Crítica | Space Jam: O Jogo do Século

Space-jam-disney o jogo do século plano critico

“Come on and slam and welcome to the jam.”

Uma coisa que todos esperam dos desenhos da Looney Tunes é o absurdo, várias piadas engraçadas e situações impossíveis, então é claro que ninguém reclamaria de um filme com estes personagens tão amados pelo público. Mas aí vem Space Jam: O Jogo do Século, e você começa a questionar seu amor pela Sétima Arte. E é claro que assistindo isso na década de 1990, ainda criança, esse filme parecia bem melhor do que realmente é, e você não tinha a mínima ideia de que na verdade era tudo apenas uma jogada de marketing descarada para aproveitar o sucesso de um comercial da Nike tentando vender seu novo tênis. Sim, é literalmente isso.

A proposta do filme tem alguns elementos interessantes e a premissa não é, digamos… de se jogar fora. Em algum lugar no nosso sistema solar existe um enorme planeta que serve como parque de diversões chamado Montanha Bobolândia – sim, é nesse nível -, onde os brinquedos são perigosos e radicais, mas ainda assim não agradam o público. Com isso em mente, o gerente decide enviar alguns de seus funcionários, pequenos alienígenas mal intencionados, para o nosso planeta, onde devem encontrar um jeito de capturar Pernalonga e seus amigos para que sirvam de atração principal no parque. Mas os Looney Tunes tem um plano: se aproveitando da baixa estatura dos visitantes, desafiam os seres extraterrestres em uma partida de basquete que decidirá tudo. Os pequeninos conseguem roubar o talento dos maiores jogadores da NBA (devo deixar claro que eles fazem isto usando uma bola de basquete “que suga os poderes dos jogadores”, esse detalhe não é importante, mas merece destaque para dar uma ideia do nível de dedicação que foi dado ao roteiro deste filme) e se transformam em gigantes criaturas chamadas “Monstars(só melhora!). E para derrotar os invasores alienígenas e evitar que sejam escravizados pela eternidade, os Tunes têm a brilhante ideia de chamar ninguém menos que Michael Jordan para seu time. Assim começa o “jogo do século”.

O argumento do longa parece a coisa mais idiota desse mundo, e não ajuda em nada admitir que eu consegui escrever essa premissa de cabeça e tenho a maioria das falas decoradas até hoje. ¯\_(ツ)_/¯

Space Jam, tecnicamente, não é a primeira vez onde vemos os personagens dos desenhos da Warner em um longa que mescla animação e live action. Uma Cilada Para Roger Rabbit, lançado quase uma década antes, já contava com a presença de alguns Looney Tunes. Mas desta vez a parte animada foi feita digitalmente (Roger Rabbit não utilizou computadores), e o resultado é melhor do que o encontrado na maioria das produções que seguem este estilo. A interação entre os elementos ficou bem natural e não envelheceu mal, tirando talvez as partes onde dá pra notar uma diferença na textura e a iluminação não ajuda muito, e esse é um tipo de cuidado que poderia ser tomado. Ainda assim, é um dos pontos positivos de um filme que saiu em 1996, e sabemos o pesadelo que foi o excesso de efeitos especiais desnecessários naquela década.

E agora que passei pelos pontos positivos, posso seguir para onde o filme peca, como no enredo, elenco, direção e basicamente tudo que é necessário para se ter um bom filme.

Vamos começar pelo enredo, que acredite ou não, tem quatro nomes creditados no roteiro. Nada faz sentido, obviamente, já que é tudo uma fachada para vender tênis para quem gosta de esporte e bonecos para quem gosta dos personagens animados. O filme nem tenta disfarçar o product placement (inserção de propaganda) e traz uma cena onde o agente de Michael Jordan entra no quarto do jogador pedindo para que ele “coloque seu Nike, prepare seu Gatorade e não esqueça de passar no McDonalds antes de ir para a quadra”. E eu nem preciso perder muito tempo aqui dizendo que a trama é uma das coisas mais preguiçosas e mal escritas, cheia de piadas sem graça e momentos aleatórios, e olha que a graça dos Looney Tunes é a comédia absurda, mas aqui eles parecem uma versão mais “adestrada” das que conhecemos, fazendo brincadeiras com coisas que ou ficaram datadas de uma forma inacreditavelmente rápida ou não combinam com o humor cínico pelo qual os personagens ficaram conhecidos. Raras as vezes onde alguma coisa funciona e parece ter sido escrita por alguém que sabe o potencial do material que tem em mãos, ou até a oportunidade de trabalhar com personagens tão icônicos. Em questão de narrativa, o filme também consegue ser bem cansativo e o ritmo varia constantemente na primeira metade, onde temos cenas alternando entre o mundo real e o animado. Depois que as partidas de basquete realmente começam, aí sim podemos ter um pouco de diversão vendo como todos interagem, sem contar que o jogo não é ruim.

Quanto ao elenco, esse tem seus altos e seus baixos, mas também tem hora que despenca de um penhasco sem dó. Vamos dar crédito onde ele merece ser dado e reconhecer que Wayne Knight, mais conhecido por interpretar Newman em Seinfeld, é o único que aparenta estar se divertindo em Space Jam. Seu jeito desastrado e exagerado casa bem com a comédia física das animações, e não por ele estar acima do peso (muita gente faz sucesso só com isso sem ter talento algum, é só perguntar para Kevin James), e sim por ser um bom comediante e provavelmente o melhor ator do filme – se bem que não é difícil brilhar em um longa onde Michael Jordan é a estrela -, mesmo tendo que lidar com um roteiro que claramente tenta inserir piadas de mal gosto e sem graça envolvendo seu peso.

E por falar em Michael Jordan, este pode ser um gênio em um estádio de basquete, mas é um desastre atuando, não convence em momento algum, entrega as falas da forma mais desanimada possível e nem é carismático, o que pelo pelo menos seria uma forma de achar a presença dele neste filme mais tolerável. É sofrível, mas ele nunca teve a intenção de se tornar ator, então essa mancha no currículo é coisa pequena comparada ao que Bill Murray fez quando aceitou participar do jogo do século. Todos sabemos que Murray é uma daquelas figuras que muita gente adora e idolatra, ele está no seu Caça-Fantasmas favorito, te fez rir em Feitiço do Tempo e mostrou que consegue entregar uma performance dramática convincente em Encontros e Desencontros; Agora prepare-se para sentir vergonha com sua presença, interpretando ele mesmo, em Space Jam. Nada mais triste do que ver um ator passar por uma fase ruim na carreira e ter que contracenar ao lado de Michael Jordan e personagens que nem estão lá. Desnecessário para o filme, assim como muitas coisas nesta obra, ele serve apenas como ponto de referência e para piadas metalinguísticas que não fazem rir, como quando um dos desenhos confunde o ator com Dan Aykroyd (só porque os dois fizeram Caça-Fantasmas).

Agora vamos entrar em território um pouco mais sério e falar do maior pecado deste filme, que é a criação de Lola Bunny, o interesse amoroso de Pernalonga. Olha só, eu não tenho problema algum com você criar uma personagem com a única intenção de transformá-lo em um boneco, não existe crime nisso. Mas quando sua única representação feminina no filme é uma versão claramente sexualizada de uma coelha – olha onde fomos parar – usando roupas curtas para deixar todos os desenhos (e humanos) masculinos babando, dá pra entender mais uma vez o nível de esforço feito pela produção para desenvolver seus produtos, quer dizer, seus personagens. Mas se quiser um lado positivo, ela começou a ser bem utilizada nas séries depois disso, como no injustiçado The Looney Tunes Show, onde Lola tinha uma personalidade e falas que não envolviam impressionar os “garotos”. Mas tem um aspecto do filme que eu tenho que deixar para o final, isso porque é provavelmente o maior legado de Space Jam, aquele que está até hoje na cabeça de quem assistiu e provavelmente no Spotify de muitos (tudo bem, só no meu): a trilha sonora.

Se você achou que o maior feito – e único – desta incrível obra estrelada por Michael Jordan era a boa animação, é porque não prestou atenção na seleção de músicas, a maioria feita para o filme. Tirando Coolio, porque ninguém se importa com o Coolio, a trilha traz nomes como Seal, Jay-Z, Salt-N-Pepa e… Chris Rock em um dueto com Barry White?! Aí está uma colaboração que ninguém esperava. Mas é claro que você vai ficar dias e semanas, ou anos, como no meu caso, tentando tirar a música tema do filme da cabeça, feita pelo grupo Quad City Dj´s. A maioria dos grupos pode estar bem datado, mas ninguém é perfeito.

Brincadeiras à parte, este é um daqueles filmes que tem uma ideia ruim e ainda consegue executá-la de forma desastrosa. Mesmo que a animação seja competente e algumas cenas não tenham que ser descartadas completamente, são produções como Space Jam que mostram o pior lado da indústria, com corporações tomando conta de toda a parte criativa, se aproveitando da nostalgia do público e sem qualquer interesse em criar algo novo. É uma pena não ser o filme que os Looney Tunes merecem, e é uma lástima maior o desperdício de tempo e dinheiro em algo que serve apenas como uma oportunidade de marketing. É entretenimento, claro, não precisa ter uma crítica elaborada ou ser engajado em algum tópico político, mas não custa nada fazer algo com coração e um mínimo de esforço.

Isso é tudo, pessoal.

Space Jam: O Jogo do Século (Space Jam) – EUA, 1996
Direção: Joe Pytka
Roteiro: Leo Benvenuti, Steve Rudnick, Timothy Harris, Herchel Weingrod
Elenco: Michael Jordan, Wayne Knight, Theresa Randle, Bill Murray, Larry Bird, Charles Barkley, Patrick Ewing, Billy West, Danny DeVito, Bill Farmer
Duração: 88 min.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie