Crítica | Sobrenatural: Capítulo 2

estrelas 3

Quando crítica e público rasgaram elogios ao terror Invocação do Mal, ficou clara e comprovada a importância do diretor malaio James Wan (oriundo do primeiro Jogos Mortais) para a situação atual do gênero de horror, tão carente de exemplares que façam jus a popularidade deste gênero, responsável por obras extremamente lucrativas como o clássico O Exorcista, o impactante A Bruxa de Blair ou, trazendo exemplos atuais, a franquia Atividade Paranormal. E qual não foi a surpresa quando foi anunciado de que Sobrenatural: Capítulo 2 seria o último filme do gênero a ser realizado por Wan, e embora esta ainda seja uma notícia duvidosa, impossível não sentir uma pontada de frustração, especialmente diante de alguém tão talentoso por trás das câmeras como Wan.

Mas sobre o filme em questão, deve-se dizer que Sobrenatural: Capítulo 2 causa sentimentos ambíguos após seu desfecho: ao mesmo em que fica a impressão de que sua existência seja, no fundo, desnecessária, o filme também justifica sua utilidade ao criar ligações inteligentes e levemente complexas com o primeiro filme, acrescentando novas camadas a história da família Lambert e seus fantasmas, ao mesmo tempo em que nos presenteia com um apuradíssimo trabalho técnico, truques ardilosos com a câmera, simbolismos internos interessantes e um clima muito bem construído.

O grande problema está na sensação de “eu já vi isso antes” que sentimos durante a projeção, mesmo com as surpresas apresentadas pelo roteiro. Os clichês mais uma vez funcionam como uma forma de subverter certas previsibilidades e surpreender o espectador desdobramentos inusitados, e tal artifício ainda funciona, mas sem aquele leve teor de novidade visto no primeiro filme. E não apenas com o original, mas também com o já citado Invocação do Mal, onde uma família se muda para uma casa enorme e sombria e, sem muitas delongas, começa a ser perseguida pelos Gasparzinhos da vida.

Wan também peca ao não saber balancear tão bem sua marca autoral com a inevitável necessidade da obra em ser comercial. Há mais humor desta vez, mas este é tão mal inserido dentro das cenas que o que temos são risadas de vergonha alheia. Quando somos transportados para o Além, novamente somos obrigados a encarar cenas de susto mais explicitas e visualmente carregadas, como numa tentativa de criar algum contraponto a subjetividade utilizada na maior parte do tempo. Com isto, mais uma vez temos aquele excesso de explicações que acabam por trazer um ar didático ao filme, claramente subestimando a inteligência do público.

Mas apesar dos erros, Wan ainda exibe sua paixão pelo gênero como poucos realizadores atuais o fazem. Sua câmera sempre parece namorar os cenários mergulhados em escuridão, passeando pelos corredores com uma paciência que eleva o nível de arrepios a enésima potência. O diretor também insere simbolismos inteligentes, como o constante uso da cor vermelha, sempre indicando quando tempos alguma presença maligna por perto. E como verdadeiros aficionados pelo gênero, Wan e seu roteirista Leigh Whannell (que também atua no filme) elaboram referências deliciosas a clássicos como O Iluminado e Psicose. E o elenco permanece competente com o que lhes cabe fazer, destacando a performance de Patrick Wilson, que encarna muito bem a aparente loucura crescente de Josh.

Sem muito o que apresentar e repetindo os erros do original, Sobrenatural: Capítulo 2 faz valer a conferida por funcionar em seu básico: assustar. Neste sentido, aqueles que desejam apenas uma experiência suficientemente aterrorizante não irão se decepcionar.

Sobrenatural: Capítulo 2 (Insidious: Chapter 2, EUA, 2013)
Direção: James Wan
Roteiro: Leigh Whannell
Elenco: Patrick Wilson, Rose Byrne, Barbara Hershey, Leigh Whannell, Ty Simpkins, Lin Shaye, Steve Coulter, Angus Sampson, Andrew Astor
Duração: 106 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.