Crítica | Splice – A Nova Espécie

dren

estrelas 2,5

Nós, humanos, temos o problema de sermos demasiadamente humanos. Sempre queremos brincar de Deus desde a infância criando histórias, personagens e destinos com nossos brinquedos. Alguns crescem, entram em faculdades e viram geneticistas renomados no mundo inteiro. A genética é uma área da ciência que evolui rapidamente nos últimos anos, sendo que, hoje, já é possível clonar ovelhas e muito em breve será possível criar bebês sintéticos perfeitos (sem doenças degenerativas) por reprodução assistida. E é sobre o tema de hibridação de espécies na genética que Vincenzo Natali arrisca-se em sua mais nova ficção-científica.

Clive e Elsa são um casal de cientistas renomados e prestigiados no ramo. São os melhores em hibridação artificial de espécies a fim de descobrir curas para doenças degenerativas. Com sucesso, conseguem criar uma espécie nova, um verme fedido capaz de sintetizar uma proteína veterinária para bois. Então, tentam convencer os presidentes da companhia que o próximo passo da genética é misturar genes humanos com genes de animais não predatórios para criar uma outra espécie inédita. Depois de serem repreendidos pelos presidentes, resolvem criar ilegalmente esta criatura, uma experiência que depois se mostrará como o maior erro de suas vidas.

O roteiro, escrito pelo diretor da obra, Vincenzo Natali, é muito interessante em sua ideia, porém, arrisca-se várias vezes em um conflito emocional secundário em um filme onde não deveria existir. O conflito principal é bem desenvolvido apesar de alguns momentos doentios, mas no final acontece uma reviravolta desnecessária que muda o gênero de sci-fi para horror B.

No início, a história pode soar interessante. No entanto, seus personagens parecem vazios e sem fundamentos para seus atos (principalmente a paixonite bizarra de Clive com Dren, a experiência). Também existe uma mania irritante nesse roteiro de viver matando e revivendo a coitada da “não humana”, tornando-o bem previsível em sua conclusão. Fora isso, quando realmente tenta explicar algumas coisas como a criação de Dren, simplesmente falha, sendo que a aparente razão da existência do bicho só foi a tentativa e erro dos cientistas “Frankenstein”. Talvez seu maior mérito seja a curiosidade de Dren em descobrir como é o mundo de fora – algo que já foi explorado em milhões de filmes diferentes com seres alienígenas.

Embora deslize várias vezes, tem um fundamento crítico elaborado. Antes o maior medo dos humanos do futuro no cinema, além de aliens, eram os robôs sempre tratados como trapos por nós até o dia da rebelião cibernética. Agora, a robótica já não é o maior destaque sob os holofotes. A genética, sim, é a maior queridinha da ciência (o Prêmio Nobel de Medicina de 2010 foi o ‘criador’ do bebê de proveta). Ao elaborar esta questão de criar espécies novas por hibridação criou outro medo ao bicho mais medroso da Terra, nós. E se esses seres fossem venenosos e pusessem a vida de nossos queridos entes em risco com suas peçonhas, supervelocidade, pernas de rã e asas capazes de voar até o horizonte em questão de minutos? Esta é a proposta de Splice.

Não há dúvidas que a participação de Adrien Brody facilitou o filme estrear em terras improváveis. Uma delas, o Brasil, visto que este filme estreou lá fora em 2009. Agora falando da atuação em si, Brody está caricato. Ele é um bom ator, porém, em um filme um tanto raso como este, nem Jack Nicholson faria milagre.  Seus olhares penetrantes e perturbados a respeito de Dren demonstram uma tremenda preocupação, ou seja, sabe que isso terminará mal para ele. Seu personagem, Clive, é um nerd violento que sabe dançar bem, jogar éter em seres suspeitos e galinhar sua mulher. Seu aspecto mais interessante é a mania de ceder suas vontades para as de sua mulher.

Sarah Polley é o par amoroso de Brody. Elsa é obcecada pelo trabalho e nunca aceita um “não” como resposta. Na maioria do filme sua atuação resume-se em ser o personagem mais chato e desinteressante da história, até que o filme muda de gênero e, então, ela vira uma mocinha indefesa correndo pela floresta sombria. Somente nos dois minutos finais, a atriz surpreende com uma face totalmente sem sentimento, completamente fria. E, apesar de se esforçar para criar um psicológico digno de ano de terapia, não convence na maior parte do tempo.

Delphine Chanéac completa o elenco principal enquanto interpreta Dren na fase adulta. Sua atuação é limitada apenas a expressões faciais e corporais já que sua personagem não fala. Ela consegue demonstrar a curiosidade, crueldade, tédio, alegria, tristeza, etc., um verdadeiro teatro grego de emoções estampados em sua atuação. Apesar de conseguir realizar cada emoção competentemente, tenho que admitir que também não é uma tarefa difícil interpretar um bicho mudo que sorri e fica bravo em um piscar de olhos. Aliás se existe uma proeza de mestre em sua atuação com certeza é a instabilidade emocional de Dren.

Tetsuo Nagata provou ser um gênio em fotografia quando fez Piaf – Um Hino ao Amor. Sua fotografia é bela durante as cenas no laboratório, sempre predomina um tom azulado frio. Ao decorrer da história, os protagonistas mudam para um celeiro onde finalmente começa a surgir cores amareladas e mornas. A escolha de o azul ser usado no laboratório ajuda muito a passar a impressão da atmosfera sintética, higiênica e artificial, enquanto o amarelo dá um toque mais humano e uma maior dramaticidade a cena. A luz sempre incide na face dos personagens de modo um tanto teatral ajudando a interpretação dos atores.

Os efeitos visuais de Splice são de primeira linha – um verdadeiro milagre para um orçamento tão pequeno! Fora a animação esdrúxula dos créditos iniciais, tudo realmente é muito cuidado. O mais interessante é a anatomia, a movimentação e o processo de metamorfose que Dren possui tornando-os únicos em um gênero amplamente explorado.

A trilha assinada por Cyrille Aufort tenta envolver o espectador a todo instante, mas existe um problema que citarei depois. Ele não é um gênio e certamente não estava inspirado enquanto compunha as músicas do filme (a única que realmente tem uma qualidade superior é o tema principal do filme). O mais legal de sua trilha é que a música sempre é distante do espectador resultando em uma elevação do suspense. Também existem músicas tenebrosas com direitos a teclas agudas de piano e acordes graves do violino.

A sonoplastia de Splice é algo para alguns apreciarem e outros detestarem. Os efeitos sonoros são, digamos, toscos parecendo mais onomatopéias (crunch, squish, plosh, grunch). Os sons que Dren emite até que são únicos, mas quando o personagem resolve soltar a única frase que fala é impossível não conter as risadas.

Para quem não conhece Vincenzo Natali, basta lembrar-se do clássico filme Cubo que ele dirigiu há mais de dez anos. Ele é um diretor que adora repetir fórmulas em seus filmes, o melhor exemplo disso é o incessante plano subjetivo (aquele em 1ª pessoa) de todos os personagens da história. Também gosta de mostrar planos clássicos de casas com cara de ser assombradas. Todavia, insere vários elementos pop em Splice, como o nome do laboratório “NERD” e o nome da criatura Dren – nerd ao contrário, além dos objetos dos cenários da casa de Clive e Elsa, as músicas licenciadas e o figurino dos cientistas. Ele utiliza tomadas em time lapse para enfatizar o trabalho árduo dos cientistas e usa um filtro visual tosco para ilustrar as combinações genéticas.

Apesar da escolha fútil e clichê em transformar o filme e seu final em algo ridículo, consegue criar no clímax uma atmosfera envolvente e apavorante, porém, previsível. Também possui a irritante mania de fechar quadros em alguns elementos que são bem visíveis em um plano conjunto, por exemplo, a cauda peçonhenta de Dren sempre aparece na fuça do espectador.

Splice é um verdadeiro teste de paciência para o espectador exigente apesar dos esforços na atuação de Brody. Mas se você for um verdadeiro fã de ficção científica, pode até sair satisfeito e matar aquela saudade de filmes trash sci-fi como A Experiência e esquecer o clímax desprezível. O final com certeza não irá te surpreender. É realmente digno dos hentais mais bizarros disponíveis no Japão.

Splice – A Nova Espécie (Splice, EUA/Canadá/França – 2009)
Direção: Vincenzo Natali
Roteiro: Vincenzo Natali, Antoinette Terry Bryant, Doug Taylor
Elenco: Adrien Brody, Sarah Polley, Delphine Chanéac, Brandon McGibbon,  Simona Maicanescu, David Hewlett, Abigail Chu
Duração: 104 minutos

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.