Crítica | Sonhos (1990)

Nota do conjunto da obra
(não é uma média):

Um Raio de Sol Através da Chuva
O Jardim das Pessegueiras
O Túnel
Corvos

A Tempestade

Monte Fuji em Chamas

O Demônio que Chora

O Vilarejo dos Moinhos

Cineastas como George Lucas, Steven Spielberg, Francis Ford Coppola e Martin Scorsese não devem nada a ninguém e, já pelos idos de 1980, haviam deixado um legado cinematográfico invejável que falava por si só. Mas eles sempre foram muito além do que sua filmografia afirma sobre suas personalidades quando lembramos seus projetos pessoais em diversas frentes. No entanto, não existe, para mim, um movimento mais bonito do que quando eles, em conjunto, impediram que Akira Kurosawa, inegavelmente um dos maiores diretores de todos os tempos, caísse no ostracismo precocemente. Como um magnífico gesto de agradecimento ao mestre japonês, uma das fontes mais ricas de inspirações dos quatro magos que mudaram Hollwyood, eles resgataram Kurosawa de uma situação financeira absurda e inaceitável que começara ao final da década de 60 e que o levara até a uma tentativa de suicídio, tornando possível a produção do épico Kagemusha, em 1980, o que lhe deu fôlego para, cinco anos depois, criar outro e ainda melhor épico, Ran. A essa altura, ele já tinha 75 anos e ninguém (nem ele!) esperava mais dele.

Mas Kurosawa, como acontece com as mais efervescentes mentes, ainda tinha mais a oferecer, especialmente porque um de seus desejos era literalmente morrer em um set de filmagens, fazendo aquilo que amava. Ele não conseguiu alcançar exatamente seu intento, mas chegou próximo, dirigindo, depois de Ran, Sonhos, Rapsódia em Agosto e, finalmente, Madadayo, este lançado cinco anos antes de seu falecimento, já em condições complicadas de saúde. Das três obras do crepúsculo de sua incrivelmente produtiva vida artística, Sonhos é, sem dúvida alguma, a mais pessoal e, também, a menos “comercial”, o que torna os esforços de Spielberg, que usou sua influência para colocar a Warner Bros. no jogo, e de Lucas, que encarregou sua Industrial Light & Magic de criar os efeitos visuais necessários a preço de custo, ainda mais valorosos. Sonhos é visto por muitos como um “projeto de vaidade” do diretor japonês, não mais do que um arroubo auto-biográfico que difere muito de tudo o que veio antes. Apesar de discordar desta afirmação, minha resposta para os que consideram este o resultado da expressão da vaidade de um velho diretor é muito simples: se tem um diretor na história da Sétima Arte que merece exercitar sua vaidade, este é Kurosawa.

Se toda vaidade fosse exercitada com a qualidade e apuro visual que o mestre coloca em tela em Sonhos, então não haveria sequer espaço para reclamações e classificações simplistas e reducionistas nessa linha. Em suas duas horas, Kurosawa transporta para as telas oito sonhos (alguns estão mais para pesadelos, porém) que diz ter tido ao longo de sua vida em ordem razoavelmente cronológica, se considerarmos (e quisermos assim entender) que cada um dos curtas auto-contidos de 13 a 15 minutos contém uma versão onírica dele mesmo, desde pequeno até adulto em um filme que, se não é sem defeitos, hipnotiza o espectador que conseguir mergulhar na proposta que, de fato, é muito diferente do que veio antes na carreira do diretor, mas que, ao mesmo tempo, retorna (agora literalmente) ao caráter episódico que sempre marcou sua filmografia e, em alguns momentos, lembra visualmente a ousadia de seu Dodeskaden.

Começando com uma dobradinha que considero composta pelos dois mais claramente pessoais curtas do conjunto – Um Raio de Sol Através da Chuva e O Jardim das Pessegueiras – Kurosawa volta para sua infância, lidando com sua relação com os pais em meio a acontecimentos fabulescos de uma beleza estética ímpar. No primeiro deles há até a reconstrução detalhada do pórtico e da casa da família dele, com o nome Kurosawa (em japonês, claro) visível ali. Ele, criança, vivido por Toshihiko Nakano, desobedece a mãe (Mitsuko Baisho) e sai para a floresta em um dia de “sol e chuva” (casamento de viúva!) que, diz a lenda nipônica, é o momento em que as kitsune (raposas) saem para casar e elas não gostam de bisbilhoteiros. Dito e feito, o garoto depara-se com uma procissão de raposas antropomorfizadas que mesmeriza o espectador pela beleza e pelos enquadramentos teatrais de Kurosawa, em um ambiente arbóreo em iguais medidas assustador e deslumbrante que, ao notarem a presença dele ali, reclamam com a mãe que, pasmem, o expulsa de casa depois de entregar um tantô para que ele se suicide. Um sonho perturbador, sem dúvida alguma. O segundo curta, que lida com o tema universal do desmatamento, também coloca uma versão um pouco mais velha, mas ainda criança de Kurosawa (agora vivido por Akira Terao) às voltas com sua família durante o Festival das Bonecas, na primavera, lidando com a devastação das lindas pessegueiras em seu jardim promovida por seus pais. Novamente de forma teatral, mas em escala muito maior (vide a imagem de destaque), os “espíritos” das árvores vêm para culpá-lo pelo acontecido, até que o garoto explica seu sofrimento pelo corte das árvores. Aqui, figurinos, maquiagem, fotografia, coreografia e trilha sonora se fundem em minutos que literalmente mostram o poder da imagem no Cinema.

O terceiro curta, A Tempestade, é de uma simplicidade desconcertante: um grupo de montanhistas são pegos em meio a uma nevasca e, um a um, eles vão desistindo de viver, com o último (provavelmente uma versão jovem de Kurosawa, já que ele fora um ávido escalador de montanhas) tentando resistir bravamente ao “canto da sereia” de Yuki-onna (Mieko Harada), um espírito da neve da lenda japonesa. O que encanta nesse segmento é a forma como o diretor transforma uma sequência que poderia ser realista e repleta de suspense (mesmo considerando o tal espírito) em algo onírico e surreal ao lidar com cenários que claramente chamam a atenção para sua artificialidade, além de movimentos em câmera lenta de todos em cena. O resultado é estranho, talvez arrastado, mas, creio, tenha sido algo proposital que apele para nossa angústia, para nossa exasperação em ver um fim para aquele tormento nas alturas que sabemos nada mais é do que um cenário em algum soundstage.

Em seguida, há O Túnel, outro conto simples em estrutura, mas tão ou mais angustiante que o anterior. Um comandante (em tese o próprio Kurosawa, vivido por Tessho Yamashita), retornando da 2ª Guerra, atravessa um túnel e, do outro lado, recebe a fantasmagórica visita de um dos soldados de seu batalhão (Cabo Noguchi, vivido por Yoshitaka Zushi) que morrera em combate, mas que não aceita a morte. Em seguida, todo seu batalhão aparece em forma fantasma, já que o comandante fora o único sobrevivente, carregando nos ombros todo o peso da culpa pelo ocorrido. É um episódio belíssimo pela forma como Kurosawa usa o azul claro e o preto da maquiagem dos mortos para criar contrastes marcantes e realmente fantasmagóricos. Vale um parênteses aqui, pois, acima, disse que o comandante é apenas em tese o próprio Kurosawa, já que o diretor, por razões de saúde, tivera seu alistamento negado, jamais tendo lutado na guerra. Esse “sonho” ou experiência, dizem, é o do lendário Ishirô Honda, diretor de Godzilla e de diversos filmes de kaiju que se seguiram, amigo de Kurosawa, consultor em Sonhos e que lutara na Manchúria. Seja como for, porém, o fato é que O Túnel dialoga bem com a estrutura solta, mas de certa forma biográfica do filme, sendo um de seus mais poderosos episódios.

Contrastando com o peso da morte do capítulo anterior, o seguinte é Corvos, aqui ligados à arte, mais especificamente a Vincent Van Gogh, com um estudante de arte que se perde nos quadros do pintor holandês, “entrando” por uma das pinturas que reproduzida em cenário de forma soberba pela cenografia. Ao tentar estudar o que é a inspiração e a arte em si, Kurosawa nos leva por seu sonho surreal que o coloca, falando em francês, atrás do próprio Vincent Van Gogh que, quando é encontrado, é ninguém menos do que um Martin Scorsese com a cabeça enfaixada (é logo após o momento em que o artista cortara sua orelha) e com uma barba muito vermelha falando aquele inglês novaiorquino típico dele, sem concessões. O momento traz sorrisos – no meu caso, gargalhadas – aos cinéfilos e todo o curta traz um senso de deslumbramento marcante pelo uso das cores vivas do pintor como a paleta de cores da fotografia explosiva que, seria possível dizer, é precursora da animação Com Amor, Van Gogh.

Esses cinco primeiros curtas são os melhores do longa, quase perfeitos, por carregarem efetivamente aquela qualidade onírica que esperamos, casada com visuais deslumbrantes que  aprendemos a receber do cineasta e, ao mesmo tempo, por esquivarem-se do didatismo e do texto expositivo. Kurosawa, no entanto, não tem tanta sorte nos três segmentos finais, Monte Fuji em ChamasO Demônio que ChoraO Vilarejo dos Moinhos que, por mais que possam mesmo ter sido sonhos do diretor, pegam demais o espectador pela mão, fazendo com que o aspecto visual abra espaço para textos poucos inspirados e, convenhamos, óbvios demais.

Monte Fuji em Chamas, o sexto curta, é o mais fraco dessa estirada final. E há uma dupla razão para isso. A primeira é o uso de efeitos visuais de sobreposição de imagens que, ao contrário do cenário artificial, mas eficiente de A Nevasca, retira o espectador da história completamente, com uma erupção do monte Fuji e a explosão de usinas nucleares que são muito mais feias do que minimamente críveis. A segunda razão é que, deixando três sobreviventes adultos da tragédia nesse momento apocalíptico, Kurosawa parte para nos explicar tintim por tintim os males das usinas nucleares e do descaso da Humanidade com o meio ambiente. Se Koyaanisqatsi não precisou de uma palavra sequer para deixar isso sobejamente claro, o diretor e roteirista não precisava exagerar nas explicações. Mesmo com pouco mais de 10 minutos, o resultado é maçante e destoa muito de todos os demais.

O Demônio que Chora, em linhas gerais, lida com a mesma temática do curta anterior, com um mundo pós-Holocausto nuclear populado por demônios (ou oni, ogros da lenda japonesa) que representam a casta mais abastada da sociedade que outrora existia, responsável pela exploração desenfreada de todos os recursos naturais. O trabalho de maquiagem e de próteses no segmento é muito bom, além de uma tomada belíssima de uma “colônia” de demônios vivendo em volta de dois pequenos lagos de água vermelha. A plasticidade marcante do trabalho de Kurosawa volta com força total aqui, mas o didatismo anti-capitalista carrega nas cores (com trocadilho) da lição de moral.

Mas o derradeiro curta, O Vilarejo dos Moinhos, encerra Sonhos com uma nota positiva, esperançosa. Colocando um Kurosawa adulto, mas ainda jovem como um turista em um vilarejo sem nome, ouvimos de um velho habitante local (Chishū Ryū) falar sobre como a Humanidade acostumou-se mal ao arrancar tudo o que é possível da natureza. Em outras palavras, é o terceiro curta seguido que aborda o mesmo tema geral sobre o conflito Homem vs. Natureza e sem economizar no sermão. Mas, aqui, o diretor volta às cores vivas e deslumbrantes dos primeiros curtas, além de resvalar no lado folclórico mais uma vez, até mesmo com uma procissão funerária que não poderia ser mais alegre e bonita.

Sonhos é um Kurosawa pessoal, sem dúvida alguma, mas é um Kurosawa de grande qualidade, sendo ou não um projeto de vaidade. Um filme que encanta, assusta, emociona e enraivece em proporções iguais. Uma visão rara para dentro de uma mentes mais incríveis da Sétima Arte.

Nota: Originalmente, eram nove contos, mas o nono, A Wonderful Dream (Um Sonho Maravilhoso em tradução literal) jamais foi produzido, por ter sido considerado caro demais. A história mostra o narrador (novamente um Kurosawa adulto) tomando café da manhã quando a televisão anuncia que a Humanidade conseguira evitar a extinção nuclear, o que leva as pessoas em massa às ruas para depositar suas armas em uma gigantesca pilha e a gritar de alegria. Claramente uma visão positiva sobre a Humanidade por Akira Kurosawa que, porém, custaria desproporcionais três milhões de dólares (a multidão, a pilha de armas etc.) em um filme orçado em 14. Mas o roteiro existe e pode ser encontrado por aí.

Sonhos (Yume/Dreams, Japão/EUA – 1990)
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa
Elenco: Akira Terao, Mitsunori Isaki, Mitsuko Baisho, Martin Scorsese, Chishū Ryū, Mieko Harada, Yoshitaka Zushi, Toshie Negishi, Hisashi Igawa, Chosuke Ikariya, Noriko Honma, Masayuki Yui, Shu Nakajima, Sakae Kimura, Tessho Yamashita, Toshihiko Nakano
Duração: 120 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.