Crítica | Sozinho Contra Todos

estrelas 3

‘Você sabe o que é a moral? Eu vou dizer o que é a moral, a moral para aqueles que tem, os ricos. Você sabe quem sempre tem razão? Os ricos, e o pobres se fodem”. Com uma certeira e arrebatadora frase, o cineasta Gaspar Noé, que na época desse seu Sozinho Contra Todos já era um iniciado no mundo cinematográfico e de longa data, declara suas afeições críticas: a justiça passa a ser nada mais é que um conceito vago, de difícil definição e prática, a própria condição humana, antes de tudo, um absurdo. Quem já conhece sua obra e temática sabe bem o interesse do autor pela desconstrução como parte essencial de sua criação, a moral será a todo instante testada em seus planos, assim como de seu expectador. Optando pelo choque ele não poupa, devassa física e psicologicamente as entranhas de seus personagens e os olhos voyeurísticos daqueles que os assistem, geralmente optando por um tema tabu como incesto, aborto, estupro, morte e religião. Exatamente como ele já disse: sêmen, lágrimas e sangue. Mas será apenas isso?

Criticado geralmente pelas mesmas características que o tornaram notório, como se fizesse espetáculo do sofrimento, uma análise estética sobre o autor, suas referências e motivações, só tornam mais claras suas intenções, se aproximando de duas correntes, uma do teatro, outra da filosofia, para compor seu cinema. Do filósofo Albert Camus (de o Mito de Sísifo) ele buscou o absurdismo, corrente que defende a ideia de que não há um sentido último na vida, lugar onde o sujeito se encontra destituído de suas capacidades racionais para agir no mundo e por isso mesmo qualquer sentido deva ser construído e não dado por forças exteriores: ”Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia”. De mesmo modo, ele utiliza várias ideias vindas do teatro da crueldade, perpetrado pelo importante teatrólogo Antonin Artaud. Em sua teoria, o autor critica o teatro europeu de sua época, preferindo a qualidade cerimonial de certas tradições orientais. Para ele “O teatro é igual à peste porque, como ela, é a manifestação, a exteriorização de um fundo de crueldade latente pelo qual se localizam num indivíduo ou numa população todas as maldosas possibilidades da alma”. Para tanto, além de temas controversos, suas peças intencionavam envolver e angustiar o espectador, algo de muita importância, usando de várias artifícios como tiros de verdade para assustar e envolver a plateia. Por isso é a angústia o sentimento que primeiro deve ser atingido, um teatro das sensações por assim dizer. Algo que vemos diretamente na obra de Gaspar Noé, medo e absurdo, lado a lado.

Continuando seu trabalho anterior, do curta Carne, em seu primeiro longa o diretor optou por dar uma abordagem mais política a seu antigo pessimismo. Ainda centrado na tragédia de um açougueiro que perde tudo, até o cobiçado amor (carnal) de sua filha, o filme trata de falar sobre seu retorno para casa, morando com uma mulher que não gosta nosso anti-herói tentará sobreviver nas entranhas de seu país, da maneira mais violenta possível. Interpretado pelo excelente Philippe Nahon, o mentalmente desequilibrado personagem começa testando a moral do espectador, se livrando do filho que sua cônjuge esperava, a socos, em uma decisão digna de Medeia, cheio de reflexões acerca da vida, ”na vida ou se é uma pica ou uma buceta. Se nascer como pica só terá valor se enfiar. Se nascer uma buceta, só tera valor se for preenchida. Eu sou uma pica.” A abordagem usada nesse filme é diferente daquela pela qual o diretor ficou conhecido. Sua narrativa é linear mas toda comentada em primeira pessoa, quase um monólogo, um longo ensaio sobre o desespero. É a história de um homem comum, deslocado de seu meio, como tantos outros e nesse ponto essa escolha se faz muito feliz. Aqui, contudo, já vemos um dos problemas mais recorrentes no filme, o ritmo. Arrastado em demasia, o jogo de câmeras entedia, exatamente por isso que mais pra frente ele adotara o plano-sequência. Mas há outros estilismos que compensam: o zoom utilizado é muito gratificante, a abertura, como de praxe, está maravilhosa… mas é no final que o filme brilha.

Performando um recorte social, a abordagem não se atém somente às claras nuances de incesto trabalhadas no curta, elas também existem aqui mas como ilustração, quase freudiana, da presença do erótico em todas as relações humanas, fantasias de incesto e violência para citar a fonte. Mas é no revanchismo que o filme traz o estado de caos que socialmente vive o homem, desde o senhor que elege uma pistola como sua moral até os surtos misóginos do velho açougueiro, classe ou sexo, há uma luta de todos contra todos. Leviathan fugiu horrorizado, e nesse horror, no lado escuro de Paris, vemos que esse estado velado de guerra é muito natural, mesmo que mal resolvido a maior parte do tempo, muito presente nas falas sobre os imigrantes, em especial os árabes, todos colocados sobre a alcunha de ”negros” ou falsos franceses. Não à toa, Robespierre é citado como resolução dos ”problemas”. Noé fala de homens como sombras de uma sociedade desigual, patriarcal, a qual poucos verdadeiramente se encaixam, daí o ódio, desigualdade econômica e de direitos, a responsabilidade de “fuder ou ser fudida, ser homem ou mulher“. Eis o cerne do filme,: moral, justiça e a impossibilidade de serem alcançadas.

No terceiro ato, a trama passa a se centrar no desiludido homem buscando o que lhe resta, sua filha no sanatório em que ela ficou jogada anos depois que fora preso. A trama passa a se fechar no ”EU” sujeito, por assim dizer, mais que no ”Eu” outro, social. As motivações, agora pessoais da história daquele sujeito, ganham o primeiro plano onde cada rancor pesa até o ponto de um insustentável retorno e o suicídio ganha  status de fuga e conforto ao confronto com o mundo. Não vou dar spoilers mas digamos que é algo muito gratificante ouvir a voz de um homem desesperado implorando pelo amor da única coisa que fizera bem, sua filha. Se por vezes a película perde seu foco, algo típico de iniciantes em longas, a montagem ajuda e muito a manter a forma alcançada e em geral o resultado tido é bem melhor que aquele que outrora ele havia conquistado em seus curtas, consolidando uma identidade visual e narrativa que com o tempo o destacaria de muito outros diretores que começaram na mesma época.

Dono de uma obra controversa e que certamente desafiam seu espectador, me parece interessante retornar a crueldade e ao absurdo para entendê-lo melhor. Com uma cáustica visão política, sua análise do social (machismo, misoginia, preconceito racial e abuso) nunca se veem longe do campo do desejo, nobremente expresso no campo sexual, algo apreendido e aprendido de Kubrick, a quem faz inúmeras referências, da  centralidade de seus enquadramentos até referências fálicas quando o assunto é a violência. No absurdo, reside a ausência de uma ética absoluta que impede os homens da maldade, da traição e mesmo do prazer… provavelmente sendo a crueldade o maior deles, como já filosofou Nietzsche. Sua santíssima trindade é outra, em sua obra ela é feita de elementos mais mundanos e humanos.

É logo em seu primeiro longa que Gaspar Noé demonstra sua habilidade como criador, às vezes mais conceitual e visualmente que numa narrativa necessariamente dramatúrgico-clássica, algo que ele iria investir de modo bem mais contundente em suas futuras criações, irreversíveis, por assim dizer. Com um roteiro simples mas cheio de elementos bem colocados e situações interessantes, é na direção que se encontra a virtuose da película. Cheio de poesia e dureza, chegar ao final de algumas de suas obras pode ser difícil, mas recompensador. Mais do que a moral entendemos por que ”o amor de fato é uma palavra demasiado forte” e porque ‘‘poucos podem dizer que de fato a viveram”.

Sozinho Contra Todos (Seul Contre Tous, França – 1998)
Direção: Gaspar Noé
Roteiro: Gaspar Noé
Elenco: Philippe Nahon, Blandine Lenoir, Frankie Pain, Martine Audrain, Jean-Francois Rauger, Guillaume Nicloux, Olivier Doran, Aïssa Djabri, Serge Faurie
Duração: 88 min

PEDRO ROMA . . . Antes de tudo, cinéfilo inveterado e amante de todo tipo de filme, mesmo que eu prefira um pouco mais russos e tchecos, em geral. Aspirante a cineasta, atualmente curso cinema e espero poder ganhar um longo podcast sobre mim um dia, haha. Para além das brincadeiras, quero contribuir de forma ativa com o pensamento cinematográfico, começando pela critica é claro, podendo colocar em palavras toda a emoção que sinto nesse prazeroso e ao mesmo tempo intrigante ato de simplesmente sentar e ver um filme.