Crítica | Star Trek: Discovery – 1X12: Vaulting Ambition

– Contém spoilers do episódio. Leiam nossas críticas dos filmes e séries de Star Trekaqui.

Dando sequência aos acontecimentos de The Wolf Inside, onde acompanhamos a capitã infiltrada da ISS Shenzhou, Michael Burnham (Sonequa Martin-Green), tendo que lidar ao mesmo tempo com uma negociação com a rebelião em nome do abominável Império Terrano e com os surtos violentos de seu par romântico Ash Tyler (Shazad Latif), Vaulting Ambition novamente leva a oficial até situações extremas onde seus limites acabam sendo postos à prova, talvez mais do que nunca até então. Isso significa bastante, uma vez que no episódio passado as resoluções de ambos conflitos foram… menos do que encorajadoras. De um lado, a chegada inesperada da ISS Charon lançou um ataque devastador ao planeta Harlak antes que os rebeldes pudessem realizar a evacuação pela qual Michael se arriscara tanto. De outro, aconteceu que a pessoa que era responsável por proporcionar a ela toda e qualquer ancoragem emocional neste universo paralelo insano na verdade era um klingon que passou por mudanças cirúrgicas para se disfarçar como ser humano. Ouch! Não tem sido fácil ser Michael Burnham.

Neste terceiro episódio do arco do Universo Espelho, Burnham deve responder ao chamado da absolutamente temível Imperatriz terrana, ninguém menos que a versão espelhada de sua falecida capitã Georgiou (Michelle Yeoh). Levando seu fiel “prisioneiro” Gabriel Lorca (Jason Isaacs) para um julgamento provavelmente menos do que razoável, os dois oficiais da USS Discovery embarcam a imponente flagship do Império Terrano (um visual não menos que fenomenal) com planos ambiciosos de, além de escapar com vida, roubar os registros confidenciais a respeito da USS Defiant que poderiam ajudá-los a voltar para o universo normal, uma vez que os dados obtidos na Shenzhou se revelaram insuficientes. Com Lorca rapidamente encaminhado para sua tradicional gaiola de tortura, acompanhamos Michael na provação de encarar Georgiou, não apenas como a implacável comandande suprema do Império, mas também como a figura revivida de sua antiga capitã, pela qual ela se sente diretamente culpada pela morte. Mais uma vez Sonequa Martin-Green traz uma ótima e nuançada atuação – é muito interessante não apenas saber que ela sente sua insubordinação como uma forma de traição à Georgiou, mas também a maneira como ela se relaciona com essa dor, que passa pelo filtro de emoções de sua criação vulcana, o qual não deixa de ser útil dada a urgência da atual situação – é sua abordagem pé-no-chão que possibilita que ela escape com vida ao final do episódio.

A série continua a tirar excelente proveito do setting do Universo Espelho para explorar a construção de seus personagens. Após encontrar um Sarek que vê na trajetória de Michael não um fracasso, mas sim esperança (ainda que para outro universo), apenas para perdê-lo logo em seguida, a revelação de que esta Georgiou fora sua mãe adotiva nesse universo tem um peso cruelmente irônico sobre a oficial. A cena do jantar terrível entre Burnham e Georgiou traz um dos momentos mais dramaticamente densos da produção até agora. Quando, ainda na corte, Michael é solicitada – de uma maneira um tanto estranha – a escolher um kelpien, minha mente foi imediatamente para quando Saru (Doug Jones) explicara, em The Vulcan Hello, que sua espécie era caçada e criada como gado em seu planeta natal. Dito e feito, temos um banquete tenebroso à la Hannibal Lecter para acompanhar a pesada discussão familiar que acaba literalmente com uma faca no pescoço e uma sentença de morte sendo proferida. Típica reunião familiar no Universo Espelho! Brincadeiras à parte, a cena apresenta um diálogo fantástico cujo peso é garantido pelas interpretações tanto de Martin-Green quanto de Yeoh, que abraça todo o potencial da versão corrompida de sua personagem, entregando uma perfomance emotiva e pautada pelos exageros maquiavélicos de uma figura que em momentos encarna quase que um mal absoluto, sem no entanto deixar perder o gravitas necessário para tão importante cena, dentro da tonalidade em que a série tem trabalhado tais temas.

No núcleo da Discovery o foco recai sobre Stamets (Anthony Rapp), que a partir da terapia com esporos desenvolvida por Tilly (Mary Wiseman) passa a ter uma experiência transcendental dentro da rede de micélios. O encontro com sua versão espelhada é ao mesmo tempo divertido e intrigante, a série mais uma vez apresentando uma realização visualmente e narrativamente muito interessante de espaços oníricos, com a atuação duplicada de Rapp carregando as cenas com uma inusitada leveza. Com as duas versões do brilhante cientista trabalhando juntas para tentarem despertar, somos apresentados a uma corrupção na rede de micélios cujos efeitos potencialmente devastadores já nos apavoram, ainda que não tenham ficado claros. É possível que toda a vida em ambos os universos esteja em risco!?

Em meio à experiência, o nosso Stamets é abordado por ninguém menos que o saudoso Dr. Culber (Wilson Cruz), cuja aparição vem trazer não apenas o necessário fechamento emocional ao relacionamento dos dois, como também uma informação crucial: o Stamets espelhado, como não poderia deixar de ser, é um sacana de marca maior e o próprio responsável pela corrupção que assola a rede de micélios. Toda a sequência entre Stamets e Culber é muito bem construída, dando um merecido e belíssimo encerramento ao arco dos dois. É especialmente emocionante a forma com que Stamets consegue finalmente despertar, com o auxílio do namorado,  recompondo-se rapidamente para fazer o que precisa ser feito e sem tempo para chorar, em um raro gesto genuinamente heroico de um personagem em uma série onde a coisa certa normalmente é feita por caminhos moralmente menos inspiradores.

Neste sentido vale ainda dar destaque para as participações de Saru, que ao longo do episódio mostra o quanto tem respondido à altura ao desafio de comandar a nave na ausência de seus superiores, com uma capacidade de articular sua liderança com planos de ação de maneira firme e decidida em meio a situações tão extremas quanto à doença de Stamets e todo o problema klingon que enfrentam. Merecem destaque as cenas em que o usualmente pávido oficial faz frente à figura ameaçadora de L’Rell (Mary Chieffo), demandando um posicionamento da prisioneira frente ao sofrimento de Tyler, mostrando um lado que podíamos suspeitar mas que até então permanecia encoberto no kelpien. É empolgante pensar nas possibilidades de desenvolvimento do personagem, ainda mais levando em conta que no futuro teremos uma reestruturação na hierarquia da Discovery, com a inevitável saída de nosso capitão Lorca. Por que mesmo? Ah, sim! É verdade… O nosso capitão Lorca, na verdade, era desde sempre um impostor terrano. WHAT!?

Pois é, a bombástica revelação final vem não apenas lançar uma nova luz sobre os acontecimentos do episódio em si, mas efetivamente sobre Star Trek: Discovery como um todo. Ainda que possa ter sido conteúdo de especulação por parte dos fãs, a revelação funciona como um legítimo twist de especial sucesso e significado através da forma como é bem construído, ao longo de toda a história que nos trouxe até aqui e na própria trama deste episódio em particular. Uma figura extremamente suspeita desde que o conhecemos, é fato que mesmo o espectador mais desconfiado em relação a Lorca dificilmente contaria com um passado onde ele estabeleceu uma relação potencialmente abusiva com Michael e que provavelmente terminou com sua morte. O fato de que o terrano, cujos motivos centrais ainda permanecem envoltos em mistério, tenha tido a frieza de ir atrás da versão de Michael do universo regular deixa claro os limites de seu caráter insidioso, para muito além de um mero pragmatismo exacerbado como a narrativa tentava por vezes sugerir.

A revelação a respeito da diferença da luz no Universo Espelho é interessante na medida em que esclarece a hipersensibilidade de Lorca (lançando ao diametral oposto o sentido de sua história de trágico sacrifício com a USS Buran – do “heroísmo” pragmatista frente a um dilema insolúvel a uma desculpa perfidiosa para assumir o lugar de seu doppelgänger), ao mesmo tempo em que retoma espertamente a fala de Burnham de que “Até mesmo a luz é diferente”. A direção lança mão de pequenos trechos de episódios anteriores para ajudar a sustentar a gradativa revelação, recurso que por vezes pode acabar levando a algo forçado (do tipo que quebra a quarta parede para te esfregar na cara “Viu só, a gente planejou isso!”), efeito que aqui felizmente é evitado, uma vez que temos o suporte da sequência brilhante entre Lorca e o capitão da ISS Charon, Maddox (Dwain Murphy).

O confronto entre o oficial e seu prisioneiro, a quem culpa pela morte da irmã exigindo uma confissão, é muito bem trabalhado e consegue subverter gradativa e completamente tanto a dinâmica de forças do par quanto a postura moral de Lorca, que vai do auto-sacrifício ao extremo da manipulação. A trama atinge um crescendo quando, ao mesmo tempo em que Burnham se dá conta de que fora manipulada o tempo todo para trazer Lorca de volta para casa e exatamente para onde queria (e só conseguiria chegar com ajuda dela), temos a sequência arrepiante onde ele friamente se faz de morto, apenas para prosseguir e atacar Maddox (que tentava revivê-lo) com um desfribrilador na cabeça. Selvagem. E sim, ele sabia o nome da moça o tempo todo. Quebrando todas as barreiras que poderíamos ter a respeito do personagem, o twist acaba tendo ainda mais sucesso do que aquele envolvendo Voq na medida em que ele prepara um desfecho monumental ao conflito, justificando a opção em investirmos tanto tempo de tela no Universo Espelho e amarrando o arco atual com o anterior de forma a encaminhar a história para uma reta final com um complexo e obscuro jogo de forças que vai muito além da guerra entre a Federação e os klingons, já tão distante lá no universo regular.

Vaulting Ambition aprofunda as principais tramas de Discovery, amarrando-as bem em direção a um desfecho potencialmente epopeico. Entre os ardis de Lorca, a ameaça do Império, dos klingons e a doença na rede de micélios, a tripulação continuará a ter seus limites testados de forma gradativa até o final da temporada. O episódio atesta a favor da ousadia da produção em relação ao formato tradicional de Trek. Se por um lado a série optou por romper com o formato episódico, é certo que há elementos suficientes em jogo no roteiro para que se possa aproveitar-se ao máximo cada conceito e premissa de ficção científica que fora levantado, fazendo bom uso de cada minuto do tempo de tela seja no desenvolvimento da trama, seja na construção de personagens. São altas as expectativas em relação à reta final que acabamos de adentrar, mas baseando-se no que foi mostrado até então, podemos esperar algo tão grandioso quando o design da ISS Charon. OK, talvez menos, mas ainda assim…

Star Trek: Discovery – 1X12: Vaulting Ambition — EUA, 21 de janeiro de 2018
Showrunners:
 Gretchen J. Berg, Aaron Harberts
Direção: Hanelle M. Culpepper
Roteiro: Jordon Nardino
Elenco: Sonequa Martin-Green,  Doug Jones, Shazad Latif, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Dwain Murphy, Mary Chieffo, Wilson Cruz
Duração: 48 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.