Crítica | Star Trek: Discovery – 1X13: What’s Past is Prologue

– Contém spoilers do episódio. Leiam nossas críticas dos filmes e séries de Star Trekaqui.

Dando sequência direta ao excelente Vaulting Ambition e seu embasbacante plot twist de encerramento, o qual nos revelou a verdadeira face do capitão Gabriel Lorca (Jason Isaacs), What’s Past is Prologue adota um ritmo tão vertiginoso para resolver tantas subtramas ao mesmo tempo que mais parece ser o finale dessa primeira temporada de Star Trek: Discovery. Será que seria melhor que o fosse realmente? Talvez. Embora o episódio funcione narrativamente bem enquanto um trama auto-contida de ação, acaba deixando a desejar no que diz respeito ao payoff  do arco do Universo Espelho, o qual tem sido trabalhado cuidadosamente não apenas ao longo dos últimos três episódios mas, segundo o que soubemos recentemente, desde a primeira aparição de Lorca, lá em Context is for Kings. Bem, como diria a imperatriz Georgiou após avistar um kelpiano bem vistoso, “vamos por partes”!

Dentro daquilo que tem constituído a identidade de Discovery, para além da violência ou do tom pedregoso, temos o enfoque em episódios acelerados onde as resoluções raramente demoram a acontecer, ao mesmo tempo em que temos uma história estendida sendo construída, cuja narrativa gira em torno de twists e revelações que buscam surpreender e, ao mesmo tempo, nos oferecem pistas para alguma unidade por detrás da coisa toda. Dentre todas as dobras bombásticas de roteiro, a revelação a respeito da origem terrana do capitão Lorca se destacou como algo especial, representando talvez o grande momento de personagem desta primeira temporada. Indo mais além do que a revelação a respeito de Ash ser um klingon, por exemplo, o que ela trouxe para a mesa foi uma recolocação da própria razão de ser da USS Discovery e do sentido de tudo pelo que sua tripulação vinha trabalhando desde que a conhecemos. Também ressoa mais com o arco de nossa protagonista Michael (Sonequa Martin-Green), já que fora Lorca o responsável por reinseri-la – um tanto quanto a contragosto e por insistência – nas responsabilidades de seu ofício, após a falta grave cometida pela oficial na Batalha das Estrelas Binárias. Mais significativo do que o final de um romance que desabrochou de forma um tanto quanto forçosa, enquanto o terrível Dwight Schrute Mudd explodia a nave por repetidas vezes na tentativa de obter vingança – e roubando nosso tempo de tela desta real preciosidade.

Embora tenha sido certamente recompensadora em si mesma, grande parte do peso desta reviravolta não estava na revelação pura e simplesmente, mas naquilo que ela prometia. Além de enganar a todos nós, nos fazendo ir aceitando gradativamente seu pragmatismo amoral como necessário na lida com a guerra, a falcatrua de Lorca abriu ramificações interessantes para os arcos pessoais de praticamente todos os nossos personagens centrais, além de surgir como um curinga no impasse entre a USS Discovery e a ISS Charon. Assim, surpreende a forma como o episódio desta semana encaminha rapidamente todas essas questões em torno de um desfecho único e, de certa forma, linear. Não se trata de um desfecho decepcionante ou que falhe em resolver de forma empolgante as subtramas a que se propõe. Falo mais no sentido de uma oportunidade perdida em ir até o fim em algo que se iniciou em Despite Yourself, e que agora dá lugar a uma nova (e menos interessante) reviravolta, sem que se tenha dado tempo de colher todos os frutos da reviravolta anterior.

A rebelião de Lorca tem sua boa cota de momentos excitantes, em especial em uma realização visual acertada sob a direção de Olatunde Osunsanmi. Trata-se de uma mistura muito bem realizada dos efeitos especiais cinematográficos com cenas de ação que, em sua essência, são ainda derivadas da arte milenar do Kirk Fu: chutes, socos, voadoras e espadas em meio a tiros de phaser e campos de força pra dar conta de resolver um conflito em torno do trono de um império multiplanetário e uma singularidade cósmica que ameaça toda a vida no(s) universo(s). Ninguém em sã consciência argumentaria contra isso! O problema é que o caminho que nos leva até lá deixa um pouco a desejar quando lido como o último capítulo no ardiloso plano de longo prazo traçado por Lorca.

A interpretação de Jason Isaacs consegue preencher exatamente as necessidades do roteiro, nos apresentando um Gabriel violento, sem limites e inescrupulosamente focado em seus objetivos de vingança e dominação. É como se o quebra-cabeça finalmente se formasse, como se percebessemos que o Lorca que conhecíamos até então era só uma parte de um todo, como se lá no fundo já soubessemos que faltava algo essencial desde sempre. O capitão, vestido e agindo como seu “eu verdadeiro”, faz mais sentido do que nunca, e isso é um testemunho a favor de um bom trabalho com o personagem. Do alto dessa revelação bem construída, ele declara que jamais chegaria até onde chegou se não tivesse um plano, de forma a desafiar a imperatriz Georgiou (Michelle Yeoh), fazendo a figura até então aparentemente onipotente tremer nas bases. É certo que o agora ex-capitão da Discovery é muito eficiente em angariar apoio de seus antigos seguidores e chegar até a cúpula do governo, submetendo a ISS Charon ao seu comando. Porém a forma como isso é feito – a última etapa do intrincado plano de Lorca – não é desenvolvida como algo mais complexo do que uma estratégia militar padrão. Considerando o que está em jogo e o tempo que passamos armando o palco até aqui, o conflito final se dá de uma forma que não foge muito do previsível, ou seja, de um conflito armado/Kung Fu espacial sem grandes surpresas, onde o vilão acaba derrotado.

É verdade que em paralelo a este desenvolvimento temos a forma como a relação entre Michael e a imperatriz Philippa toma um giro de 180 graus, em direção a uma até então improvável aliança. Enquanto que do lado do desenvolvimento de personagem temos um acerto aqui, com os interessantes paralelos (ainda que não muito sutis) em que ambas lidam com o luto pela equivalente da outra de seu universo, isso acaba por ter pouca consequência nos desfechos do enredo uma vez que o ocorrido todo escoa rápido demais para que tenhamos a impressão de que ambas se viram realmente encurraladas a ponto de deixar de lado suas diferenças abissais, e o plano preparado pelas duas dificilmente convenceria o ardiloso capitão (não convenceria nem a mim, que nunca me infiltrei por meses num universo paralelo pra tramar uma vingança!). A ameaça de Lorca é tão passageira que cai no ramo do abstrato, inclusive sua recém-revelada obsessão por Michael, que ganha relativamente pouco tempo para que possamos digeri-la e assimilá-la de forma a garantir que sua derrota tenha o impacto necessário. Temos um esclarecimento a respeito do que o Stamets (Anthony Rapp) espelhado fez para gerar a corrupção na rede micelial, mas nada de um confronto de intelectos entre as versões opostas do cientista genial, o que é mais uma oportunidade perdida.

Se do lado da ISS Charon as coisas tomam um caminho um tanto linearizado, na USS Discovery temos Saru (Doug Jones) roubando a cena novamente, mostrando que, se existe meritocracia na Federação, ele deve ser quem assume a cadeira deixada por Lorca sem sombra de dúvida. O ótimo desenvolvimento do arco do kelpien tem sido uma excelente surpresa nestes dois últimos episódios, nos quais acompanhamos ele enfrentando sua maior dificuldade – o medo – ao ponto de conseguir inspirar sua tripulação a fazê-lo e, com isso, libertarem-se para operar em suas máximas capacidades e resolver de maneira efetiva a crise em que se encontram. A forma como, trabalhando juntos, Saru, Stamets, Tilly (Mary Wiseman) e o restante da tripulação dão conta de fazer o que parecia impossível, com uma manobra engenhosa e muito bem pensada que deu conta de acabar com a ameaça da bioarma de esporos e, de quebra, mandá-los de volta pra casa é o tipo de coisa que está no DNA de Star Trek, o tipo de coisa que nunca será demais ver – ainda mais de forma tão bem realizada como aqui.

Tanto a forma como o plano é exposto quanto a realização visual do complicado salto de esporos ao final são alguns dos pontos altos do episódio, mostrando o heroísmo da Federação no que tem de mais interessante. É fantástico ver que a tripulação se vê aniquilada no dilema ético entre suas vidas e a vida em todo o multiverso, sabendo que sua moral os impediria de fechar os olhos para isso que sabiam estar em jogo, apenas para, sabendo que nada tem a perder, conseguir tirar essa vitória da cartola, sob o comando preciso de Saru. Foi desse tipo de profundidade que senti falta no embate entre Michael e Lorca, que apenas colocou em movimento as premissas que já conhecíamos dos personagens, sem haver nada de muito novo em termos de seu desenvolvimento.

Independentemente de Gabriel Lorca ter sobrevivido ou não ao que ocorreu (já que, quando se trata da rede de micélios, é tudo um grande mistério – e é bem estranho que eles deixem escapar o carisma deste vilão cuja preparação foi tão cuidadosamente realizada), o fato é que a forma como seus planos são frustrados parece simples demais após tamanha preparação e com tanta coisa envolvida. Ou seja, não é propriamente a morte do personagem que incomoda (ainda que seja intrigante que tenham feito isso tão cedo), mas sim sua derrota tão prematura e…fácil! A impressão que fica com o retorno para o universo regular é que “andamos para trás” de certa forma, estranhamente voltando para a trama já razoavelmente encaminhada da guerra com os klingons em detrimento do interessantíssimo conflito no Universo Espelho. Claro que trazemos a herança deste conflito com a presença ilustre da ex-Imperatriz, e é provável que boas surpresas nos aguardem nos episódios finais. Em todo caso, o final deste arco acaba infelizmente sendo seu elo mais fraco – ainda que aproveitável, aquém de uma preparação fantástica.

What’s Past is Prologue é um misto de acertos e erros – longe de ser um passo em falso, é certo que o episódio acaba tendo dificuldade em fazer jus às lebres que foram levantadas ao longo dos últimos capítulos. Após passar três episódios inteiros explorando o Universo Espelho, o desfecho principal do plano de Lorca é resolvido em apenas um, sem tempo para curtirmos seu novo status quo como vilão ou nada do tipo, com um roteiro bastante linear da parte da ISS Charon, ainda que com seus momentos no setor da USS Discovery. Deixando para trás um quase-finale com a sensação de que faltou tempo para desenvolvermos melhor as possibilidades do que estava em jogo ali (mesmo porque, depois de salvar toda a vida no multiverso é difícil se superar em um desafio gradativo), nos dirigimos em relação ao verdadeiro finale com a expectativa de que, com seu fechamento, tenhamos um todo mais harmonioso do que o que nos parece até agora.

Star Trek: Discovery – 1X13: What’s Past is Prologue — EUA, 28 de janeiro de 2018
Showrunners:
 Gretchen J. Berg, Aaron Harberts
Direção: Olatunde Osunsanmi
Roteiro: Ted Sullivan
Elenco: Sonequa Martin-Green,  Doug Jones, Shazad Latif, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Rekha Sharma, Emily Coutts, Oyin Oladejo
Duração: 48 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.