Crítica | Spate

estrelas 4

Spate é um game de plataforma que dura entre uma e duas horas, dependendo da afinidade que o jogador possui com esse tipo de jogo. Exatamente por sua duração e sua baixa dificuldade, o game tem como grande trunfo sua narrativa e ambientação, que o colocam como uma espécie de conto emocional de um homem assombrado pelo seu passado.

Controlando o Detetive Bluth, o jogador investiga o sumiço de um rico homem de negócios em um perigoso e misterioso local chamado – genericamente – de zona X. Nessa procura, o protagonista mistura seus próprios tormentos, narrados por ele mesmo diversas vezes ao longo do game, expondo como se tornou o homem quebrado que vemos, ressentido com a morte de sua filha e a separação da sua então esposa. Mais ainda, Spate mostra um protagonista viciado em absinto e que sofre diversos apagões por conta disso, que servem para pontuar a passagem das fases do jogo.

Por mais tosco que seja o nome, a zona X é realmente o ponto alto do game. Como uma espécie de pesadelo constante e chuvoso – daí o título – é impossível não lembrar de traços surrealistas conforme robôs, peixes gigantes, criaturas bizarras e prédios voadores se sucedem no caminho linear de Bluth. O game não inventa muito e acerta bem na sua proposta de apresentar uma história fechada que mergulha na depressão de um homem que se agarra à bebida como última opção que o faz se sentir vivo. O melhor é que, por mais que as partes faladas sejam até que muitas, o diretor Eric Provan sabe que o visual explica e abre interpretações mais do que mil palavras poderiam tentar explicitar.

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Partindo desse ponto, a cada gole de absinto tomado, a visão de Bluth fica turva e todo o cenário, até então reto, ganha inúmeras curvas, belos contornos e cores mais quentes, incluindo algumas referências ao passado do personagem que aparecem pontualmente. Como uma loucura, ao melhor estilo das fases do Espantalho em Batman Arkham Asylum e Arkham Knight, o game utiliza belíssima paleta de cores e as sabe colocar para causar um ótimo efeito de transição de situações, deixando a zona X mais complexa e marcando bem as diversas fases, sem perder a unidade natural de uma mesma localidade.

Da mesma forma, faz-se fundamental na construção dessa ambientação desoladora e depressiva – mesmo que colorida – a música. Com som orquestral e uso de coral e violinos, predominantemente, a trilha sonora dá uma sensação de solidão que beira o terror. Por ser um jogo de plataforma e pelo próprio intuito em contar uma simples história, dificilmente é possível classificar Spate nesse gênero, pelo menos nos games. Mas isso não faz da sonoplastia um ponto baixo. É impossível ignorá-la, principalmente quando misturada com o próprio som ambiente de uma chuva torrencial com trovoadas. Jogado com headphones e no volume máximo, sustos ocorrerão.

Outra referência, seguindo nesse sentido, pode ser o excelente Limbo. Mas aqui as diferenças são grandes quando se puxa para a jogabilidade. Em Limbo, sensações parecidas podem aparecer, mas por razões extremamente contrárias, posto que se trata de um jogo quieto, escuro do começo ao fim e sem qualquer explicação do que se passa com o garoto. Até por isso, cada morte que se vivencia é marcante e causa uma espécie de choque ao jogador. Em Spate, as mortes são banais em um mau sentido. Primeiro, porque há pouquíssimos desafios e o gameplay não força o jogador a usar grandes manobras, pois praticamente não há qualquer quebra-cabeça mortal a ser enfrentado. Segundo, porque a figura de Bluth, em si, é um pouco cartoonizada, assim como a de sua filha e a dos robôs. E em terceiro, não há um pingo de sangue no game inteiro.

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Bem se poderia criticar tais escolhas e imaginar como um game desse poderia dar um salto de qualidade se optasse por algo mais adulto e visceral. Mas por mais que Spate trate de problemas emocionais graves e exponha figuras assustadoras, é difícil não encarar o jogo como um conto adulto-juvenil, que alterna sua densidade, em uma primeira olhada, a esmo, principalmente pelo que se refere ao design dos personagens. Nesse ponto, todavia, me parece ter sido uma escolha consciente dos desenvolvedores, que encontra sua justificativa exatamente na facílima jogabilidade, na linearidade – que até causa estranheza nos tempos atuais – e na curta duração de sua narrativa. Se o jogo apostasse em quebra-cabeças, idas e vindas e numa maior duração, certamente se tornaria enfadonho, da mesma forma que mais sangue e susto tiraria dessa obra seu foco na mistura e na loucura de referências, que parece ser seu ponto central.

O final pode desagradar alguns pelo mecanismo escolhido, mas confesso que me surpreendeu, dada a linha sem muitos desvios seguida até ali. É possível prever até certo ponto o que acontece, o que acaba minando uma oportunidade de sair de um lugar comum aos games, inclusive os independentes mais recentes. Não decepciona, todavia. Pelo contrário, faz completo sentido com o que foi apresentado, possuindo ainda pequenos detalhes visuais que dão um charme diferente a um final que pode ser classificado como ordinário.

Conciso, fechadinho e sabendo o que quer passar, Spate é uma ótima opção para um entretenimento rápido, mas de conteúdo. Não traz grandes inovações como The Swapper trouxe, não se compromete com grandes desafios – os obstáculos são os mais genéricos e clichês possíveis em jogos de plataforma – e pode parecer despretensioso. Mas nisso, talvez, resida seu maior mérito: explorar seu tema sabendo para onde quer levar o jogador. Por isso a imersão nessa surreal zona X é intensa do começo ao fim, o que faz a experiência durar muito mais do que a duração do game.

Spate
Desenvolvedor: Ayyo Games
Lançamento: 26 de março de 2014
Gênero: Aventura
Disponível para: PC

ANTHONIO DELBON . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.