Crítica | Somos o Que Somos

estrelas 3,5

Somos o que Somos é a versão americana do filme mexicano de mesmo nome (Somos Lo Que Hay, no original). Mesmo tendo me sentido atraído pelo filme através de seu trailer, ao descobrir que este era uma refilmagem de um filme tão recente já fiquei com um pé atrás.

O longa-metragem nos conta a história de uma família cuja mãe acabou de morrer, deixando para trás o pai, duas filhas e um filho mais novo. Logo no início da projeção já nos é deixado claro que essa não é uma família normal, é tradicional e religiosa ao extremo. Com a morte da mãe cabe à filha mais velha cuidar do ritual do que chamam “o dia do cordeiro”. Não é nenhuma revelação na trama que o cordeiro em questão nada mais é que uma pessoa, seu destino fica fácil imaginar.

O forte do filme, porém, não se encontra na trama, que deixa a desejar no final, com algumas conclusões repentinas tiradas pelos personagens e um desfecho do clímax que não se encaixa com a progressão da história. Somos o Que Somos se sustenta fortemente através de sua fotografia, edição e som, os quais irei entrar em detalhes nós próximos parágrafos.

A fotografia é trabalhada de forma precisa e discreta – oferecendo belos enquadramentos e nada de movimentos de câmera desnecessários e confusos. Ela funciona de forma bastante orgânica, construindo a tensão e o inesperado nas cenas nas quais isso é pedido. Junto de uma trilha sonora melancólica e calma, ela constrói  de forma efetiva o retrato da vida do interior e a tradição da família em questão.

 Em contraste com esses momentos calmos e muitas vezes de introspecção e indagação do filme, estão os pontos de suspense e choque muito bem construídos através de cortes bem colocados, em conjunto com o som fora da tela. Esse é um filme bastante cru, transmitindo um forte desconforto e tensão em diversas cenas, ao ponto que ele não esconde praticamente nada. Para isso, os planos detalhes e closes funcionam precisamente, tirando os floreios dados por muitos filmes do gênero.

A construção das personagens se dá de maneira sólida e cada uma delas tem uma individualidade bem definida. A figura do pai é ameaçadora desde o início, mas mesmo assim conseguimos ver que ele realmente acredita no que faz. O dilema das duas filhas, suas dúvidas, ocorrem de maneira natural e suas ações são condizentes (exceto em um ponto específico do fim da projeção).

 Somos o Que Somos coloca em questão o fundamentalismo da tradição, família e religião. Consegue transmitir um forte suspense, tensão em contraponto com a melancolia dos personagens. Suas falhas se encontram unicamente em certos pontos do roteiro, mas não são o suficiente para estragar a experiência do filme. Meus temores por este ser uma refilmagem foram, enfim, abafados.

Somos o Que Somos (We Are What We Are, EUA/Reino Unido – 2012)
Direção: Jim Mickle
Roteiro: Nick Damici, Jim Mickle, Jorge Michel Grau (roteiro da versão original)
Elenco: Kassie Wesley DePaiva, Jack Gore, Ambyr Childers, Julia Garner, Bill Sage, Kelly McGillis, Wyatt Russel, Michael Parks
Duração: 105 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.