Crítica | “Something To Tell You” – Haim

estrelas 3,5

As irmãs californianas do grupo Haim com toda certeza estão entre as maiores revelações da música americana nos últimos anos. Days Are Gone, primeiro álbum de estúdio das meninas, foi um dos destaques de 2013 com seu som de pegada nostálgica e contemporânea ao mesmo tempo. Claro, o revival das sonoridades setentistas e oitentistas já parece soar algo batido no cenário indie pop/rock atual, mas o grupo imprimia uma autenticidade enorme em suas canções ensolaradas e totalmente de acordo com a região de onde vieram. Eis que já estava implantada uma enorme responsabilidade nos ombros de Haim para o futuro segundo trabalho.

A famosa “prova do segundo álbum” – um dos grandes obstáculos da carreira de qualquer artista – já atacou inúmeras vezes só esse ano. E os resultados resultam tanto em aprovação quanto reprovação, como podemos ver isso desde o genérico How Did We Get So Dark? do Royal Blood até o surpreendente Melodrama de Lorde. No meio termo entre esses exemplos se encontra Something To Tell You, sophomore álbum das irmãs Haim. Estamos diante de um disco de qualidade inegável, mas que carece de maior fluidez e soa abaixo da brilhante estreia do trio.

Os fãs do grupo não tem muito o que se decepcionar, o típico som pop californiano característico das garotas segue fortíssimo aqui. Todo a cultura musical pop americana parece passear pelo disco, indo desde pinceladas de country (Little Of Your Love), passando por baladas intimistas ao piano (Right Now) até o carisma absurdo de Ready For You com seu refrão ensolarado e facilmente cantarolável. Vale lembrar que, além da competência das três como instrumentistas, a química e sintonia entre os vocais segue no auge da banda, revezando o microfone com uma fluidez invejável, prova disso é a excelente Found It In Silence. 

Em Something To Tell You as referências do passado parecem falar levemente mais alto do que em Days Are Gone, que balanceava tão bem o retrô com o contemporâneo. A deliciosa You Never Knew exala Bruce Springsteen, mas com um charme feminino único. Já a fantástica Nothing’s Wrong é pop pra sair dançando sem vergonha, mostrando influência gritante de Fleetwood Mac, mais precisamente do clássico Rumours, determinante para a história da música pop. Uma pegada Soul também é incorporada ao longo do disco, o single Want You Back – ótima abertura que faz menção aos longos 4 anos que ficaram sem lançar nada – não possui referências a The Jackson’s Five apenas no nome, mas também no levíssimo e inocente funk presente no arranjo.

No entanto, Something To Tell também atinge pontos bem baixos. Walking Away parece ignorar tudo aquilo que faz o trio ser tão único. Qualquer fator orgânico é jogado fora a troco de batidas artificiais e um refrão apático, se tornando claramente um momento estranho dentro do álbum e difícil de passar despercebido. Gosto de chamar isso de The XXzação do cenário indie, onde tudo parece que, em algum momento, precisa convergir para sintetizadores e arranjos minimalistas. Isso sem falar quando simplesmente falta brilho na composição do grupo, caso de Night So Long, que encerra muito mal o disco, sem conversar com o que foi apresentado anteriormente.

Enquanto girlbands muitas vezes podem soar piegas, é difícil imaginar um trio atual mais cool e descolado que o dessas irmãs californianas. Something To Tell You até pode ser um trabalho inferior ao debut do grupo, mas segue demonstrando seu enorme talento fazendo uma música pop que se localiza muito bem entre o revival e o moderno. Este, Danielle e Alana continuam entre algumas das artistas mais interessantes (e carismáticas) do cenário indie pop atual. Só não façam o público esperar mais quatro anos para um próximo álbum, ok?

Aumenta!: Nothing’s Wrong
Diminui!: Walking Away

Something To Tell You
Artista: Haim
País: Estados Unidos
Lançamento: 7 de julho de 2017
Gravadora: Columbia Records
Estilo: Indie Pop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.