Crítica | Solteiros com Filhos

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Egressa da televisão, a pouco conhecida atriz Jennifer Westfeldt (ela é mais famosa por ser a namorada de Jon Hamm – da série Mad Men – desde 1997) partiu para escrever, dirigir e atuar no papel principal de Solteiros com Filhos, comédia dramática sobre um casal de amigos, Julie (Westfeldt) e Jason (Adam Scott) que resolve ter um filho entre eles sem passar por uma relação romântica. Vemos, a partir do nascimento do menino, como isso afeta a vida do casal e as de seus amigos mais próximos.

Os primeiros dois terços de Solteiros com Filhos têm toda sua estrutura montada ao redor de piadas rápidas, quase todas sexuais e algumas levemente escatológicas, mas nem sempre de maneira que efetivamente impulsionem a estória. Aprendemos que Jason é uma espécie de Don Juan, com casos passageiros três vezes por semana com mulheres diferentes enquanto que Julie tem um pouco mais de dificuldade para se relacionar. São, porém, amigos há muitos anos e, como tal, contam tudo um para o outro. Também descobrimos que Alex (Chris O’Dowd) e Leslie (Maya Rudolph), um dos casais de amigos, estão grávidos e muito felizes com isso. O outro casal, Ben (Jon Hamm) e Missy (Kristin Wiig) só querem saber de transar. Um corte rápido para quatro anos depois mostra os dois casais amigos já com filhos e tendo que encontrar significado romântico no meio da bagunça que suas vidas se tornaram. É vendo esse caos que Jason e Julie decidem partir para uma espécie de produção independente, mas de origem controlada.

O filme não é sutil. Desde o primeiro segundo de projeção, o espectador sabe como a fita acabará. No entanto, Westfeldt constrói uma cena interessante, climática, em que Ben e Jason discutem ferozmente durante um jantar em uma estação de esqui de Vermont. Ben, já influenciado por uma boa quantidade de álcool, repreende Jason e Julie pela irresponsabilidade do que fizeram. Afinal, como explicariam um dia ao filho que ele foi gerado a partir de uma relação em que os pais não se amavam? Jason, por sua, vez, não deixa barato e trata não só de caracterizar muito bem a fria e distante relação que Ben agora tem com sua esposa com também de demonstrar que ama, sim, Julie já que a conhece melhor do que ninguém. O ríspido diálogo – na verdade, dois breves monólogos – desvia o caminho que o filme estava seguindo e funciona como uma  fagulha que a roteirista e diretora tinha para fazer uma labareda.

Mas Westfeldt não deixa a fagulha pegar no mato seco que colocou ao redor e ela logo se extingue, dando lugar, no lento e arrastado terço final, a um sem fim de sentimentos à flor da pele que retiram a credibilidade da fita e destoam de seu ponto alto. Apesar das piadas dos primeiros dois terços serem razoavelmente bem construídas, elas não são melhores do que as que assistimos todos os dias em sitcoms quaisquer, daquelas que apenas vemos quando estamos surfando pelos canais de televisão tarde da noite.

Alguns poderão ver uma lição válida sobre relacionamentos em Solteiros com Filhos. E, de fato, há muitas verdades salpicadas aqui e ali – especialmente na fatídica discussão entre Jason e Ben – mas nenhuma delas realmente se  solidifica no filme com ações consistentes dos personagens. Sim, o amor pode ser traiçoeiro e na maioria das vezes não podemos controlá-lo, mas, na verdade, Westfeldt passa mensagens contraditórias todo o tempo, em um minuto demonizando e fazendo troça dos relacionamentos duradouros, no outro mostrando que esse é o caminho a se seguir. A insegurança do roteiro acaba fragilizando o filme e impedindo-o de sair do lugar-comum.

E os atores também não ajudam. Jessica Westfeldt não parece confortável no papel e Adam Scott foi uma péssima escalação. O ator não passa confiança e parece sempre estar desconectado do seu personagem. Kristen Wiig, que poderia trazer uma maior graça ao filme, passa o tempo todo sem falar e de cara amarrada. O’Dowd e Rudolph são completamente subaproveitados na trama ainda que, juntos, funcionem com o casal mais crível dos três. Megan Fox, que faz Mary Jane, uma namorada de Jason, perdeu a única qualidade que tinha: sua beleza. Agora, ela nada mais é do que um palito anoréxico.

Só mesmo Jon Hamm é que se sobressai e, mesmo assim, isso se dá pela cena da discussão que protagoniza com Adam Scott. Talvez, na qualidade de produtor e de namorado da diretora e roteirista, Hamm tenha conseguido amealhar o melhor momento do filme, algo que, diga-se de passagem, fala muito mais alto sobre relacionamentos do que a obra inteira.

Solteiros com Filhos até que tenta mas não consegue ultrapassar a barreira da comédia dramática óbvia e, como tal, não merece o investimento de uma sessão de cinema.

Solteiros com Filhos (Friends with Kids, Estados Unidos, 2011)
Direção: Jennifer Westfeldt
Roteiro: Jennifer Westfeldt
Elenco: Jennifer Westfeldt, Adam Scott, Jon Hamm, Kristen Wiig, Maya Rudolph, Chris O’Dowd, Megan Fox, Edward Burns, Lee Bryant, Kelly Bishop
Duração: 107 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.