Crítica | Spartacus

estrelas 4

Hollywood sempre teve seus modismos temáticos em relação aos filmes que produz. Se hoje em dia está em voga os filmes sobre super-heróis e na década de ´70 a onda eram os chamados cine-catástrofes (Aeroporto, Terremoto, Inferno na Torre), na década de ´50 e ´60 eram os filmes históricos, principalmente aqueles que se passavam na Roma antiga, que consumiam as verbas maiores, mas costumavam ter uma excelente recepção por parte do público, e o mais importante, o esperado retorno financeiro.

Parece estranho hoje, que Kubrick tenha se aventurado a dirigir um desses filmes. Afinal, uma rápida olhada em sua carreira demonstra sua preferência por filmes centrados na atualidade. Mas nesta aparente estranheza há duas explicações. Primeira: Kubrick foi chamado por seu amigo roteirista Dalton Trumbo após o estúdio dispensar o diretor Anthony Mann, o que caracterizaria uma gentileza sua aceitar o convite. Segunda, e mais importante: um filme sobre escravos na Roma antiga é apenas superficialmente mais um épico filme de Hollywood. Qualquer outro filme que se passe na Roma antiga, produzido na mesma época, como Ben-Hur, O Manto Sagrado e Barrabás,  é invariavelmente apenas espetáculo e entretenimento. O material em que Spartacus se baseia, e o tratamento que teve pelo roteirista Trumbo tem uma inegável carga política e social, e uma bem disfarçada alusão a fatos recentes da história americana, como o macarthismo e os movimentos pelos direitos civis das minorias, que começavam a ganhar força no início da década de ´60.

Spartacus é daqueles filmes que para se fazer uma análise crítica pertinente invariavelmente é necessário situá-lo dentro do contexto histórico em que está inserido. Ora, o filme se passa na Roma antiga, é uma história sobre escravos, muitos dirão. Sim, é verdade, mas o que está escrito nas entrelinhas? Spartacus, o filme,  é baseado na obra de mesmo nome do escritor Howard Fast, que foi perseguido pelo macarthismo, e inclusive preso, ao se recusar a delatar seus companheiros cineastas, suspeitos de atividades comunistas. E foi na prisão que o livro foi escrito. Além disso, a adaptação ficou por conta de Donald Trumbo, outra vítima da perseguição do senador McCarthy. Sabendo disso, seria óbvio supor que os dois tratariam do assunto abordado no filme – uma rebelião de escravos na Roma antiga, liderada pelo personagem principal – como uma alegoria, uma metáfora dos tempos difíceis que ambos enfrentaram. E por certo foi este conteúdo, digamos assim, subversivo, que deve ter atraído Kubrick a fazer parte de sua produção.

Mas as referências do filme e a origem de seus autores (escritor e roteirista) não passaram despercebidas. Na época de seu lançamento, muitos cinemas que o exibiam sofreram verdadeiros piquetes por parte de entidades anti-comunistas, que desejavam impedir o público de ver o filme, pois acreditavam que o simples fato de assisti-lo, pagando o ingresso, o espectador estaria financiando e sendo exposto a ideias comunistas e rebeldes. O recentemente eleito presidente John Kennedy protagonizou um célebre episódio em que “furou” o piquete em frente a um cinema. A jornalista Hedda Hopper, personificada por Meryl Streep em um papel secundário no filme Júlia,  chegou a declarar: “… a história vem de um livro escrito por um comuna e o roteiro foi escrito por outro comuna, então, não vá assisti-lo!”

Mesmo com todo este alarde, o filme obteve grande sucesso junto ao público, recebendo inclusive 4 prêmios Oscar. Porque Spartacus não é apenas um filme com conteúdo, mas um belo espetáculo de cinema. Sua mais famosa cena, ao final do filme, quando os escravos são indagados para revelar a identidade de seu líder, momento em que um por um todos dão um passo a frente, dizendo “Eu sou Spartacus”, entrou para a antologia do cinema, sendo copiada e mesmo parodiada em outros filmes. Para espectadores atentos, o próprio Kubrick fez referência à cena em seu filme seguinte, Lolita. A cena serve hoje, para definitivamente corroborar a teoria sobre uma releitura histórica, afinal, ela é uma homenagem a todos os “bravos de Hollywood”, que se recusaram a delatar os colegas de profissão.

Para o público atual, admirador de Kubrick por seus trabalhos mais consagrados, como 2001 e Laranja Mecânica, Spartacus pode parecer um estranho no ninho em sua filmografia, um filme datado, semelhante a tantos outros filmes deste tipo que Hollywood adorou produzir há décadas atrás, e que hoje nos parecem bregas e difíceis de assistir. Mas o encantamento de Spartacus ainda está lá, em cenas bem produzidas, atuações convincentes e uma mensagem poderosa que resistiu ao tempo.

Spartacus (Spartacus, Estados Unidos, 1960)
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Dalton Trumbo
Elenco: Kirk Douglas, Laurence Olivier, Jean Simmons, Peter Ustinov, Tony Curtis, Charles Laughton
Duração: 184 minutos

SIDNEI CASSAL. . . . Formado em Letras (Português/Francês) . Estudante de Direito. Trabalhei com redação e criação publicitária. Participei de Oficina de Cinema, em convênio com a TVE-Porto Alegre, onde os curta-metragens produzidos foram montados e exibidos. Cinéfilo de carteirinha.