Crítica | Stanley Kubrick: A Life in Pictures

stanley kubrick doc

estrelas 2,5

A Life in Pictures é um documentário em homenagem a Stanley Kubrick encomendado pela Warner Bros. para fazer parte de uma caixa de DVDs dos filmes desse grande diretor. Ele nunca foi lançado nos cinemas ou mesmo separadamente (a não ser em VOD) e sempre fez parte da coletânea de filmes do diretor desde seu “lançamento” em 2001, dois anos depois de sua morte. Seu diretor é Jan Harlan, cunhado de Kubrick (irmão de Christiane Kubrick, mulher do diretor que ele conheceu durante as filmagens de Glória Feita de Sangue) e produtor executivo de Barry Lyndon, O Iluminado, Nascido para Matar e De Olhos Bem Fechados.

Ainda que um documentário sobre Kubrick jamais consiga efetivamente ser completamente descartável diante da magnitude de sua pequena, mas incrível filmografia, a grande verdade, porém, é que Stanleky Kubrick merecia mais, muito mais.

Em 142 minutos, Harlan conta cronologicamente a vida de Kubrick, começando por seu nascimento no Bronx, em Nova Iorque, seu primeiro trabalho como fotógrafo da revista Look e seus curtas-metragens e, depois, abordando cada um de seus longas em blocos dedicados de 15 ou 20 minutos cada um. Em tese, essa é uma estrutura básica, que deveria funcionar, mas a burocrática direção de Harlan, a insuportável narração de Tom Cruise e os infindáveis elogios de todos os entrevistados a tudo que Kubrick fez, acabam transformando esse documentário em um filminho básico, introdutório sobre a vida de Kubrick, que só vai enriquecer aqueles que conhecem a vida do diretor em razão de diversas fotografias e cenas de bastidores raras que, porém, não suplantam as fraquezas da obra final.

E olha que não faltam grandes nomes à empreitada. Foram entrevistados diretores como Martin Scorsese, Steven Spielberg e Woody Allen, atores como Shelley Duvall, Jack Nicholson e Malcolm McDowell e membros da família como Christiane, Gert e Katharina Kubrick. Mas ouvir Shelley Duvall dizer que toda a grosseria de Kubrick com ela no set de filmagens foi um “aprendizado” e que ela não se arrepende do que fez, é um pouco demais (especialmente depois de ouvir de Jack Nicholson que Kubrick o tratava muito bem no mesmo set). McDowell passando por cima do fato que desancou Kubrick nos jornais na época do lançamento de Laranja Mecânica é ridículo. Tudo é feito para que a imagem de “gênio destemperado” – com ênfase no adjetivo “gênio” – fosse a única a ser passada. Todo os discursos são exatamente iguais, seguindo um roteiro absolutamente patético.

Não quero dizer, claro, que Kubrick não merecesse elogios. Afinal de contas, um diretor de seu calibre, que, literalmente a partir de Glória Feita de Sangue, só fez obras-primas, com clássicos absolutos como o próprio Glória Feita de Sangue, além de 2001 – Uma Odisseia no Espaço e Dr. Fantástico, merece não só elogios como quase que total e absoluta reverência. Mas ficar ouvindo apenas que ele era brilhante, genial, inovador, detalhista, obsessivo (mas no bom sentido, claro), amante de animais, inventor, grande fotógrafo e tudo mais durante 142 minutos, sem absolutamente nenhuma vírgula em contrário, cansa e torna tudo muito artificial. Todos os biógrafos de Kubrick reconhecem sua dificuldade em lidar com atores, mas nada é dito sobre isso. Ok, nada é exagero, mas o que é dito é dito de tal maneira que faz com que os atores sejam os culpados e Kubrick o “genial diretor que apenas queria fazer a tomada perfeita”.

E isso sem contar com a velocidade com que Harlan passa pelos primeiros 20 anos de vida do diretor. Quando o documentarista fala dos curtas de Kubrick, ele nem mesmo os nomeia, embalando-os todos na genérica expressão “curtas”, enquanto é extremamente importante diferenciar O Dia da Luta de The Seafarers ou  Flying Padre. Falando nesse aspecto, aliás, teria sido muito interessante aprender exatamente por quê Kubrick dirigiu The Seafarers, seu único filme verdadeiramente terrível.

Além disso, por alguma razão completamente inexplicável, Harlan não coloca legendas para identificar quem está falando nas entrevistas. Enquanto que identificar Spielberg e Allen é tarefa fácil para qualquer um, identificar Peter Ustinov, Brian Aldiss, Steven Berkoff e Arthur C. Clarke, além de Keir Dullea, é tarefa para cinéfilo tarimbado e Harlan não poderia exigir isso em seu documentário be-a-bá.

Mas nem tudo se perde, claro, principalmente por Kubrick ter sido a figura fascinante que foi e por ter produzido o que produziu. É interessantíssimo, por exemplo, aprender sobre o desentendimento dele com o fotógrafo Lucien Ballard em O Grande Golpe, com Ballard querendo dar uma de superior e Kubrick destruindo o profissional – já respeitadíssimo à época – em plena produção ou sobre as sutilezas das modificações na montagem de Lolita que Kubrick teve que fazer para evitar a ação da censura. No entanto, as informações realmente valiosas são poucas e esparsas demais, colocadas aqui e ali entre um desfile interminável de elogios sem um olhar mais neutro.

E a cereja nesse bolo solado que é A Life in Pictures é Tom Cruise, o narrador. A escolha dele para tal papel é óbvia, já que foi a estrela de De Olhos Bem Fechados, último filme de Kubrick. Acontece que Cruise narra como se literalmente estivesse lendo de um teleprompter ou de uma folha de papel em sua mão. Ele não tem entonação nem empolgação e faz talvez a pior narração que já ouvi em toda minha vida e olha que sou um ávido consumidor de documentários. A única misericórdia que nós é concedida é o fato que Cruise fala pouco, pois a fita é entrecortada de entrevistas quase o tempo todo.

Jan Harlan tinha tudo nas mãos: apoio da Warner, um gigantesco número de celebridades, muitos familiares, gente do lado técnico das obras de Kubrick e, claro, a própria biografia desse grande diretor da Sétima Arte. O resultado, porém, ficou muito aquém do esperado, basicamente uma puff piece que só faz elogiar, elogiar e elogiar, com uma ou outra informação e imagem interessante.

É Kubrick For Dummies na melhor das hipóteses.

Stanley Kubrick: A Life in Pictures (EUA, 2001)
Diretor: Jan Harlan
Elenco: Tom Cruise (narração), Ken Adam, Margaret Adams, Brian Aldiss, Woody Allen, Steven Berkoff, Arthur C. Clarke, Keir Dullea, Martin Scorsese, Malcolm McDowell, Shelley Duvall, Nicole Kidman, Christiane Kubrick, Gert Kubrick, Katharina Kubrick, Jack Nicholson, Matthew Modine, Sydney Pollack, Steven Spielberg, Peter Ustinov
Duração: 142 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.