Crítica | “St. Vincent” – St. Vincent

estrelas 4,5

Sentada naquele trono e de aparência um tanto bizarra está Annie Clark, artista que atua com o pseudônimo de St. Vincent. Annie ainda não possui um número extremamente grande de fãs, mas aparentemente chama a atenção da crítica como poucos desde Marry Me, seu primeiro disco. Seu mais recente trabalho, nomeado com seu pseudônimo, foi uma das maiores surpresas de 2014 para quem o escutou. St. Vincent faz nele um trabalho invejável, criando uma espécie de reformulação do conceito de pop com uma forte veia experimental. Suas performances estranhas e sonoridade desconcertante, porém, criativa, experimental e instigante, formam o que Lady Gaga tentava fazer, mas poucas vezes conseguiu.

A primeira audição do disco para muitos soará como algo bizarro, desconcertante, estranho. E na segunda vez também. Assim como na terceira, na quarta e aí por diante. Essas características estão inseridas na obra e nada as tirará. O que muda a medida das audições é a reação emocional e a percepção sobre tais músicas. O que mais se vê por todo álbum são sintetizadores, e de todas as formas. O segundo são as diferentes distorções e efeitos de guitarra. Annie Clark é bastante feliz nessa abordagem, já que em certo ponto essa sonoridade soa homogênia. O que pra alguns vai parecer algo “eletrônico demais”, na verdade é bem menos do que parece. De qualquer forma, dizer que Annie não tem um amor grande por tal estilo seria mentira já que em alguns momentos sentimos quase uma influência direta de Krafwerk.

Grande parte do álbum que nos leva ao delírio está nos efeitos e distorções da guitarra de Annie. O solo do instrumento aparecendo triunfal em meio as bizarrices eletrônicas da faixa de abertura, Rattlesnake, poderia ser chamada de uma verdadeira homenagem ao poder de uma guitarra. Melhor que tal momento só mesmo em Huey Newton exatamente aos 2:38. A reviravolta da canção, antes acústica e depois tomada por uma distorção bastante pesada, faz um clímax espetacular. Annie Clark faz questão de nos mostrar que, na atualidade, ela é de fato uma das melhores domadoras femininas do instrumento. Sua excelente performance não só vocal, mas também instrumental, em Birth In Reverse provam isso. Ainda há espaço para diferentes abordagens, como I Prefer Your Love, que parece uma balada saída do meio dos anos 80 do tipo que hoje toca em madrugadas de FMs.

O disco ainda possui momentos performáticos incríveis como Annie clamando por amor em meio a um turbilhão de efeitos eletrônicos na alta freneticidade de Bring Me Your Loves. Mas St. Vincent não se trata apenas da guitarra e dos sintetizadores como protagonistas, em certas canções a responsabilidade fica pra outros instrumentos como os excelentes metais de Digital Witness, ou a linha de baixo contagiante que rouba a cena nos refrões de RegretPsychopath é provavelmente a canção que mais agrada na primeira audição. Bem mais ligada ao modelo pop atual, seu refrão doce e melancólico e sua humilde letra é uma das coisas mais belas do disco (Keep me in your soft sights/ When all of the rest have moved on).

Annie Clark controi em seu quarto disco uma sonoridade única, canções que não conseguem ser comparadas a nada, tamanha a originalidade. Provavelmente esse é o maior elogio que eu poderia fazer, visto o número de “ctrl c e ctrl v” que se encontra no mercado. Só perde pontos pois é um trabalho bem mais denso do que aparenta, difícil de agradar ao máximo logo na primeira audição. No entanto, a satisfação ao ouvir qualquer um dos excelentes momentos de Annie e sua guitarra, assim como seus sintetizadores espetaculares, é estratosférica.

Aumenta!: Bring Me Your Loves
Diminui!: Every Tear Disappears
Minha canção preferida: Huey Newton

St. Vincent
Artista: St. Vincent
País: Estados Unidos
Lançamento: 24 de fevereiro de 2014
Gravadora: Caroline International
Estilo: Pop, indie rock

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.