aconteceu com a garota é conduzida com maestria por Clint Eastwood, que vai gradativamente dando espaço para que a dor de um pai seja exponencialmente abordada. Sean Penn prova mais uma vez sua competência interpretativa, transmitindo perfeitamente sua angústia e seu sofrimento. Seu personagem, um homem que encobre um passado agressivo e criminoso, acaba retomando seu lado mais obscuro quando se vê diante do desaparecimento – e consequente assassinato – de sua filha. Suas ações no filme não são injustificáveis, pois, embora incorretas e até injustas, Jimmy está passando por um verdadeiro inferno.

O roteiro de Brian Helgeland, porém, não dá contornos extremamente visíveis aos seus personagens, muito mais movidos pela emoção do que pela razão. As explicações mais improváveis, movidas pela mera sorte – ou azar – da vida, induz ao espectador iludido um sentimento de impotência diante do que aconteceu e do que acontecerá. Indo na contramão de seus dois ex-amigos, Sean é o menos complexo, de encontro a figuras extremamente reconhecíveis do gênero de filmes policiais. A interpretação de Bacon, no entanto, não deixa seu personagem tornar-se genérico. De todos os três, o seu conflito interno é o menos palpável, mesmo que todas as interações do ator com a sua mulher sejam fantásticas.

Sendo o detetive responsável por encontrar o assassino de Katie (Emmy Rossum), o homem ao lado de seu parceiro, o sargento Whitey Powers (Laurence Fishburne), protagonizam as minúcias investigativas que movem a trama. Essas investigações contarão com interessantes, mas não tão instigantes, reviravoltas, visto que a linha tracejada garante, na medida que o filme progride, uma diminuição cada vez menor das suspeitas. No segundo ato, já define-se basicamente para onde o filme caminhará, graças a descoberta de que a arma que matou a filha de Jimmy é a mesma utilizada pelo pai de Brendan Harris (Tom Guiry), namorado de Katie. As respostas, todavia, vão na mesma mão que alguns dos mais simples reveses da vida, só que extremamente mais fatal, o que dá à conclusão um ar paradoxal de realismo surreal.

Por mais, Helgeland alia-se a Eastwood na manipulação do espectador, fazendo-o acreditar fortemente que Dave é o assassino de Katie. Os ângulos são influenciadores; as cenas, dúbias. No mesmo dia do assassinato da garota, Dave encontra-a num bar com um olhar misterioso, apenas para mais tarde aparecer na sua casa ferido com as mãos ensanguentadas e, recebido pela sua mulher Celeste (Marcia Gay Harden em um de seus melhores trabalhos e recebendo uma justíssima indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante), alegar ter matado um pedófilo. O que acontece é que à medida que as suspeitas vão encarcerando Dave, sua própria esposa começa a duvidar do discurso de seu marido, confusa sobre os impactos que os eventos que acontecem tem sobre as pessoas acometidas de tais. Tim Robbins é um misto de um frio suposto cinismo com uma frágil suposta inocência, evidentemente transtornado pela sua penosa bagagem.

Ademais, a obra possui uns 10 minutos em excesso que poderiam ter sido facilmente enxugados pela montagem. O final é definitivamente o mais problemático deles, visto que o impactante acontecimento no terceiro ato do filme é arrastado por algumas cenas a mais, todas desnecessárias. E, embora o diálogo entre Jimmy e sua esposa (Laura Linney, que também está sensacional) seja muito bem escrito, a sequência de encerramento, durante um festival da cidade, é extremamente enfadonha e deixa o espectador revoltado, no mau sentido. Há um momento perfeito para o corte final, alguns minutos antes – que para evitar revelações não será exposto aqui na crítica – do levado para as telas pela edição. É certamente angustiante quando algo do tipo acontece; um espectador atento também se angustiará quando reparar o ocorrido.

Sobre Meninos e Lobos é um bom thriller policial, que encontra seus maiores méritos nas suas excelentes atuações e na sua notável direção de Clint Eastwood. Com duas cenas especiais que encontrarão espaço na memória de seus espectadores, este não é um filme esquecível, embora sua roteirização não seja das mais espetaculares. É um filme que trata de amizades. De erros. De más decisões. De situações que poderiam ser diferentes. É um filme que fala sobre hipóteses; hipóteses estas que ora ou outra nos pegamos idealizando. E se eu tivesse feito isto? E se eu tivesse feito aquilo? E se… Chamem de simples destino ou pura coincidência da vida, este é, acima de tudo, um filme sobre meninos e lobos.

Sobre Meninos e Lobos (Mystic River) — EUA, 2003
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Brian Helgeland
Elenco: Sean Penn, Tim Robbins, Kevin Bacon, Laurence Fishburne, Marcia Gay Harden, Laura Linney, Tom Guiry, Emmy Rossum, Spencer Treat Clark, Andrew Mackin, Kevin Chapman, Adam Nelson, Jason Kelly, Cameron Bowen, Connor Paolo, Cayden Boyd, John Doman, Tori Davis, Jonathan Togo, Ari Graynor
Duração: 137 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.