Crítica | Star Trek: Discovery – 1X03: Context is for Kings

– Contém spoilers do episódio. Leiam nossas críticas dos filmes e séries de Star Trekaqui.

O que talvez mais tenha chamado a atenção nesse terceiro episódio de Star Trek: Discovery é como ele facilmente poderia funcionar como o series première. Sim, The Vulcan HelloBattle at the Binary Stars nos mostram detalhes importantes sobre o início da guerra contra os klingons e o encarceramento de Michael Burnham, mas nada expressamente imprescindível para o entendimento de Context is for Kings – funcionando mais como backstory do que efetivamente início da história da protagonista – aquele foi o capítulo final da vida anterior de Michael. Evidente que minha intenção não é desmerecer os dois primeiros episódios, eles são essenciais para a introdução dos conceitos básicos da série, quase que virado prioritariamente para quem nunca viu qualquer filme ou seriado de Jornada nas Estrelas.

Não vem como grande surpresa, portanto, que a nave que garante o título da série somente tenha aparecido nesse terceiro capítulo, junto de seu capitão, Gabriel Lorca (Jason Isaacs) e essa aguardada introdução desempenha um vital papel no episódio, possibilitando que Burham se sinta desconfortável dentro da Discovery, não apenas em razão de seu estranhamento em relação às atividades da nave, como pela própria forma como é tratada – novamente, nenhuma surpresa, considerando o seu motim nos capítulos anteriores. Enxergada com desdém ou desprezo, essa situação da protagonista, claro, dialoga com a própria posição da mulher no mercado de trabalho, cuja credibilidade deve ser conquistada às duras custas, algo muito bem representado pelo tratamento do tenente Paul Stamets (Anthony Rapp) em relação à ela.

Existe ainda o agravante de que se trata não só de uma mulher, e sim de uma mulher negra, ponto explorado através da diferença do cabelo da personagem. Em The Vulcan HelloBattle at the Binary Stars, Michael tinha seu cabelo alisado e aqui ele foi revertido ao seu estado natural, aspecto que muito bem simboliza a ausência da necessidade dela se adequar a um específico padrão de beleza ou até mesmo de protocolo dentro da Federação, prova de que ela não mais precisa se importar com o que os outros dizem, por mais que agora, sim, elas irão falar mais e mais dela. Essa mudança, claro, dialoga com a conquista de sua individualidade e até a parcial ruptura em relação à sua educação vulcana, que, por sua vez, é diretamente relacionado com a já icônica frase dita por Lorca: “lei universal é para lacaios, contexto é para reis”. Em outras palavras, as regras podem ser dobradas a favor da vitória.

Evidente que tal filosofia do capitão, de imediato, cria um vínculo entre ele e a protagonista, mas, na realidade, pode representar a substancial diferença entre os dois. Enquanto que Burham abandonou o protocolo em situação de emergência, visando salvar a vida de sua tripulação, Lorca parece assumir essa linha de raciocínio para tudo o que faz, inclusive, possivelmente, ao matar a piloto de um transporte somente para conseguir que Michael passe a trabalhar na Discovery – afinal, os danos sofridos pelo transporte dos prisioneiros soa conveniente demais para não ter sido algo orquestrado.

Tal ponto ganha mais força se levarmos em conta a própria personalidade do capitão, muito bem interpretado por Jason Isaacs. Estabelecendo-se como um jogador de xadrez, ele, desde já, aparenta estar sempre um passo à frente de todos os outros, dominando os diálogos, como se soubesse exatamente qual o rumo eles irão tomar, algo visto em todas as interações entre ele e a personagem central. Mesmo com alguns questionamentos sobre suas ordens por parte de Stamets, em momento algum sentimos como se sua autoridade fosse abalada – do momento que ele entra na sala, sabemos onde o poder se encontra. Com personalidade dúbia, não poderíamos pensar em alguém melhor para estar no comando da Discovery.

Essa característica abre um precedente bastante inédito dentro do universo de Star Trek – e aqui corrijam-me se eu estiver errado, pois somente assisti os filmes e a série original, além de alguns capítulos soltos de A Nova Geração – enquanto que a Enterprise representava um porto seguro (mesmo com todas as crises), sempre simbolizando a salvação, especialmente quando certos membros de sua tripulação ficavam presos em um planeta específico; a Discovery mantém-se misteriosa, até mesmo sombria, a tal ponto que desconfiamos das pesquisas realizadas em seu interior. Há algo de confidencial ali e, por enquanto, não parece que seja algo totalmente ético.

Aspecto esse que ganha mais força com a presença da criatura tirada da nave-irmã, além do próprio “museu” de Lorca (que traz algumas bem-vindas referências ao universo de Jornada nas Estrelas). E já que falamos dessa criatura, é interessante como o roteiro de Gretchen J. Berg, Aaron Harberts e Craig Sweeny faz menção à estrutura procedural das séries anteriores, colocando essa incursão na outra nave como uma aventura fechada em si própria. Ao que tudo indica, porém, Discovery não segue o mesmo modelo, mantendo uma linha narrativa contínua, possivelmente trazendo tais perigos individuais semanalmente.

Tais características possibilitam que esse terceiro episódio tenha mais a cara de Star Trek, focando na ciência ao invés de conflitos, ainda que esses estejam presentes. Na direção, Akiva Goldsman busca referenciar a fórmula visual da linha do tempo Kelvin, com pontual uso do lens flare, mas aqui eles chegam a incomodar, especialmente durante o transporte da Discovery até a nave acidentada, com a luz se sobrepondo à imagem de tal forma que chega a parecer um erro de CGI, proporcionando certa quebra de imersão por parte do espectador. Felizmente, o uso desse recurso é mais limitado.

Context is for Kings, no fim, prova ser superior aos dois capítulos introdutórios, funcionando como o início, de fato, dessa jornada de Michael. Enfim conhecemos a nave que dá o título ao seriado, enquanto que descobrimos o quão diferente essa série pode ser daquelas que vieram antes dela. Com inúmeros mistérios preenchendo o interior da Discovery, não podemos deixar de ficar ansioso para ver o que será mostrado na próxima semana e se o verdadeiro objetivo de Lorca é, realmente, apenas vencer a guerra.

Star Trek: Discovery – 1X03: Context is for Kings — EUA, 1 de outubro de 2017
Showrunner:
Gretchen J. Berg, Aaron Harberts
Direção: Akiva Goldsman
Roteiro: Gretchen J. Berg, Aaron Harberts, Craig Sweeny
Elenco:  Sonequa Martin-Green,  Doug Jones, Shazad Latif, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Jason Isaacs,  Rekha Sharma,  Emily Coutts, Julianne Grossman, Grace Lynn Kung
Duração: 48 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.