Crítica | Sobrevivente

estrelas 5,0

obs: Apesar dos acontecimentos no filme não serem segredos, fato é que não é possível elaborar uma crítica dessa obra sem abordar aspectos que podem ser considerados como  spoilers, ainda que, na verdade, não sejam. Portanto, aos puristas que nada quiserem saber, sugiro que vejam o filme antes. 

A primeira coisa que o espectador tem que ter em mente ao começar a assistir Sobrevivente é que todas as sinopses circulando por aí são enganosas e levam à expectativa de algo que o filme não é. Esqueçam algo como O Náufrago ou como o recente tour de force de Robert Redford, Até o Fim.

Em outras palavras, o espectador não estará diante de uma obra sobre o périplo pelo qual o protagonista passa para sobreviver uma tragédia. Sim, isso também faz parte do filme, mas não é seu foco. Em poucas palavras, mantendo rigidamente a clássica estrutura de três atos, o veterano e excelente diretor islandês Baltasar Kormákur aborda a saga verdadeira de um homem comum, Gulli (Ólafur Darri Ólaffson) que, em 1984, depois de sair em uma traineira com seus amigos pescadores, sofre um naufrágio em que todos menos ele morrem por razões cientificamente inexplicáveis. E não se espantem os puristas sobre a revelação do final (ou do meio, na verdade) – ele vive! – pois a obra não é sobre isso, não havendo nenhuma tentativa da produção de manter esse segredo.

O importante é a jornada. E a abordagem da bênção e a maldição do que é ser o único sobrevivente de uma tragédia que leva todos os seus amigos. É sobre a humildade de simplesmente aceitar as coisas como elas são, sem arvorar para si o status de herói ou alguma qualidade que você simplesmente não tem e não passa a ter só porque recebe a atenção da mídia. Gulli é um homem gordo e que sempre foi assim, sendo objeto de bullying o que, obviamente, o levou a ser extremamente tímido, morando ainda com os pais e sem coragem para falar com sua bela vizinha. Gulli é alguém absolutamente normal. Alguém que não chamaria a atenção de ninguém por sua beleza ou atos de significância.

Em seu status de “Zé Ninguém”, Gulli tem só seu pequeno – minúsculo – círculo de amigos e sua profissão para se fiar. Afinal, ele mora não na ilha principal que forma a Islândia, mas sim em Heimaey, uma das ilhotas do arquipélago de Westman, ao sudoeste da principal. E estamos em 1984, época que amizade ainda significava efetivamente criar laços físicos com alguém. E, construindo nos 30 minutos iniciais esse diminuto mundo de Gulli e seus amigos pescadores, o diretor nos cativa e nos deixa engajados em sua película, também aproveitando para dar margem à dúvidas sobre quem exatamente sobrevive, ainda que a proeminência de Gulli na obra torne isso mais do que evidente.

Nos 30 minutos seguintes, vemos a traineira caindo aos pedaços zarpando, o acidente e a milagrosa sobrevivência de Gulli. Reparem: em 30 minutos. É por isso que as expectativas devem ser reavaliadas para realmente se aproveitar essa pequena pérola do Atlântico Norte. Não é um filme sobre a sobrevivência, mas sim sobre seus efeitos. E, para apreciarmos os efeitos, temos que ver a vida do sobrevivente antes de ganhar esse dúbio status.

Mas Sobrevivente não seria o filme que é sem os 30 minutos finais, quando realmente vemos quem Gulli é, quem ele foi quando criança, tendo que evacuar a ilhota junto com seus pais depois da erupção do vulcão local e quem ele gostaria de ser. Mas o mundo é mais frio do que desejos e a realidade costuma nos sacolejar para que voltemos à ela. Gulli passa ao seu status de sobrevivente da mesma maneira que ele era antes, mas, agora, sentindo um enorme vazio em sua convivência diária. É comovente ver a forma simples e bela como Gulli lida com tudo que acontece ao seu redor, com os experimentos científicos que fazem com ele para descobrir como pode alguém sobreviver tanto tempo em águas a quase zero grau e com os entes queridos de seus amigos.

E é claro que nada disso seria possível sem a perfeita atuação de Ólafur Darri Ólafsson como Gulli. Ele nos convence imediatamente de sua autenticidade. É como se estivéssemos vendo os acontecimentos via câmera escondida na medida em que acontecem. Gulli é um amigo, um sobrevivente, um porquinho da índia, mas, acima, de tudo, Gulli é Gulli do começo ao fim, sem floreiros. É raro ver isso no cinema.

E, falando na falta de floreios, Kormákur nos apresenta tudo isso da maneira mais real possível. Ele realmente filmou em locação em Heimaey, realmente comprou e afundou de verdade uma traineira. Ele, a equipe técnica e o elenco viveram o que os personagens viveram, aumentando ainda mais a veracidade documental de tudo que vemos. A fotografia noturna, que toma 90% da projeção, é absolutamente estonteante nesse ponto não por mostrar a potencial beleza do local, não por trabalhar imagens de por do sol, mas exatamente pelo seu oposto: tudo é escuro, quase monocromático e feio. É a natureza sendo mostrada como ela muitas vezes é, ameaçadora e destruidora. E isso vale tanto paras os flasbacks em Super 8 que mostram Gulli de dia durante a erupção do vulcão quanto para o filme no presente, sempre à noite (o inverno, na Islândia, tem pouquíssimas horas de claridade). Essa fotografia opressora, destruidora, vai pouco a pouco nos esmagando, deixando-nos angustiados procurando algum resquício de luz, de esperança. E isso nunca vem. É o mundo como ele é no dia-a-dia e não o mundo idealizado ou o mundo que todos gostam de ver. Kormákur não faz concessões para seu filme ficar esteticamente agradável.

E o resultado final é uma fita que gerará discussões, seja pelo impressionante fato que conta, seja pela oposição de religião e ciência, seja pela atuação de Ólafsson, seja pelo inusitado que é um filme com um “herói” e uma fotografia completamente fora dos padrões do que se convencionou a esperar. Sobrevivente é uma grande lição de vida e de Cinema.

Sobrevivente (Djúpið, Islândia/Noruega – 2012)
Direção: Baltasar Kormákur
Roteiro: Jón Atli Jónasson, Baltasar Kormákur
Elenco: Ólafur Darri Ólafsson, Jóhann G. Jóhannsson, Stefán Hallur Stefánsson, Þröstur Leó Gunnarsson Björn Thors, Walter Grímsson, Thora Bjorg Helga, Guðjón Pedersen
Duração: 95 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.