Crítica | Spielberg (2017)

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Demorou, mas Steven Spielberg finalmente ganhou um documentário pra chamar de seu. Depois de outros ícones do cinema americano serem recentemente retratados em documentários (Woody Allen, David Lynch e Brian de Palma), o ícone maior do cinema americano das últimas décadas recebe enfim esta justa homenagem do canal HBO.

Ao longo do tempo, e mais precisamente a partir da década de 80, Spielberg tornou-se, na verdade, mais do que um ícone. Uma verdadeira grife. Ter seu nome estampado no cartaz de um filme passou a atrair público tanto quanto qualquer astro ou estrela famosa de Hollywood, fosse o filme dirigido ou não por ele — para a maior parte do público isso pouco importava. Seu nome associado a um filme, na condição de produtor ou produtor executivo era como um selo de qualidade. De certa maneira, dizer que no filme ele desempenhava “somente” a função do produtor é algo equivocado, visto que em quase todos eles é possível notar a sua assinatura.

Além de injetar ânimo novo à industria do cinema americano em plena recessão da década de 70, quando o cinema perdia público em frente ao crescimento da televisão, Spielberg sempre se dedicou a revelar e apadrinhar novos talentos: Joe Dante, Tobe Hooper, Robert Zemeckis, Barry Levinson. Com o tempo, além de se dedicar a filmes assumidamente escapistas, típicos filmes-pipoca, que foram grandes sucessos comerciais no mundo inteiro, Spielberg passou a dedicar-se a projetos mais pessoais, como A Cor Púrpura e A Lista de Schindler, que também lhe renderam boas bilheterias.

Este documentário da HBO é bastante reverenciador da figura de Spielberg, portanto, acaba seguindo uma receita bem convencional. Aos depoimentos do próprio diretor, alternam-se aqueles de inúmeros colaboradores, diretores contemporâneos seus e mesmo críticos de cinema. É claro, há muitas cenas de seus filmes mais bem-sucedidos, alguns com interessantes comentários de como tiveram cenas-chave construídas. Fica bem claro que o documentário não tem a proposta de uma análise crítica do papel do diretor e seus filmes na história do cinema, algo que agradaria a qualquer cinéfilo. Spielberg (o documentário) é gostoso de assistir, mas não revela nenhuma faceta do diretor/produtor que já não tenha sido abordada por críticos e livros dedicados a sua carreira.

Reza a lenda que quando indagado sobre seu maior temor, Spielberg costumava responder em tom de brincadeira que era tornar-se tema de um documentário. Bom, esse dia chegou. Mas Spielberg pode respirar sossegado, porque o resultado provavelmente vai agradar tanto a ele quanto a seus fãs.

Spielberg — EUA, 2017
Direção: Susan Lacy
Roteiro: Robert B. Weide
Entrevistados: Steven Spielberg, Martin Scorsese, Richard Dreyfuss, John Williams, J.J. Abrams, George Lucas, Francis Ford Coppola, Brian De Palma, Tom Hanks, Melissa Mathison, Leonardo Di Caprio, Kathleen Kennedy, Harrison Ford, Frank Marshall, Janusz Kaminski, Michael Kahn,Robert Zemeckis, Tom Cruise, Daniel Day-Lewis, Daniel Craig
Duração: 147 min.

SIDNEI CASSAL. . . . Formado em Letras (Português/Francês) . Estudante de Direito. Trabalhei com redação e criação publicitária. Participei de Oficina de Cinema, em convênio com a TVE-Porto Alegre, onde os curta-metragens produzidos foram montados e exibidos. Cinéfilo de carteirinha.