Crítica | Star Trek: Discovery – 1X11: The Wolf Inside

– Contém spoilers do episódio. Leiam nossas críticas dos filmes e séries de Star Trekaqui.

Pode-se dizer que o início das aventuras da USS ISS Discovery no Universo Espelho, para além de suas surpresas in-universe, trouxeram também para a audiência uma inesperada e bem-vinda variação tonal e de ritmo, possibilitando um bom espaço para respirar após um último sub-arco lidando novamente com o tema central da série: a guerra. Enquanto que Despite Yourself tomou seu tempo para, entre seus momentos indiscutivelmente ainda sisudos (envolvendo inclusive a morte trágica de um tripulante), pontuar a trama com um tom mais leve e aventuresco, em The Wolf Inside temos um retorno à programação normal para a série, com um episódio sombrio e pedregoso que lida com o impacto psicológico da viagem ao Universo Espelho, ao mesmo tempo em que entrega desfechos importantes para os arcos pessoais de Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) e Ash Tyler (Shazad Latif).

Dando continuidade ao final lúgubre do episódio anterior, em que Michael se viu obrigada a assassinar um jovem ex-colega de tripulação da USS Shenzhou – apenas para o fato ser recebido com uma absurda ovação entusiasmada pela tripulação da ponte – somos levados a acompanhar a forma como a barbárie deste universo impacta a psique já perturbada da Especialista. É muito interessante acompanhar o insólito status quo da ISS Shenzhou sob o comando da capitã infiltrada Michael. Entre o lidar com a bizarrice de ter Saru (Doug Jones) como escravo e ter que furtivamente receber ordens do prisioneiro torturado Gabriel Lorca (Jason Isaacs), é plenamente compreensível o quanto a situação toda pesa sobre os ombros da oficial, que se vê totalmente fora de seu elemento, tendo que confiar absolutamente num modo de agir extremamente cauteloso (ainda que improvisado) e lidar com a completa incerteza em relação a seu futuro. Tudo isso é muito bem acentuado pela direção, que faz um bom uso dos já tradicionais planos fechados para dar forma a uma narrativa claustrofóbica (“Até mesmo a luz é diferente”!). Mesmo a cena em que Tyler e Burnham afetuosamente se abrem um com o outro em busca de suporte mútuo mantém uma atmosfera opaca, coroada pela interrupção constrangedora do Saru espelhado.

O enfoque introspectivo prossegue central no desenvolvimento do episódio, onde a capitã tenta ajudar a rebelião, liderada pelo misterioso Firewolf, a escapar de um ataque devastador ordenado pelo Imperador. O roteiro não desperdiça a oportunidade de nos mostrar um alquebrado Lorca aconselhando Burnham a destruir a base rebelde, uma vez que isso é necessário para manterem o disfarce por mais tempo, até que consigam repassar os dados roubados a respeito da USS Defiant, que são sua única esperança de voltarem ao universo regular. Em mais uma atuação notável, Jason Isaacs nos mostra o cerne do fascinante personagem de Lorca, que mesmo quando torturado até os limites de sua fisiologia – e talvez justamente por isso – permanece focado e centrado em seu arrepiante rigor pragmatista. Em contraparte temos o ponto de vista de Michael, que vê na rebelião a coisa mais próxima de uma Federação com a qual o Universo Espelho pode contar. Com isso, vemos que não se trata “apenas” de ordenar o massacre de centenas de pessoas lutando por sua liberdade, mas do agravante de que fazê-lo implica trair os valores mais profundos de Michael, em favor de um Império Terrano que representa o que há de mais abominável nos humanos.

A negociação com os rebeldes traz um esperado encontro com faces conhecidas, trazendo uma daquelas coincidências cósmicas onde, em nome do enredo, temos que deixar de lado as probabilidades e simplesmente aceitar a oportunidade de ver as sempre interessantes versões alternativas dos personagens. A revelação de que Firewolf é, na verdade, Voq, Portador da Tocha e Filho de Ninguém – o klingon albino seguidor de T’Kuvma visto pela última vez em The Butcher’s Knife Cares Not for the Lamb’s Cry – não vem como necessariamente uma surpresa, com sua presença repentina na recapitulação pré-episódio tendo já nos preparado para uma aparição da versão espelhada do personagem (isso sem falar das teorias dos fãs a respeito do figura – mais sobre isso a seguir!). Mais inesperada é a aparição de um Sarek (James Frain) espelhado (com direito a cavanhaque!) como o Profeta, braço direito de Voq na condução das negociações de sua rebelião. A cena astutamente mostra uma belíssima reação esperançosa de Sarek à leitura de mente que realiza em sua filha adotiva de um universo paralelo, admirando-se com o mundo da forasteira e estabelecendo com ela uma imediata relação de confiança, ironicamente mais evidente do que a que ela possui com seu pai adotivo no universo normal.

Ao mesmo tempo, a caracterização radicalmente diferente do Voq desta realidade é bem explorada no tenso diálogo com Michael, através do qual temos um vislumbre do quão distintas as coisas são deste lado da barreira interdimensional. O conceito dos klingons liderando, em aliança com os vulcanos, uma rebelião multi-espécie para se opor à tirania humana é interessantíssimo, algo que se prova pelo peso das sequências na base rebelde (que contam com a aparição de tellaritas e andorianos, figuras clássicas do universo Trek), ainda que com elas exploremos apenas uma fração do conceito. O rompante de fúria de Ash vem novamente como catarse de uma perturbação profunda do oficial no lidar com os klingons, naquilo que inicialmente parecia ser um caso de transtorno de estresse pós-traumático, mas que já vimos ser na realidade algo totalmente diferente. A cena é muito bem realizada, retratando o desconforto extremo de Tyler, afligindo o espectador que tenta não perder o fio do importante diálogo de Michael com o Voq espelhado, apenas para acompanhar de perto a forma com a qual ele vai perdendo a consciência e dando lugar ao seu “outro eu” – aquele fluente em klingon e que está sempre propenso a quebrar pescoços pela glória de Kahless (quem é que não guarda um desses dentro de si?).

Tolhidos de nossa interessante Aliança Rebelde rebelião com o final bem-sucedido das negociações, voltamos à ISS Shenzhou onde acompanhamos o confronto entre Michael e Ash, no decorrer do qual finalmente obtemos respostas a respeito do que se passa afinal de contas com o oficial. Indo ao encontro do que os fãs mais atenciosos (este que vos escreve não incluso!) já teorizavam há algum tempo, temos a confirmação de que Tyler na verdade é um Voq cirurgicamente alterado para infiltração. A cena trabalha bem a escala da transformação de humano para klingon, as camadas do torturado Tyler dando lugar ao fervor de Voq conforme ele tenta colocar em palavras o que se passa quando ele entra em contato com L’Rell. A atuação da dupla consegue emprestar o gravitas necessário à abordagem que a produção pretende com a revelação, que fecha um ciclo e dá um sentido ao arco do personagem de Ash, lançando nova luz sobre diversas cenas anteriores (o recente embate com sua versão espelhada e as cenas em que ele encarou L’Rell de perto, principalmente).

Este impactante twist remonta ao seminal The Trouble With Tribbles, episódio da 2ª temporada da Série Original que introduziu não apenas os mascotes espaciais mais fofos da história (tomem essa, Porgs!), mas também a possibilidade de um klingon se disfarçar cirurgiamente como ser humano de um modo quase imperceptível. Infelizmente o tribble que vimos sobre a mesa de Lorca em Context is For Kings aparentemente estava morto ou então não teve a oportunidade de se encontrar com Tyler, o que potencialmente custou não apenas a vida do já saudoso Dr. Culber, como também o que restava da psique torturada de nossa protagonista. A revelação lança um novo interesse sobre o par romântico central, que até então não inspirava muito, e nos deixa curiosos a respeito dos rumos das tramas envolvendo L’Rell e Voq, ainda mais levando em conta a situação atual. É notável como, mediante a revelação, somos levados a esquecer por um momento de toda a complicada situação em que se encontram nossos personagens, apenas para o choque de sermos trazidos de volta a ela pelo salvamento de Michael através da intervenção do pobre Saru escravizado.

Longe de se tornar um dilema que coloque em risco seu disfarce, nossa capitã faz uma de suas típicas jogadas badass e se aproveita da “execução” do parceiro para enviá-lo sorrateiramente para a Discovery – portando consigo nada menos do que os dados a respeito da USS Defiant. Embora seja uma ótima e divertida reviravolta, trata-se de um momento levemente problemático no roteiro, uma vez que não temos a impressão de que houve tempo suficiente para que ela contatasse e avisasse a tripulação da Discovery a respeito de Ash. Do lado de lá do transmissor, temos a prisão do traidor, sob uma fala belíssima de Saru, novamente roubando a cena no episódio, que reafirma sua subserviência aos princípios da Federação, mesmo que a instituição em si não exista nesse espaço em que eles agora habitam.

Do lado de nossa nave titular temos ainda uma boa subtrama envolvendo o capitão em exercício e Tilly (Mary Wiseman), na tentativa de salvar Stamets (Anthony Rapp) dos efeitos adversos de sua overdose de esporos. A ciência da oficial Tilly não é tão fundamentada como poderia se esperar, sendo que o conceito dos esporos parece um tanto estagnado aqui, uma vez que novamente o salvamento de Stamets envolve colocá-lo na câmara e preenchê-la com os misteriosos microorganismos. Felizmente a sequência psicodélica final, com Stamets encontrando-se consigo mesmo na floresta de fungos cósmicos, promete novidades no front micológico para a próxima semana. Depois de nos apavorar com a aparente morte de Stamets (embora muito improvável, com uma cena bem realizada em termos do peso emocional), o episódio se utiliza bem da situação para não deixar de lado a exploração do personagem de Tilly, fazendo um bom uso do tempo de tela para destacar sua dinâmica com Saru, na ausência da figura de Michael.

Com revelações há muito aguardadas finalmente acontecendo e tomando seu tempo para investir no desenvolvimento de personagens, The Wolf Inside continua o arco do Universo Espelho abordando por outro ângulo o intrigante conflito entre o Império Terrano e a rebelião,  voltando aos tons mais soturnos após a incursão mais aventuresca da semana passada. No geral, Star Trek: Discovery continua a crescer neste segundo arco, mantendo a guerra como temática central, porém acrescida agora de um elemento mais pesado de ficção científica, com a trama da viagem entre universos servindo para dar rumos potencialmente inesperados às subtramas herdadas da primeira metade da temporada.

Star Trek: Discovery – 1X11: The Wolf Inside — EUA, 14 de janeiro de 2018
Showrunners:
 Gretchen J. Berg, Aaron Harberts
Direção: T. J. Scott
Roteiro: Lisa Randolph
Elenco: Sonequa Martin-Green,  Doug Jones, Shazad Latif, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Jason Isaacs, James Frain, Emily Coutts, Clare McConnell, Sara Mitich, Wilson Cruz
Duração: 48 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.