Crítica | Sonho de Valsa (1987)

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Sonho De Valsa é realismo fantástico puro. Neste filme-delírio, Ana Carolina Macedo Soares dá uma aula de narrativa sem perder o gosto pela contravenção formal. O Absurdo, marca de seu estilo, é a tônica de um cinema idiossincrático e agressivo (característica que formatou Mar de Rosas e Das Tripas Coração, os primeiros trabalhos da diretora). Sonho De Valsa caminha mais pelo onírico do que pelo acinte, embora nunca pare de contestar a realidade e subvertê-la.

Afinal, como questionar a trajetória afetivo-pessoal de uma mulher sem cair no melodrama? Ana Carolina rearranja o discurso machista e se arma de clichês e frases feitas para provar que autoconhecimento vem bem antes do amor romântico. Tendo em vista que a mulher, assim que nasce, já tem um destino previamente traçado pela sociedade, Ana Carolina faz seu manifesto: apesar da loucura da carência, da intermitência do desejo e das expectativas sociais, cada mulher deve carregar a própria cruz.

A diretora faz uso dos lugares-comuns da linguagem para conduzir a história e criar imagens simbólicas. Então esteja preparado para assistir Teresa, nossa heroína claudicante, literalmente entrando pelo cano, engolindo sapos e indo para o fundo do poço. Significado e significante se materializam por meio do fantástico e possivelmente lâmpadas se acenderam sobre a cabeça dessa diretora genial.

O fabuloso se torna imagem em meio ao cotidiano das relações ordinárias – somente o extraordinário dá cabo das fantasias do amor e da vida. Nessa empreitada arrojada e surreal, nada é gratuito ou mero exercício cinematográfico, pois nota-se constantemente a voz e a condução de uma diretora/autora questionadora, que apresenta um roteiro maluco porque assim é a experiência feminina.

Ao paroxismo e além, o sonho de valsa e príncipe encantado é esfacelado pela protagonista que passa a conhecer sua condição e lugar no mundo por meio do humor e da sátira, do poético e do banal, da pressão masculina e das metáforas que saltam vivas na tela. Trata-se da jornada de uma mulher rumo à lucidez de um amor real.

Para tão complexa psicologia, Xuxa Lopes foi a escolhida. A interpretação dela oscila entre a ingenuidade e a maturidade, entre a menina e a mulher, criando pontes muito significativas para uma personagem que não sabe onde se encaixar e que vive patinando entre polos opostos. É um filme, portanto, sobre a busca contínua de si mesmo e a renovação pela dor: a via-crucis do corpo feminino na terra dos homens.

Nesse quesito o filme é político, mas não é radical porque simplesmente fala sobre a construção dos afetos. Ana Carolina merece ser celebrada por fazer escolhas tão corajosas ao filmar as incertezas da mulher contemporânea. Ela, como umas das raras diretoras a filmar nas décadas de 70 e 80, não só fez filmes absolutamente autorais como criou uma gramática muito própria e nunca vista. Sua personalidade é reconhecível e, espero, ainda frutífera como essa árvore rara que é Sonho de Valsa.

Sonho de Valsa – Brasil, 1987
Direção: Ana Carolina Macedo Soares.
Roteiro: Ana Carolina Macedo Soares.
Elenco: Xuxa Lopes, Arduíno Colasanti, Daniel Dantas, Stela Freitas, Ney Matogrosso, Paulo Reis, Ricardo Petraglia, Paulo Henrique Souto.
Duração: 96 min.

MAURÍCIO ROSA . . . Maurício Rosa é um cara do século 19 ou dos anos 70 ou do futuro, mas, definitivamente, não é um homem do aqui e agora. É poeta ocasional e brinca com as palavras para produzir textura e afeto. Tem 26 anos e persegue uma dramaturgia para o desenredo desse mundo. Pisciano, destro, cinéfilo e eterno amante das mulheres da arte.