Crítica | Sobrenatural: A Origem

estrelas 3,5

Ainda que esta crítica contenha a mesma nota dada ao primeiro filme da franquia aqui no Plano Crítico, deparamo-nos com a matemática versus a subjetividade artística. Por isso, apesar de seus defeitos e da nota a ele conferida, deixa-se claro que Sobrenatural: A Origem é com certeza o melhor longa da trilogia, sem o problema para encontrar um tom para sua narrativa existente no primeiro filme, nem tão escandaloso, incontido quanto no segundo, mas com um roteiro maduro, pé no chão – mesmo para falar do sobrenatural – e que cumpre bem o seu papel de prelúdio.

Passado alguns anos antes dos eventos do primeiro filme – como o próprio longa começa informando por escrito -, a fita já inicia intrigante, com a adolescente Quinn (Stefanie Scott) chegando à casa da saudosa especialista em fenômenos paranormais, Elise Rainier (Lin Shaye), pedindo ajuda para conversar com a falecida mãe, no que a conexão do roteiro com a franquia é imediata – embora de modo algum o entendimento da obra não seja possível independente dos títulos anteriores, outro problema com o qual o segundo capítulo eventualmente se depara. A médium, porém, passa por uma fase na qual teme usar seu dom, medo apenas evocado ainda no prólogo e que mais tarde será, é claro, explicado, também estabelecendo ligações com os capítulos 1 e 2.

Desolada, a jovem volta para casa, ao acomodado irmão mais novo e ao pai desorientado (Dermot Mulroney). Com a família desestruturada pela morte da matriarca, bem como a própria garota o está – relevando-se a capacidade de atuação de Stefanie e observando-se que a própria personagem quer ser atriz -, é interessante como a adolescente foge ao clichê do personagem central em produções do gênero, certinho e, por vezes, até pouco humano. Mimada e mesmo fútil, a jovem é bem retratada como uma adolescente comum, ainda que com uma crise maior do que a típica da fase que atravessa; crise que só cresce depois que ela sofre um acidente, vai para uma cadeira de rodas durante a recuperação e, adivinhe, começa a ser assombrada por uma misteriosa entidade na própria casa.

Compreenda, como roteirista na franquia Jogos Mortais, Leigh Whanne, estreante na direção, entrega um trabalho de melhor qualidade do que o apresentado por James Wan nos dois primeiros capítulos, este responsável pelo ótimo Invocação do Mal. O ponto é que o Capítulo 3 não é tão expansivo quanto os anteriores, mas, proporcionalmente falando, cumpre melhor seu papel dentro do círculo que delimita do que as duas primeiras partes o fazem – se é que o fazem. Os momentos de tensão são muito bem construídos, calmamente, sem exageros – que o diga o ótimo trecho no qual Elise confronta a entidade que a faz temer continuar com sua profissão, ou mesmo a bem sucedida retratação da desesperança e do desespero da situação de Quinn, típica do terror clássico. Neste terceiro capítulo, também temos uma visão mais intimista de Elise, bem desenvolvida, digna de uma despedida, se de fato o for, da carismática personagem na pele de Rainier.

Dos capítulos anteriores, contamos ainda com as participações da dupla Tucker (Angus Sampson) e Specs, o próprio Leigh Whannel, futuros assistentes de Elise, e de Carl (Steve Coulter), amigo e colega de profissão da médium. Tampouco falta ao longa a sua característica trilha com violinos, até ela sendo melhor trabalhada neste capítulo, com suas variações precisas, discreta na tensão e elevando-se triunfante no último ato. Sim, a conclusão, que embora também seja a mais bem sucedida em suas sequências no além, cai numa teatralização em demasia por parte dos atores que vivem os caça-fantasmas. Com uma direção competente e um roteiro organizado, dinâmico e quase que totalmente redondo, contudo, o resultado é um trabalho que equilibra a credibilidade da franquia com o sucesso que obteve.

Sobrenatural: A Origem (Insidious: Chapter 3, EUA/Canadá – 2015)
Direção: Leigh Whannell
Roteiro: Leigh Whannell
Elenco: Dermot Mulroney, Stefanie Scot, Angus Sampson, Leigh Whannel, Lin Shaye, Tate Berney, Michael Reid MacKay, Steve Coulter, Hayley Kiyoko, Corbett Tuck
Duração: 97 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.