Crítica | Sopa de Salsicha

estrelas 5,0
“Graphic Novel é quando nós, artistas, fazemos histórias em quadrinhos com mais de 100 páginas, totalmente dedicadas a falar de nós mesmos e de problemas mal resolvidos de nossas vidas.”

Uma vez ouvi que ninguém gosta de ler, ouvir ou assistir histórias sobre o cotidiano. A ficção foi criada justamente como uma fuga para as limitações que, viver em sociedade nos trazem. Mas, há um movimento interessante, principalmente no quadrinho nacional, de contar-se histórias sobre o nosso monótono dia a dia. Um dos maiores representantes desse movimento, Sopa de Salsicha é um quadrinho auto-biográfico de Eduardo Medeiros. Ele, que já era conhecido pelo seu trabalho no quadrinho Open Bar, publicado pela Stout Club. Em Sopa de Salsicha, Medeiros entrega o seu maior trabalho, não apenas em número de páginas, mas também na qualidade narrativa e artística.

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O plot do quadrinho narra um período de tempo na vida de seu autor. Recém mudados para Florianópolis, o casal Eduardo e Baixinha, estão passando por um momento de transição em suas vidas. Ele, que é ilustrador e quadrinista, está em busca de uma nova história. Porém, diferente das maiores editoras, ele não tem o desejo de contar grandes tramas, com finais explosivos, mas sim, narrar o seu cotidiano.

Com a trama principal explicada, fica difícil de entender, como Eduardo conseguiu desenvolver uma história tão simples nas  172 páginas da HQ. Então, é nessa parte que teremos que parar para tentar explicar a principal habilidade de Medeiros, o storytelling.

São poucos escritores que conseguem desenvolver uma narrativa que seja simples, fácil de ler e ao mesmo tempo empolgante. Sopa de Salsicha é um quadrinho que possui essas três características. Com um tema cotidiano, mas com uma forma muito bem elaborada, Medeiros consegue colocar sua história em um patamar muito reflexivo.

O roteiro é tão bem elaborado, que logo nas primeiras páginas os leitores já se sentem amigos do casal, o autor usa da simplicidade dos diálogos, para colocar seu receptor a vontade, com se estivesse na sala com seus amigos. Ele também não usa de uma narrativa linear para desenvolver a trama, Medeiros narra o seu cotidiano misturado com viagens do protagonista, então é comum vermos muitas páginas de pura piração e imaginação.

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Acompanhando o roteiro, a arte também vem com a conhecida simplicidade de Eduardo, essa que não é um demérito. O artista consegue ter um traço com sua identidade, simples, mas com a arte muito bem finalizada, cores pastéis e lotado de sombras. A distribuição de quadros é outro aspecto muito bem trabalhado em Sopa de Salsicha, no quadrinho vemos um bom exemplo de como a arte sequencial, quando tratada com esmero, consegue, ao mesmo tempo ser simples, e encher os olhos de seu leitor.

Sopa de Salsicha é mais uma brilhante graphic novel independente nacional. Conversando com Medeiros na CCXP 2016, comentei que o quadrinho é um ótima porta de entrada para aqueles que querem iniciar sua jornada pelas HQs. O autor respondeu que essa era a sua intenção quando começou a trabalhar na obra. Então, parabéns Eduardo Medeiros, você conseguiu, com sua já conhecida simplicidade, encantar, divertir e mostrar que quadrinho é muito mais que explosão e lutas frenéticas.

Sopa de Salsicha — Brasil, 2016
Roteiro: Eduardo Medeiros
Arte: Eduardo Medeiros
Cores: Eduardo Medeiros
Letras: Eduardo Medeiros
Editora original: Quadrinhos e Cia.
Datas originais de publicação: 2016
Páginas: 172 páginas.

PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".