Crítica | Stallone Cobra

Nota de MACHO:

estrelas 5,0

Nota de crítico cheio de frescura e mimimi:

estrelas 2

Se você nunca cortou ou ao menos teve vontade de cortar pizza com tesoura; se você não come a tal pizza sem tirar suas luvas de couro preto; se você não guarda seus apetrechos para limpar armas em caixa de ovo no congelador; se você não usa botas de salto; se você não tem nome italiano efeminado, apesar de uma aparência máscula, com barba por fazer, topete, fósforo na boca e óculos escuros espelhados e se você não fala grunhindo, então esta crítica NÃO é para você. Pare de ler agora e vá procurar comentários sobre Ursinhos Carinhosos e Meu Querido Pônei, pois essa aqui é uma CRÍTICA DE MACHO.

Ainda aqui? Tem certeza? Depois não adianta choramingar pelos cantos, pois aqui os chorosos são espetados em ganchos e jogados em fornalhas!

Eu avisei…

Stallone Cobra – pois deixar o título só como Cobra, aparentemente, era inimaginável – é, talvez, o ponto alto dos filmes-pancadaria com altas doses de testosterona e incorreção política que marcaram a década de 80. Soterrado por críticas negativas e por cobertura jornalística que condenava a glorificação da violência, o filme marcou seu ano de lançamento com diversas versões feitas para reduzir a classificação etária original do antigo “X” para algo mais palatável comercialmente, países que se recusaram a lançá-lo nos cinemas e outros que tentaram – como o Brasil – censurar as cópias, literalmente reeditando-as. Mas Sylvester Stallone, com seu inesquecível Marion Cobretti ou apenas Cobra para os íntimos, perseverou e a fita, que originou-se da vontade original do ator, quando trabalhou na pré-produção de Um Tira da Pesada que o teria como estrela, de fazer um filme policial violento, foi um sucesso de bilheteria apesar do massacre crítico.

E, assim como Comando para Matar, Predador, Rambo, Comando Delta e uma infinidade de outros filmes semelhantes, Stallone Cobra é um prazer quase sádico de se assistir. E antes que vocês se espantem com um crítico de cinema elogiando um filme como esse, lembrem-se que há espaço para tudo (ou quase tudo…). Além disso, lembrem-se que Stallone Cobra é um produto de seu tempo e uma caricatura que pode muito bem ser visto como uma auto-paródia. É violento? Com certeza. Mas ele é tão violento que é engraçado. O elenco é péssimo? Sem dúvida. Mas é tão ruim que é impossível não se divertir com as caras e bocas de Stallone, o policial durão que é a cura para o crime, Brigitte Nielsen, como a dama em perigo padrão perseguida por uma gangue enlouquecida que mais parece um culto de adoradores do Coisa Ruim e Reni Santoni, parceiro de Cobra que é quase um bichinho de estimação. E como esquecer de Brian Thompson com olhar vidrado, cabelo ensebado e soltando frases shakespearianas como “Vou matar você, seu porco” em meio a cusparadas (hoje tão na moda!) e suores pornográficos? É como assistir a um desfile do pior que uma década pode oferecer, mas que mágica e estranhamente mexe com o espectador nem que seja para afastá-lo da tela e fazê-lo ter calafrios à noite pensando em camisa de latino estereotipado sendo violentamente rasgada ou em burocrata hipócrita tendo sua cara esfregada em vítima de crime violento.

Aliás, falando em hipocrisia, é muito interessante ver como Stallone Cobra é até hoje rechaçado por grande parte do público por mostrar a violência como parte da solução do problema da violência, o mesmo público que é seletivo com o tipo de violência que escolhe condenar em redes sociais e o mesmo público que tem em filmes com pancadaria sem fim, destruidora e assassina uma válvula de escape para as tensões do dia-a-dia. Stallone Cobra é apenas “pão pão, queijo queijo”, não doura a pílula com camadas e mais camadas de verniz e efeitos especiais. Trata-se de uma obra crua para uma década para lá de divertida cinematograficamente, uma diversão que, de certa forma, perdeu-se nos dias de hoje em meio a considerações mercadológicas e sócio-políticas e reações coletivas de ultraje em 140 caracteres.

Para apreciar a besteirada que Stallone Cobra tem a oferecer, o espectador precisa tirar a casca de cinismo que deixou acumular com o que a sociedade passou a determinar como “errado” e relaxar diante de um filme que não tem uma agenda maior do que só mostrar um policial invencível matando o maior número possível de pessoas em 87 minutos. Esqueça roteiro. Esqueça direção. Os trabalhos de Stallone no primeiro e o de George P. Cosmatos no segundo são, no máximo, com muita boa vontade, medíocres. Mas, não tão estranhamente assim, tendo ou não o espectador vivido a década de 80, o filme permanece de alguma forma gravado na mente de quem o assiste. Seja pelos estereótipos que ele aborda sem vergonha alguma, seja pela pancadaria incessante e as mortes na proporção de uma dúzia por minuto ou por frases como “Você é a doença. Eu sou a cura.”, a magnus opus que encapsula todo um sub-gênero cinematográfico (que carinhosamente classifico como “filmes de macho dos anos 80”, algo emulado décadas depois com a franquia Busca Implacável, dentre outros) é uma diversão de alto calibre por um lado (chame-o de lado sem filtros) e uma tosqueira (sim, trata-se de termos técnico usado por críticos cinematográficos mundo afora…) revoltante de outro (chame-o de lado cheio de dedos e filtros).

Se o espectador conseguir realmente abstrair-se da bobagem e embarcar na aventura cheia de testosterona, imagens absurdas e trilha sonora engajante que é Stallone Cobra, ele conseguirá entreter-se ao ponto de realmente querer cortar uma pizza gelada com tesoura e comê-la de luvas. Caso contrário, bem… caso contrário O QUE RAIOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI LENDO ESTA CRÍTICA?

P.s: Fiquem tranquilos, pois a Liga Internacional dos Machos Cinéfilos formalmente autoriza que lágrimas sejam vertidas pela destruição do Mercury Monterey 1950 modificado que Cobra usa no filme. Três lágrimas no máximo, porém. E de um olho só!

P.s. 2: Nada de usar “lencinho” para secar as lágrimas…

Stallone Cobra (Cobra, EUA – 1986)
Direção: George P. Cosmatos
Roteiro: Sylvester Stallone (baseado em romance de Paula Gosling)
Elenco: Sylvester Stallone, Brigitte Nielsen, Reni Santoni, Andrew Robinson, Brian Thompson, John Herzfeld, Lee Garlington, Art LaFleur, Marco Rodriguez
Duração: 87 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.