Crítica | Spawn: O Soldado do Inferno

estrelas 3

Muito gente se esquece – ou, provavelmente, não quer lembrar – que não foi Blade a primeira adaptação de quadrinhos da renascença desse subgênero ao final da década de 90 e começo dos anos 2000. Essa honra fica mesmo com a adaptação de Spawn, personagem demoníaco criado por Todd McFarlane, co-fundador da Image Comics, apenas cinco anos antes. A produção da New Line Cinema começou com um orçamento de 20 milhões de dólares, que acabou sendo dobrado ao final em razão dos efeitos em computação gráfica necessários para trazer o anti-herói para as telonas e angariou uma bilheteria moderada de quase 88 milhões mundialmente, apesar de ter sido massacrada pela crítica.

No entanto, se pensarmos na época em que foi feito, na pegada violenta e na surpreendentemente próxima recriação live-action do personagem de McFarlane, o resultado acaba sendo satisfatório, ainda que, para isso, tenhamos que glosar as atuações de quase todo o elenco e aquela sensação de filme noventista que permeia toda a obra. O roteiro de Alan B. McElroy, que escreveu alguns episódios da série animada do personagem e que lida com Al Simmons (Michael Jai White), um soldado black ops que é traído e morto por Jason Wynn (Martin Sheen), seu empregador, sendo enviado ao inferno onde faz um pacto com o demônio local, Malebolgia (voz de Frank Welker), retornando à vida cinco anos depois todo deformado, mas com poderes sobrenaturais, apenas parece sofisticado. Na verdade, ele é, somente, desculpa para muito tiroteio e lutas demoníacas que carregam uma trama fortemente cartunesca, ainda que divertida.

E essa diversão vem, em primeiro lugar, pela tenebrosa atuação de Martin Sheen como o grande vilão humano. Seu Wynn é o estereótipo do grande malvadão que quer dominar o mundo, mesmo que, para isso, tenha que destruí-lo. É verdade que Sheen tem uma filmografia espasmódica, mas ele já viveu grandes papeis, pelo que sua presença, no filme, parece uma daquelas escalações inexplicáveis, mas que me levam a concluir que seu histrionismo – com direito a risadas vilanescas – é completamente proposital. Mas o grosso do divertimento vem mesmo por intermédio de John Leguizamo, que vive o Violador, um palhaço demoníaco que, na falta de expressão melhor, inferniza a vida de Simmons, sendo deliciosamente desbocado e nojento. É também bacana ver o saudoso Nicol Williamson (o Merlin, de Excalibur), em sua última aparição nas telonas, como o misterioso Cogliostro, um mentor “do bem” de Spawn.

Mas talvez o grande feito da fita seja a qualidade dos efeitos especiais tanto digitais quanto práticos. O figurino de Spawn, uma espécie de bio-armardura que cobre completamente o corpo queimado de Simmons, tem uma excelente textura orgânica que convence mesmo para os padrões atuais. O mesmo vale para a maquiagem, para as próteses e para os truques de câmera que transformam Leguizamo no assustador palhaço baixinho, gordo e dentuço que faria Pennywise correr de pavor.

Por incrível que pareça, os efeitos em computação gráfica também são além de seu tempo, com a capa viva – marca registrada de Spawn – sendo muito bem executada, além dos diversos efeitos com correntes e espetos que saem do corpo do anti-herói, mantendo sua iconografia dos quadrinhos praticamente intacta. Além disso, a versão demoníaca do Violador – absolutamente idêntica à das HQs executada com uma inteligente mistura de CGI com animatrônicos – também merece destaque em seus dois combates noturnos com Spawn, mesmo que a fotografia do ótimo Guillermo Navarro (O Labirinto do Fauno, Círculo de Fogo) faça esforço para esconder as naturais limitações da época. Claro que, quando o CGI toma conta de tudo nas breves sequências no inferno, sua natureza quase de desenho fica mais saliente, mas não é nada que estrague a experiência nesse quesito.

O trabalho de direção de Mark A.Z. Dippé, porém, descamba para o burocrático, sem qualquer tentativa de emprestar um semblante de sofisticação à obra. Mas sua escolha para o cargo fez pleno sentido, considerando que sua verdadeira especialidade é na cadeira dos efeitos visuais (ele começou sua carreira no cinema como um especialista em CGI no memorável O Segredo do Abismo). Perde-se na decupagem e nos planos sem imaginação, mas ganha-se na integração do live-action com os efeitos digitais. Uma troca justa para um filme despretensioso, apesar de ousado e fortemente dependente de seus efeitos.

Spawn: O Soldado do Inferno é potencialmente melhor do que muitos lembram, mas certamente tem problemas suficientes que o impedem de sair de um degrau acima do apenas ok. No entanto, impressionantemente, considerando a quantidade de efeitos de toda a sorte que formam a alma do filme, é alvissareiro notar como eles se mantiveram em forma depois desse tempo todo, algo que não acontece, por exemplo, com seu “colega” Blade, logo do ano seguinte.

Spawn: O Soldado do Inferno (Spawn, EUA – 1997)
Direção: Mark A.Z. Dippé
Roteiro: Alan B. McElroy (baseado em criação de Todd McFarlane)
Elenco: Michael Jai White, John Leguizamo, Martin Sheen, Theresa Randle, Nicol Williamson, D.B. Sweeney, Melinda Clarke, Miko Hughes, Sydni Beaudoin, Michael Papajohn, Frank Welker, Robia LaMorte, Laura Stepp
Duração: 96 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.