Crítica | Sombras da Noite
Tim Burton, mesmo divertindo, não consegue retornar à sua era de ouro
Tim Burton é um diretor cujo estilo sombrio, fortemente influenciado pelo expressionismo alemão, sempre entrega belas imagens. Porém, enquanto consegue criar uma produção esteticamente impecável, Burton parece ter perdido seu tato para encontrar o centro emocional de suas obras, deixando o exagero tomar conta e desequilibrar o tom de suas produções, vide o belo e seco Alice no País das Maravilhas. Infelizmente, mesmo estando longe de ser um desastre, Sombras da Noite não é uma exceção.
Roteirizado por Seth Grahame-Smith, a partir de uma novela norte-americana, o filme conta a história de Barnabas Collins, um rico empresário do ramo de pesca que, amaldiçoado pela bruxa Angelique no século XVIII, se vê condenado a passar a eternidade como um vampiro. Aprisionado em um caixão por quase duzentos anos, o monstro retorna ao mundo dos vivos, onde deve lidar com a falência de sua empresa, a desmoralização da família Collins, os loucos anos 70 e sua insaciável sede por sangue.
Usando uma paleta de cores quase idêntica a todos os seus outros filmes, Burton conjura cenas que, mesmo parecendo restos de produções como A Noiva-Cadáver (especialmente quando se refere às profundas olheiras dos vampiros) e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, ainda conseguem evocar beleza, como o alto e melancólico penhasco cuja luz, seja do sol ou da lua, parece não conseguir penetrar.
O visual é um dos pontos altos do filme. A fotografia de Bruno Delbonnel, profissional acostumado a lidar com exagero de cores fortes (é dele as fotografias de O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, Eterno Amor e Across the Universe), consegue sempre imprimir com competência o estilo de Burton sem deixar o escuro dominar a tela. Enquanto isso, a direção de arte convence o espectador de que estamos realmente na década de 1970, seja graças aos figurinos ou aos apetrechos de cena, como as lâmpadas de lava. Até Danny Elfman parece ter acertado a mão, substituindo boa parte de sua trilha sonora por canções populares características da década de 1970, como “Top of the World” e “You’re the First, the Last, My Everything”.
Aliás, as melhores cenas da produção acontecem quando o protagonista tenta entender como funciona a época em que acordou. E Johnny Depp, mesmo enterrado por quilos de maquiagem, consegue mostrar a confusão interna que Barnabas parece estar sofrendo, ao não entender como cortejar mulheres ou ao não reconhecer certa substância enrolada em papel de seda. Eva Green, interpretando sua terceira bruxa, está absolutamente linda e consegue convencer o espectador de seu amor doentio pelo protagonista.
Dito isso, é necessário muita falta de bom gosto para trocar Eva Green por Bella Heathcote, uma reencarnação sem curvas e sem carisma de Heather Graham. Chloë Grace Moretz, por sua vez, parece não conseguir entrar em contato com o espírito da obra, exagerando em sua composição e quase sempre rosnando para a câmera, enquanto Michelle Pfeiffer, Helena Bonham Carter, Jonny Lee Miller e Jackie Earle Haley não se destacam tanto, parecendo estar no automático.
Mas seria injusto colocar a culpa de atuações automáticas apenas no elenco. Para isso, seria necessário esquecer o roteiro sem eixo de Grahame-Smith, que aqui entrega seu primeiro trabalho para cinema. Contando com reviravoltas superficiais e uma história de amor insossa, o roteirista não consegue desenvolver um arco interessante para nenhum dos seus personagens, preferindo criar um tom de comédia, usando e abusando das piadas de humor-negro e conotações sexuais, como a morte dos hippies e o “agradecimento” da personagem de Bonham Carter.
Dessa forma, o terceiro ato peca por não conseguir sustentar um clímax que (SPOILER), misturando terror “b”, com sustos fáceis e criaturas que surgem como uma espécie de deus ex machina, culmina por matar a antagonista da maneira mais sem imaginação possível, especialmente considerando que ela já havia levado tiros de espingarda e quebrado o pescoço anteriormente, o que a tornaria quase imortal. Sim, é até poético que ela entregue seu coração literalmente a Barnabas, mas vai de encontro a todas as intenções que a personagem continha. Dessa forma, parece que tentaram apenas terminar o filme da maneira mais rápida possível (FIM DO SPOILER).
Assim, Burton e seu roteirista transformam o filme em uma experiência estética vazia que, mesmo contando com bons momentos, jamais ultrapassa a barreira do passatempo.












