Crítica | A Canção do Oceano

estrelas 5,0

O Oscar sempre tem um indicado “exótico” em todas as categorias, inclusive na categoria de animação. A Canção do Oceano é a desse ano. A última animação do humilde estúdio irlandês, Cartoon Saloon, criador do elogiado Uma Viagem ao Mundo das Fábulas (também indicado a academia em 2009), é surpreendente e prossegue construindo novos rumos para o estúdio e até para a história da animação.

A história do longa é inspirada em uma lenda irlandesa/escocesa, assim como O Conto da Princesa Kaguya (inspirado em uma lenda japonesa) que também concorre ao Oscar. O filme nos apresenta a vida de Ben e sua irmã, Saoirse, que deixam a vida litorânea junto do pai pra ir viver junto da avó. Tudo muda quando eles são atraídos para um mundo folclórico que antes conheciam apenas por histórias que sua mãe – desaparecida misteriosamente – contava. O que desencadeia tudo: Saoirse é a última das “Selkies”, mulheres que na lenda celta se transformam em focas.

Tomm Moore, diretor e roteirista do longa, além de co-fundador do estúdio irlandês, tem capacidade suficiente para vir a ser considerado no futuro um animador renomado como Hayao Miyazaki. Aliás, o trabalho de Moore é justamente belo por se espelhar no mestre do Studio Ghibli e tantas outras obras clássicas da animação. Só que Moore coloca na obra suas própria essência. O curto currículo do diretor possui características bem distintas, além de uma arte bela que traz traços simples, ingênuos e peculiares para o cenário atual da animação.

A beleza na arte de Song Of The Sea é o que chama a atenção de primeira. Contrariando a tendência atual, segue na forma 2D, um desenho bem geométrico que realça o clima infantil e moderniza elementos clássicos da animação. Qualquer cena daria um excelente quadro, parecendo uma pintura da mais alta beleza e possuindo uma paleta de cores que acerta em cheio, passando pelo tom marrom da cidade, o verde da floresta, ou os fantásticos tons de azul ressaltados no mar. Isso aliado com o enredo cheio de fantasia, lembrando novamente o Studio Ghibli (a bruxa do filme, por exemplo, com certeza lembrará alguns a bruxa de A Viagem de Chihiro) e animações clássicas da Disney, como Fantasia.

Tudo se passa em uma época não especificada, onde nos localizamos através do rádio, toca-fitas, vestes e principalmente pelo estilo de vida. Ben traz a imagem do que o adulto atual já foi, aproveitando coisas simples da vida, em um mundo sem grandes tecnologias. Moore ainda aproveita pra ressaltar aspectos familiares que precisam ser lembrados. Seja na mãe contando lendas para o filho, a relação de um garoto e seu cachorro, ou a relação de brigas e amizade entre irmãos que parece vir sendo esquecida até mesmo em filmes. Podem parecer temas recorrentes, mas raramente são com essa intensidade, e tudo fica claro quando o diretor mostra isso através de uma simplicidade ímpar, deixando uma bela sensação nostálgica.

O roteiro simples e belo flui extraordinarimante bem, sem correrias ou excesso de conteúdo, deixando personagens certos para cada plot. Através de uma delicadeza e simplicidade incrível o longa nos guia por um conteúdo aparentemente infantil, mas com tons mais profundos e adultos do que parece. No fim, é impossível não se emocionar, passando uma mensagem bem forte sobre família que não se vê em qualquer obra.

Seria um pecado não mencionar a sensacional trilha. Trazendo um aspecto folk presente no filme, fazem uso da música celta, com direito a uma canção tema – cantada pela irlandesa Lisa Hannigan – bastante impactante e presente durante todo o longa. Vacilo mesmo é ela não concorrer ao prêmio de “Melhor Canção Original” no Oscar, visto que apresenta características típicas de indicados.

Song Of The Sea já é uma obra obrigatória pra um fã de animação, apresentando possíveis novos ares para o cenário e boas expectativas para o estúdio indie Cartoon Saloon, que consegue superar sua enfática obra anterior, Uma Viagem ao Mundo das Fábulas.

Obs: Saoirse é uma das personagens mais fofas que a animação já viu.

A Canção do Oceano (Song Of The Sea – Irlanda, 2014)
Direção: Tomm Moore
Roteiro: Will Collins, Tomm Moore
Elenco: David Rawle, Brendan Gleeson, Fionula Flanagan, Lisa Hannigan, Lucy O’Connell, Jon Kenny, Pat Shortt, Colm Snodaigh, Liam Hourican, Kevin Swierszcz
Duração: 94 minutos

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.