Crítica | Sr. Turner

estrelas 4

The sun is God! Ha ha ha!

William Turner

William Turner foi um pintor admirável. Prolífico, precoce e simplesmente apaixonado pela incidência da luz sobre a paisagem, protagonizou um importante momento da pintura britânica, sendo desde cedo reconhecido pelo seu trabalho e vivendo o bastante para acompanhar o “envelhecimento” de sua arte com a chegada e popularização do daguerreótipo, além das mudanças históricas e culturais pelas quais a Europa passava em meados do século XIX, mostrando, aos poucos, o nascimento de um novo estilo, o Realismo. O “velho Turner”, mestre das cores, luzes e impressões esfumaçadas/difusas de paisagens litorâneas, já estava “ultrapassado”.

Em Sr. Turner (2014), Mike Leigh volta a um modelo de filme e direção que ele cultivara no início da carreira mas que aos poucos foi deixando de lado (não abandonando, repare bem), para dar maior peso ao humanismo de seus personagens e ressaltar outros elementos formais e narrativos em suas obras. Sr. Turner é da mesma ‘escola’ de Topsy-Turvy – O Espetáculo (1999), um tipo de filme onde a arte e os artistas não só se tornam temas centrais mas ganham um admirável amparo estético que os analisam e representam, ao mesmo tempo que são representados pelo cinema.

Abordando os 25 anos finais da vida de William Turner, o roteiro do filme, também escrito por Leigh, nos traz o processo criativo do artista, explora com bastante intensidade a relação do artista com as paisagens naturais — especialmente o mar — e como ele se colocava em situações perigosas ou estranhas para conseguir ter uma visão in loco do que deveria pintar, caso dos perturbadores e ainda assim belíssimos O Navio Negreiro (1840) e Barco a Vapor em uma Tempestade de Neve (1842).

Ao passo que abstraímos o cotidiano do artista e sua introspecção quase doentia, com péssimos reflexos em suas relações sociais, amorosas e familiares (à exceção do pai e da Sra. Booth), temos contato com alguns artistas da época e a relação de Turner com as exposições na Royal Academy of Arts, da qual era membro desde os 14 anos de idade. No período em que o filme retrata, temos um artista famoso, claramente influenciado pela Teoria das Cores de Goethe e cada vez mais apaixonado pela impressão que a velocidade casava no olhar humano. Mike Leigh é sutil o bastante para não tornar a experiência desagradável ao espectador, trabalhando a atmosfera de velocidade, desastres naturais e “ideal apocalíptico” ou “harmonia no caos” a que Turner cada vez mais se entregava à medida que envelhecia.

Timothy Spall é brilhante no papel principal. Ele não exagera na carga emotiva do personagem, apesar de representar um artista exagerado e de hábitos pouco sociáveis ou normais. Ajudado por uma excelente equipe de maquiagem e figurino, o ator desenvolve um Turner taciturno, uma vez ou outra exaltado e calado e sempre com uma presença imponente e marcante. Ao final do filme, a chegada da atriz Marion Bailey como Sra. Booth é muitíssimo bem vinda e traz consigo um frescor e um sentimento até então ausentes.

O que muito se tem reclamado a respeito da obra é a sua longa duração (2h30min.). Confesso que o tempo também me espantou de início, mas o filme é fluído o bastante para preencher a contento todo esse tempo. É claro que se trata de um exagero de Mike Leigh, uma vez que muitas cenas, embora interessantes, poderiam facilmente ser retiradas da obra sem causar nenhuma falha no andamento do roteiro. A longa duração de Sr. Turner, no  entanto, não é marcada pela enrolação e sim pelo tratamento detalhado e com pleno sentido narrativo do cotidiano do pintor.

O que de fato me pareceu deslocado e mal trabalhado não foi o tempo e sim a personagem de Dorothy Atkinson, a estranha governanta de Turner. Não bastasse a sua presença patética ao longo do filme, o diretor resolveu terminar a obra com um retorno à ela e à casa do pintor, um tropeço final que incomoda bastante.

Sr. Turner é um filme sensível sobre um artista romântico que via a paisagem sempre em movimento, pulsando em seus estágios de mudança, emitindo cor e refletindo ou refratando luzes ao longo do processo. Trata-se de uma obra de andamento lento (mas não arrastado), que traz o espectador para um crucial momento da pintura romântica, o momento de suas décadas finais em direção a um outro estágio. Sr. Turner é um filme que destaca bem as mudanças do universo de um artista que via no movimento, misto de ebulição e equilíbrio, o núcleo da vida.

Sr. Turner (Mr. Turner) — Reino Unido, França, Alemanha, 2014
Direção: Mike Leigh
Roteiro: Mike Leigh
Elenco: Timothy Spall, Paul Jesson, Dorothy Atkinson, Marion Bailey, Karl Johnson, Ruth Sheen, Sandy Foster, Amy Dawson, Lesley Manville, Martin Savage, Richard Bremmer
Duração: 150 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.