Crítica | Sono de Inverno

sono de inverno winter sleep

estrelas 5,0

I. O Reinado de Aydin – Presenças

Meu reino é pequeno. Mas ao menos… me sinto um rei.

 

Aydin é um ex-ator que se orgulha em dizer que nunca sucumbiu às garras da televisão. Seu amor e sua dedicação, no passado distante, eram todos direcionados ao Teatro, uma Arte Maior. No tempo presente de Sono de Inverno, ele imerge e banha-se e vive-se em Literatura, outra Arte Maior. Através dela, remonta mentalmente um pouco de seu passado: pretende publicar um livro, “um calhamaço” – segundo suas próprias palavras –, intitulado A História do Teatro Turco. É um homem de classe, de gosto refinado. O seu conhecimento é seu único amigo, mas ao mesmo tempo também é seu único inimigo real: é O Saber que produz e alimenta tanta distância em sua vida. Proximidade, no mundo particular de Aydin, existe apenas em relação às palavras. E essas palavras ferem, mordem, exterminam o que há de beleza simples nos pequenos momentos de seu cotidiano. A mulher, Nihal, e a irmã, Necla, são reféns dessa Presença Palavreada. Mas também elas sabem matar com A Fala.

O sorriso de Nihal não encontra os olhos de Aydin. Os poucos momentos em que os lábios da mulher se ajustam de forma a desenhar contornos de felicidade em sua face, são aqueles em que Aydin não a observa, ou não está por perto. A presença do marido é como a presença das palavras: sufocante.

Não há como se desprender por completo de quem já é parte de nós. E por mais que aquele casamento esteja em ruínas, há uma espécie de aura de desamor-angústia que sustenta sua conveniente existência: Nihal tem em Aydin a fortaleza que lhe providencia aconchego e lhe dá a oportunidade de fazer o seu trabalho de caridade sem precisar preocupar-se com a situação financeira; Aydin tem em Nihal uma mulher para chamar de sua, e uma presença física para lhe iludir com a ideia de que sua casa não é vazia. Ambos são tristes juntos, pois juntos configuram-se em um corpo solitário, distante de si. Haveriam eles de se separar, e assim repartirem sua solidão, amenizando-a ao transformá-la em duas solidões? Não: a única coisa que Aydin e Nihal sabem compartilhar em sua vida a dois é a solidão. Reparti-la seria desistir de tudo o que resta. Será?

Aydin não tem domínio de seu reino.

 

II. A Reflexão Como Atividade Suprema – Diálogos

A montanha pariu um rato.

 

Essa complexidade de relações humanas é o que faz de Sono de Inverno a obra majestosa e inigualável que é. Raríssimas vezes um filme – mesmo que de mais de 3 horas de duração… – conseguiu, através da construção da narrativa, envolver seus personagens em confrontos tão reais, instigantes e infinitos de possibilidades. Seja entre Aydin e Nihal, entre Nihal e Necla ou entre Necla e Aydin, os diálogos (que transitam entre dicotomias e são sempre ácidos, indo do cômico ao trágico com facilidade, ao mesmo tempo em que cruzam a comicidade e a tragédia com brilhantismo em determinados momentos) soam o tempo inteiro como uma bomba relógio: as intenções por trás deles ficam escondidas, à margem de palavras que dizem muito para esconder muito mais – até que há a explosão. O embate entre ideias díspares e sentimentos conflitantes – que preferem fingir que não existem até que haja um estímulo que os faça reagir (e explodir!) – gera momentos de pura tristeza contida; pequenas vontades reveladas; ódios despertos; remorsos descobertos.

Os personagens de Sono de Inverno, todos, querem algo, e aos poucos revelam o que querem. O que jamais fazem é revelar como querem. Trata-se de uma dinâmica de jogo de intenções que é parte vital de nossas vidas, e na maioria das vezes é ignorada por roteiristas quando estes escrevem diálogos para momentos de conflito em filmes de personagem. O fato é que é sempre mais cômodo atirar-se ao óbvio para que o espectador identifique viradas no plot ou justificativas para mudanças no comportamento dos personagens, no entanto a presença da sutileza enriquece não só cenas isoladas, mas toda a narrativa do filme, que depende de uma dramaturgia consciente e inventiva para fazer valer sua ambição em termos cinematográficos. Sono de Inverno utiliza-se da sutileza com maestria durante todo o seu tempo de projeção, e os diálogos longos, reflexivos, filosóficos e primorosos fazem com que o peso das temáticas que o filme abarca se acomode perfeitamente em sua estrutura, orquestrada por uma carpintaria narrativa precisa.

De todos os magníficos diálogos do filme, talvez o mais significativo em termos de condução dramática seja aquele sobre “não se opor ao mal”, provocado por Necla. É importante ressaltar que, quando a irmã de Aydin começa a expor sua excêntrica teoria, não a conhecemos nem um pouco. Não sabemos de seu passado, de sua história. Não conhecemos sua forma de lidar com as coisas. E não a vimos falar sobre o que a afeta… ainda. Então, a princípio, assim que Necla passa a confrontar o irmão com ideais ousados, a entendemos automaticamente como uma espécie de força da natureza, segura de si. Não podíamos estar mais enganados: Necla é um furacão que tenta se controlar, mas nem sempre é bem-sucedido em suas tentativas. Ou seja: ela é humana.

Em uma sequência longa e absolutamente genial, que se passa toda no escritório de Aydin, há o embate definitivo entre o escritor e sua irmã: enquanto Aydin trabalha em um artigo e pede a opinião de Necla acerca de seus escritos, perpassa-se uma tensão implícita que cada vez mais vai migrando para o campo do explícito conforme as reais intenções de cada personagem vão se deixando escapar. Ao final, o que começa como uma discussão de aspecto puramente profissional transforma-se em um descarrego cruel de rancores, que desestabiliza intensamente os dois irmãos.

* Alguns momentos de destaque do diálogo:

– “é uma especialista em crítica silenciosa”, diz Necla sobre Nihal – e mais tarde perceberemos como Necla estava certa, ao testemunharmos Nihal dar voz a toda a mudez crítica que guardou tanto tempo consigo.

– “a montanha pariu um rato”, diz Aydin, em uma analogia sobre a decepção que ele se tornou para sua irmã devido à vida desprovida de emoções que leva, apesar de seus dons artísticos – e mesmo morando em uma paisagem de cinema, na península anatoliana, Aydin fica boa parte do tempo de projeção de Sono de Inverno trancado em seu aposento, como um rato, trabalhando e não sendo ninguém.

– “acho que você odeia a mim, não a meus artigos”, diz Aydin para Necla – de fato, as críticas da irmã são implacáveis em sua honestidade crua, e o ódio à arte se confunde com o ódio ao artista e à pessoa do artista.

– “eu tenho que ir à mesquita para escrever sobre religião?”, questiona Aydin quando confrontado com a ideia de que precisaria vivenciar o objeto de análise para que fizesse jus à veracidade dos fatos – e é nesses momentos que percebemos que Necla atingiu seu irmão profundamente: no ato de desmerecer sua arte, ela está também o desmerecendo por completo.

– “há maneiras de chorar que você não conhece”, diz Aydin para Necla quando insultado por ela com a afirmação de que ele não chorou pela morte do pai – é quando a conversa em códigos chega onde queria chegar: os dois irmãos estão falando, afinal de contas, de coisas mal resolvidas entre eles, e não de arte.

– “a reflexão como atividade suprema!”, suspira então Aydin – o arco dramático do diálogo é perfeito… e culmina num silêncio esmagador, que destrói os poucos laços que ainda haviam entre aqueles dois.

Sono de Inverno é o tipo de filme que merece uma tese que faça jus à sua significância e complexidade quase literária, pois uma crítica ou um ensaio jamais serão capazes de cobrir o vasto campo invernal de uma narrativa tão grandiosamente detalhista como esta.

 

III. Sono de Inverno – Paisagens

Sou um homem simples, mas o pior é que quero continuar assim.

 

A fotografia nos interiores é amarelada: podridão, desgaste, velhice.

Do lado de fora, o azul e o cinza do inverno.

Planos longos e contemplativos, que compreendem diálogos reveladores, instrumentos que dão voz às contradições da condição humana.

Silêncio.

Um pouco de piano. Melodia tímida, que surge e some com a mesma casualidade.

Naturalismo.

O cavalo é liberto, e corre na intensa neve de tom azulado.

Sono de Inverno é denso, carregado até o plano final – que mostra o inverno em toda a sua plenitude, até então ocultada pelas lentes sábias do diretor e roteirista Nuri Bilge Ceylan.

(…)

E Aydin não se opõe ao mal, até porque todos os possíveis destinos à sua frente parecem lhe encaminhar para longe do que é bom – cada vez mais perto do frio do inverno, que lá fora o congela e o obriga a ficar dentro de casa… congelado pela letargia de ser a única pessoa que ele sabe ser: ele mesmo.

Sono de Inverno (Kis Uykusu) – Turquia, 2014
Direção:
Nuri Bilge Ceylan
Roteiro:
Nuri Bilge Ceylan, Ebru Ceylan
Elenco:
Haluk Bilginer, Melisa Sözen, Demet Akbag, Ayberk Pekcan, Serhat Mustafa Kilic, Tamer Levent, Nejat Isler, Nadir Saribacak, Mehmet Ali Nuroglu, Emirhan Doruktutan
Duração: 196 min

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).