Crítica | Star Trek: A Cidade à Beira da Eternidade (graphic novel)

estrelas 3,5

Um dos mais adorados episódios da Série Original de Star Trek é A Cidade à Beira da Eternidade, o penúltimo episódio da primeira temporada. Uma das poucas pessoas que não gosta dele é justamente o roteirista original, Harlan Ellison, prolífico autor americano de ficção científica que é normalmente considerado uma pessoa difícil de lidar, algo que ele próprio aborda na introdução da graphic novel que adaptou seu teleplay da forma como ele originalmente havia escrito. Apesar de não conhecer o autor, basta dizer que ele assina seu nome com o símbolo de marca registrada – ® -, o que, para mim, já o torna no mínimo um cara de nariz em pé independente de seu eventual brilhantismo.

star_trek_cidade_a_beira_da_eternidade_capa_plano_criticoSeja como for, o episódio mencionado realmente é um dos melhores da Série Original, quiçá de todas as séries da franquia (foi um dos dois episódios a ganhar o prêmio Hugo) e as notórias alterações feitas por Gene Roddenberry no roteiro de 300 páginas de Ellison, de forma a torná-lo filmável dentro do tempo e orçamento disponíveis, levaram os dois a uma eterna inimizade que transcendeu o falecimento do criador da série e chegou até 2009, quando a ação judicial lidando com o aproveitamento econômico do referido episódio pela NBC e depois CBS e Paramount foi encerrada com um acordo entre as partes.

Com a situação apaziguada, o roteiro original acabou ganhando a luz do dia na forma de uma graphic novel publicada em cinco edições na segunda metade de 2014 pela IDW que, segundo o próprio autor, finalmente faz jus ao que ele deve achar o melhor roteiro do mundo. E, de fato, é muito interessante ler o trabalho original, especialmente depois de assistir ao episódio, já que as comparações são inevitáveis.

Para quem nunca ouviu falar de A Cidade à Beira da Eternidade, a história é uma versão mais séria e pessimista de De Volta para o Futuro em que o Capitão Kirk e o Sr. Spock têm que atravessar um portal temporal que os leva para os Estados Unidos em 1930 para desfazer as mudanças temporais ocasionadas pela viagem ao passado de outro tripulante da Enterprise. No episódio da série, esse outro tripulante é um enlouquecido Leonard McCoy e, nos quadrinhos, é o personagem Beckwith, um membro da Enterprise que é traficante de drogas e atravessa o portal fugindo de Kirk e companhia depois de matar outro tripulante.

Como artifício clássico da ficção científica, a viagem temporal permite possibilidades mil e, no trabalho de Ellison, adaptado para os quadrinhos pelos irmãos David e Scott Tipton (veteranos em HQs da série Star Trek da IDW), elas são muito bem exploradas ao catapultar Kirk e Spock para antes do momento em que Beckwith chega ao passado e usando a dinâmica entre os dois para lidar com aquele momento histórico na América logo após o começo da Grande Depressão, com o capitão encontrando-se com Edith Keeler, uma bela e inteligente visionária que prega nas ruas por esperança e um mundo melhor e o vulcano tendo que lidar com o preconceito que sua aparência “chinesa” atrai, ao mesmo tempo em que precisa resolver o quebra-cabeças temporal para evitar as mudanças em seu futuro.

Dividida em três atos bem definidos, a narrativa de Ellison, porém, poderia ter se beneficiado de maior concisão. Beckwith, que é apresentado de forma razoavelmente completa logo no começo, torna-se, depois, um personagem que só existe em nome, voltando a realmente fazer parte da história em seu clímax e apenas ali. Nesse quesito, a versão retrabalhada do roteiro (por Roddenberry e outros roteiristas) e que chegou à série é melhor, já que transforma Beckwith em McCoy, o que empresta mais gravidade e organicidade à trama. Afinal, o leitor (e o espectador) consegue se identificar muito melhor com Magro do que com um personagem que nunca viu antes.

Além disso, os aspectos mais importantes da narrativa – aqueles que efetivamente dão a solução ao problema do paradoxo temporal – são entregues de bandeja para os protagonistas pelos seres etéreos que guardam o portal temporal (os Guardiões da Eternidade) e o que não são, são deduzidos de maneira conveniente demais por Spock em suas costumeiras extrapolações “lógicas”. Perde-se um pouco do clima investigativo que existe no episódio de TV e ganha-se em textos expositivos que poderiam ter sido economizados ou costurados mais organicamente ao roteiro.

Por outro lado, a relação entre Kirk e Keeler ganha mais tempo para ser desenvolvida, tornando mais crível o envolvimento do mulherengo capitão com a mulher que parece ser o amor de sua vida. Além disso, há uma curta subtrama envolvendo um veterano da devastadora Batalha de Verdun, durante a 1ª Guerra Mundial. O homem, sem as duas pernas, entra tarde demais na história e ganha pouquíssimo desenvolvimento, infelizmente, mas a discussão sobre a importância das pessoas no contexto do mundo ganha seu equilíbrio justamente nesse aspecto, algo que inexiste no episódio da série.

A arte ficou por conta de J.K. Woodward, que já havia trabalhado com Star Trek e os Tipton em Star Trek/Doctor Who: Assimilation². Nos dois anos que separaram as publicações, seu desenho pintado ganhou força e muito talvez se deva ao espaço amplo que ele tem para trabalhar e o ambiente dos anos 30 que se beneficiam de seus traços, mais, digamos, antiquados, que convertem cada página em uma aquarela de cores mudas quebrada pela presença mais colorida – em figurino e alguns elementos do cenário – dos dois personagens do futuro e de Keeler. Além disso, sua escolha de desenhar Kirk, Spock e Keeler com a fisionomia dos atores originais – William Shatner, Leonard Nimoy e Joan Collins – traz familiaridade ao trabalho e logo cria empatia com os leitores. Apenas as cenas de ação sofrem um pouco, ainda que elas sejam em geral desimportantes à progressão narrativa, algo que ele compensa com uma progressão de quadros mais ousada e intrincada quando necessário.

É muito interessante – e raro – que a visão original de Ellison sobre A Cidade à Beira da Eternidade tenha se tornado acessível ao público em geral de alguma forma, o que permite as inevitáveis discussões sobre qual é a melhor versão. Tenho para mim que as alterações empreendidas por Roddenberry e outros para que o roteiro pudesse se tornar um episódio da série ficam ainda mais impressionantes quando podemos ver a história completa – e essencialmente a mesma – que saiu da mente febril do autor original. Um clássico caso em que menos é mais.

Star Trek: A Cidade à Beira da Eternidade (Star Trek: Harlan Ellison’s City on the Edge of Forever, EUA – 2014)
Contendo: Star Trek: Harlan Ellison’s City on the Edge of Forever #1 a #5
Roteiro: David Tipton, Scott Tipton (baseado no teleplay de Harlan Ellison)
Arte: J.K. Woodward
Letras: Neil Uyetake
Editora: IDW Publishing
Data original de publicação: junho a outubro de 2014
Páginas: 125

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.