Crítica | Soul Surfer – Coragem Para Viver

Histórias de sobrevivência são edificantes, pois nos faz pensar sobre como algumas pessoas vivem em situações menos privilegiadas que as nossas existências de sorte. Histórias de sobrevivência também podem ser lacrimejantes, tamanha a carga melodramática empregada pelo roteiro que vai fundo nas questões psicológicas e acentua, com suas rubricas, emoções que precisam estar bem sinalizadas para o cineasta responsável pela produção, bem como para o compositor da trilha sonora, o diretor de fotografia, etc.

Soul Surfer – Coragem Para Viver segue essa cartilha, com todos os elementos para ser apenas uma bem sucedida Sessão da Tarde. É bonito, bem conduzido, apropriado para a família e consegue ser cristão sem impregnar a narrativa de mensagens que reforçam o caráter miserável das pessoas que não seguem o “caminho de Cristo”. É um filme bem pontual. Fala de amor ao próximo, de companheirismo, da força da amizade, da necessidade da família e dos motivos que levam uma pessoa a ter que superar os obstáculos que a vida infelizmente colocou em seu aparentemente frutífero caminho.

Com elenco sofisticado, tal como veremos mais adiante, o filme trata da história da jovem Bethany Hamilton, uma jovem que se tornou símbolo de superação após um incidente com tubarão enquanto surfava com a família, em 2003, numa praia conhecida por Tunnel Beach, em Kauai, no Havaí. Tema de numerosos especiais de TV e reportagens, Hamilton teve o braço esquerdo amputado por conta da extensão da mordida, num acidente que a faz perder quase 60% de sangue antes de ser hospitalizada. A história se tornou o livro Soul Surfer – A Verdadeira História de Fé, Família e Luta Para Voltar a Prancha, publicação assinada por Hamilton, com apoio editorial de Rick Bundschuc.

Com o material literário em mãos, foi a vez de uma extensa equipe de roteiristas se agrupar para a realização do roteiro: Sean McNamara, Debora Schwartz, Douglas Schwartz, Michael Berk, Matt Allen, Caleb Wilson e Brad Gann. Após o texto ficar pronto, Sean McNamara assumiu a cadeira de diretor e testou a atriz ideal para o papel, escolhida inclusive pela própria Bethany Hamilton, isto é, a talentosa AnnaSophia Robb, profissional que cria uma personagem crível e muito carismática. Os seus momentos de tristeza e alegria, bem como a interação com o mar depois de intensos treinamentos de surfe são bem registrados pela direção de fotografia John R. Leonetti. Destaque também para os figurinos de Kathe James e a edição acima da média de Jeff Canavan.

Ao longo de seus 112 minutos, o filme retrata a vida da família de surfistas, antes de partir logo para o lado trágico. Destaque para Cheri Hamilton (Helen Hunt) e Tom Hamilton (Denis Quaid), pais da garota representados com carisma, elos eficientes com a proposta dramática. Com condução musical de Marco Beltrami, compositor que anos depois assinaria a trilha de Águas Rasas, outro filme com tubarões como tema, o drama navega bem entre o drama e o bom humor, sem deixar de ser piegas em alguns instantes, algo que não chega a incomodar, afinal, a temática da superação vendida para as grandes massas geralmente se apega a este tipo de condução narrativa.

Soul Surfer – Coragem Para Viver — (Soul Surfer) Estados Unidos, 2011.
Direção: Sean McNamara
Roteiro: Deborah Schwartz, Douglas Schwartz, Michael Berk, Sean McNamara
Elenco: AnnaSophia Robb, Helen Hunt, Denis Quaid, Chris Brochu, Christie Brooke, Sonya Balmores
Duração: 112 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.