Crítica | Star Trek: Discovery – 1X14: The War Without, The War Within

– Contém spoilers do episódio. Leiam nossas críticas dos filmes e séries de Star Trekaqui.

Após amarrar as linhas narrativas do arco do Universo Espelho de uma forma um tanto condensada em What’s Past is Prologue, o episódio de Trek desta semana se propõe a ser, compreensivelmente, um momento de retomar o fôlego antes da aguardada conclusão desta primeira temporada de Star Trek: Discovery. Felizmente, não é só isso que o episódio dessa semana consegue cumprir. Já ao final do capítulo anterior foi deixado claro que a Guerra Klingon voltaria a ocupar um lugar central para este desfecho, o que trouxe preocupações por parte dos espectadores a respeito da estrutura desta reta final da história. Este retorno ao universo regular consegue atenuar em certa medida tais ansiedades, “colocando ordem na casa” ao mesmo tempo em que encaminha nossa narrativa rumo ao fim de forma significativa.

Mais do que simplesmente uma pausa para respirar e elaborar os eventos da cataclismática jornada da USS Discovery pelo universo paralelo, The War Without, The War Within toma seu tempo para adereçar importantes questões relativas ao desenvolvimento de personagens, não somente abrindo caminho para um finale mais carregado de ação mas também de significado, uma vez que nos inteiramos tanto do plano de ação para a tentativa desesperada de virar a maré da guerra, quanto dos lugares em que nossa tripulação se encontra pessoalmente após a sequência de eventos pelos quais passaram na última viagem. Como bem disse Sarek (James Frain), a tripulação da Discovery passou por provações inconcebíveis – sendo que é mais do que necessário que examinemos elas para dar sentido à coisa toda antes de passarmos para a derradeira batalha contra os klingons.

Por falar em Sarek, destaco de cara a presença dele e da Almirante Cornwell (Jayne Brook) como adições importantes para que a jornada de volta para casa funcione tão bem. Fugindo de uma possível representação da Federação como um grande maquinário burocrático, a presença de Cornwell funciona muito bem para trazer uma perspectiva externa preocupada com a prospectiva do retorno inesperado da Discovery em meio ao delicado momento em que a guerra se encontra, porém ainda humanizada o suficiente para trazer o peso necessário à situação para nós espectadores, que nos desprendemos do universo regular já há tanto tempo. Por sua vez, a calma racional de Sarek, contracenando aqui com seu óbivo espanto frente aos acontecimentos recentes traz o gravitas necessário à situação, além de proporcionar um paralelo interessante com o Sarek rebelde de The Wolf Inside. Consequências cronológicas dessa “nova-antiga” Guerra Klingon à parte, é notável como a série tem sucesso em, em uma espécie de bottle episode praticamente inteiro confinado aos limites da Discovery, passar um senso de realismo a respeito do quão encurralada a Federação se encontra mediante os klingons que, mesmo desunidos, se tornaram uma força destrutiva por toda a galáxia e que agora se aproxima da própria Terra.

As interações entre Sarek e Michael (Sonequa Martin-Green) estão entre os momentos dramáticos mais interessantes do episódio, com as atuações de ambas as partes trazendo a sutileza necessária para nos apresentar um pouco da complexa dinâmica familiar vulcana. Martin-Green, de maneira geral,  entrega aqui um de seus episódios mais fortes, nos mostrando lados de Michael que não havíamos visto desde que começamos a acompanhar suas aventuras na Frota Estelar. A atuação de Frain como Sarek complementa perfeitamente tais cenas, com destaque para a belíssima despedida dos dois, em que temos a chance de ver também um lado raro de Sarek – aquele que se apaixonou por Amanda Grayson e seguiu o sentimento como se fosse lógico, sem se importar pelo detalhe de ser ela uma humana, e que fala da experiência ao aconselhar Michael a respeitar o que sente (mesmo que seja em relação a um klingon assassino com ossos recompostos e órgãos costurados, é o que ele quer dizer).

A aguardada confrontação com Tyler (Shazad Latif) é uma das passagens mais convencentes da atribulada relação entre os dois, e um raro momento emocional em que vemos Michael mostrando alguma fragilidade. Não é para menos – foram necessários o choque cultural com a vida no Império Terrano, a traição de Tyler e Lorca e o reencontro com sua falecida capitã Georgiou (Michelle Yeoh) – nesta realidade uma imperatriz escravagista – para que o lado humano de Michael sobresaísse à sua criação vulcana. É bastante enriquecedora para a personagem a forma como toda essa construção é bem aproveitada aqui. No entanto, em termos de Tyler o grande destaque acaba ficando mesmo para a confrontação com Stamets (Anthony Rapp), uma cena rápida e desconfortável muito bem realizada através da direção cuidadosa de David Solomon.

Também temos mais uma boa demonstração das capacidades de liderança do capitão-em-exercício Saru (Doug Jones), que infelizmente é um pouco jogado para escanteio pela presença de  Cornwell e, ao final do episódio, acaba tendo que ceder a cadeira para a “Capitã Georgiou”. O kelpien continua a ser um dos grandes destaques da série, e é bem legal vê-lo agir de forma tão cuidadosa com toda sua tripulação em meio à complicada crise em que se encontram, em especial com Michael e em relação a tudo que envolve o klingon infiltrado Voq/Tyler. Acredito que em parte o que cativa nele é que, dentre os arquétipos da tríade sagrada da série original, Saru não se aproxima mais nem do ethos de Kirk nem do logos de Spock, mas sim do pathos de McCoy, uma escolha bastante acertada para uma posição de liderança em meio a uma história onde predomina uma tonalidade mais sombria, como é o caso de Discovery. Ainda tenho fortes esperanças de vê-lo na cadeira do capitão em uma temporada futura!

Para além do drama interpessoal, o episódio encontra tempo para explorar o plano de ação da Discovery com vistas a mudar o balanço de forças na guerra, o que envolve não apenas uma sequência explicativa do que nos aguarda no finale mas também uma rápida subtrama em que vemos Stamets se utilizando de tecnologia de terraformação para criar esporos de forma rápida o suficiente para serem utilizados nesta investida final. Trata-se de um enredo simples e um tanto linear, mas que é muito bem realizado visualmente e que se aproveita da situação para reencontrar um senso de equipe em nossa tripulação, que parte rumo a destinos incertos. O quão incertos? Incertos do tipo: realizar um salto com o motor de esporos direto para o centro do planeta-natal klingon, Qo’noS. OK, isso parece incerto o suficiente para mim!

O plano de inserir a Discovery no interior de Qo’noS desperta muita curiosidade frente ao fato de que se trata de uma sugestão de ninguém menos que a Imperatriz Terrana Georgiou, que para nos poupar de qualquer especulação desnecessária já deixou claro, via conversa misteriosa com Sarek (após uma rápida e inusitadamente hilária discussão de pais adotivos de universos diferentes a respeito de Michael), que sim, possui uma agenda própria que envolve se usar da situação para reconquistar sua liberdade – seja lá o que for que ela entenda por isso. Em tempos de desespero, como na situação em que a Federação atualmente se encontra, é compreensível a tentação em aceitar ajuda até mesmo de tal figura… Que Sarek e Cornwell estejam prontos para encarar as consequências da decisão (e que Michael deixe um espacinho reservado na lista quilométrica de coisas pelas quais se culpar também, por via das dúvidas)!. Em todo caso, além do fator de imprevisibilidade trazido pela absurda indicação à cadeira de capitã da Discovery (mais um e o Universo Espelho já pode pedir música no Fantástico), o plano traz uma premissa bem interessante e inovadora para nosso final de temporada, oferecendo os necessários elementos de sci-fi para que não tenhamos uma resolução embasada apenas no conflito político e militar, temor compreensível por parte de muitos espectadores (este que vos fala incluso).

Mesmo com toda essa preparação para o finale se dando dentro de um ritmo bem acertado, permanece a impressão de que a história que é contada aqui poderia se beneficiar largamente de mais tempo de tela. A disseminação de atos de violência descoordenados por parte das diferentes casas klingon, sem liderança após a derrota do General Kol nas mãos (ou, melhor dizendo, nos canhões de phaser) da USS Discovery em Into the Forest I Go poderia facilmente render no mínimo um episódio para nos situarmos de forma ainda mais precisa no contexto atual da guerra. Mostrar é sempre melhor do que falar sobre, e seja qual for a medida que Georgiou prepara para a retaliação contra os klingons (tudo indica que não será uma bandeirola branca), o peso e o caráter eminentemente necessário da decisão ficariam melhor construídos se pudessemos presenciar o terror klingon “em carne e osso”, em meio a sociedade civil e no chão dos planetas afetados e não apenas no gráfico esquemático a bordo da nave.

Tratam-se de opções da produção, e penso que a série priorizou narrativas que construíram sobre o tradicional de forma relativamente experimental do que o percorrer de territórios já bem conhecidos, como seria o caso de se debruçar sobre os efeitos das investidas klingon. Por outro lado, se formos apertar bem o cerco, tudo que vemos aqui é pelo menos em alguma medida derivativo em conteúdo – mas não em forma, o que confirma o interesse em examinar essa situação sob as sensibilidades características dessa encarnação de Trek. Em todo caso, é difícil visualizar que o projeto ambicioso desta primeira temporada de Discovery tenha sido pensado inicialmente para uma temporada de 13 episódios. Mesmo com um ritmo acelerado e com episódios recheados de acontecimentos, a impressão que temos é que ficamos a alguns poucos episódios de distância de um formato ideal para este enredo, uma vez que a produção teve que se dividir entre construir uma narrativa focada em personagem, estabelecer toda uma tripulação e situá-la em uma era delicada da cronologia da série, narrar um conflito de grandes proporções entre a Federação e os klingons e desenvolver bem e sem pressa uma trama longa envolvendo o Universo Espelho. Que a série tenha realizado tudo isso de forma tão precisa em apenas 14 episódios por si só já é louvável e atesta a favor da qualidade da produção.

Tomando um necessário tempo para retomar o fôlego e passar pelas consequências dos diversos acontecimentos bombásticos do último arco, The War Without, The War Within tem sucesso em explorar praticamente todo elenco de personagens e preparar o terreno para um conflito final que começa com uma premissa intrigante. Que destino aguardará nossa tripulação no planeta natal klingon (leia-se dentro do planeta), sob a liderança da imperatriz terrana? Embora fique o desejo de que a série tivesse um tiquinho a mais de tempo para trabalhar com calma todos esses pontos – e toda a Guerra Klingon de forma geral – é certo que a produção faz aqui um trabalho sólido em explorar de forma notável as resultantes dos eventos mais importantes dessa segunda metade da temporada e, com isso, realizar o necessário amarrar de pontas soltas, encaminhando bem o enredo para sua conclusão. Rumamos para um final de temporada que promete muito!

Star Trek: Discovery – 1X14: The War Without, The War Within — EUA, 4 de fevereiro de 2018
Showrunners:
 Gretchen J. Berg, Aaron Harberts
Direção: David Solomon
Roteiro: Lisa Randolph
Elenco: Sonequa Martin-Green,  Doug Jones, Shazad Latif, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Jayne Brook, Mary Chieffo, James Frain, Emily Coutts, Raven Dauda
Duração: 48 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.