Crítica | Star Trek: Discovery – 1X15: Will You Take My Hand?

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– Contém spoilers do episódio. Leiam nossas críticas dos filmes e séries de Star Trekaqui.

Ao longo dos quinze episódios que compuseram esta primeira temporada de Star Trek: Discovery, acompanhamos o desenrolar de uma complexa e multifacetada história envolvendo a Guerra Federação-Klingon, a tecnologia do motor experimental de esporos da USS Discovery e o Universo Espelho. Ao contrário do que poderia sugerir a tradição, a forma como nos inteiramos de todos estes acontecimentos não foi a de um encadeamento de capítulos episódicos mostrando nossa tripulação lidando com momentos pontuais de uma trama maior. A bem da verdade, ao término do primeiro episódio não tínhamos nem mesmo um vislumbre de qual seria a dita tripulação – ou mesmo da própria USS Discovery.

Desde o início, acompanhamos a oficial Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) em seu desafortunado encontro com a Nave dos Mortos de T’Kuvma, no que se revelou uma engenhosa armadilha do guerreiro e auto-proclamado líder messiânico klingon para tentar unir as casas divididas de seu povo sob uma causa única: o ódio à Federação e ao que ela representa. Uma vez que acompanhamos toda a guerra que se desenrolou a partir desta que ficou conhecida como a Batalha das Estrelas Binárias a partir do enfoque na perspectiva pessoal de Burnham, é uma opção compreensível que todo seu desfecho e com isso o fechamento das tramas centrais da temporada se deem com um retorno aos temas de personagem que deram origem à coisa toda.

Will You Take My Hand? espelha assim alguns dos elementos centrais de The Vulcan Hello / Battle at the Binary Stars: a relação entre Michael e sua admirada capitã Philippa Georgiou (Michelle Yeoh), sua trágica experiência de um violentíssimo ataque klingon, o embate ético entre os valores da Federação e os tempos de guerra, o motim como forma de tentar defender esses mesmos valores frente a uma liderança considerada insuficiente – agora com os papéis de Burnham e da Federação astutamente invertidos. A diferença central é a de que enquanto estes elementos foram bem trabalhados na abertura em duas partes da série, aqui na outra ponta eles são entregues de forma um tanto bagunçada e significativamente menos eficaz.

Dando seguimento ao plano iniciado em The War Without, The War Within, a USS Discovery parte para um salto de esporos no interior do planeta natal klingon, Qo’noS, o que acaba resultando em uma missão para uma equipe de desembarque em um planeta desconhecido – um bastião da série que se fez bastante raro ao longo desta temporada. Temos a “capitã” Georgiou selecionando uma interessante equipe, a preparação de disfarces e diretrizes da missão, com direito a sala de teleporte e tudo mais. A investida visava realizar um suposto mapeamento da geografia do misterioso planeta, do qual pouquíssimos dados são conhecidos, a fim de possibilitar uma investida estratégica da Federação, desesperada e acuada por um conflito do qual tem saído derrotada.

O mais próximo que tivemos de uma missão nestes moldes até então fora Si Vis Pacem, Para Bellum, onde em todo caso o foco acabou recaindo sobre a relação entre Michael e Ash (Shazad Latif). O roteiro faz um uso interessante da premissa clássica da missão de exploração e intervenção, empolgando com uma equipe de desembarque formada por personagens já bastante conhecidos de contextos mais próprios a esta nova versão, envolvidos agora em uma trama típica de Trek, com o twist da liderança imprevisível da Georgiou espelhada. Por outro lado, a forma como a produção opta por realizar Qo’noS é menos interessante do que poderia ser, evocando a imagética já bastante explorada de um povoado de “fim-de-mundo” espacial, com direito a caóticos mercados ao ar livre e uma sórdida boate alienígena, em detrimento de qualquer algo de novo que fosse que pudesse nos ajudar a ter algum insight sobre os próprios klingons nestes tempos de guerra.

Embora em princípio e a despeito disso a breve aventura pareça bastante interessante, é difícil ignorar o fato de que a natureza urbana e o contexto multi-espécies do local não são exatamente o que se esperaria de um roteiro que busca investigar o berço de um império klingon dividido, especialmente após a forma como ele nos fora mostrado ao longo desta versão. A inclusão dos orions funciona como um dos muitos acenos ao lore de Star Trek (e, curiosamente, não o único que aborde em específico o episódio piloto da série original), mas com o tempo de tela relativamente estreito para resolver as tramas de toda a temporada, a adição não se prova mais significativa do que um elemento cosmético – um aceno para os fãs, sem papel efetivo no desenvolvimento da narrativa. Infelizmente, não se trata do único destes aqui.

Para uma aventura em seu planeta natal, é notável que vejamos relativamente poucos klingons ao longo de todo o episódio, com mais falas atribuídas aos orions do que aos próprios antagonistas da Federação, com exceção de L’Rell (Mary Chieffo) e do lado Voq de Tyler (o qual protagoniza uma boa cena onde joga um jogo de apostas com seus insuspeitos confrades). A missão de nossa equipe acaba se revelando algo extremamente simples, ao ponto de jogar uma luz pouco favorável sobre o processo de tomada de decisões e a ética de Sarek (James Frain) e da Almirante Cornwell (Jayne Brook). Afinal de contas, para bolar uma infiltração em Qo’noS que consistia em sair interrogando alguns sujeitos duvidosos a respeito de um lugar para lançar uma bomba, era mesmo necessário pedir ajuda e conceder a patente de capitã a uma nativa do perigoso Universo Espelho (logo após o episódio terrível de infiltração envolvendo Lorca, ainda por cima)?

De maneira geral, a presença da Imperatriz Georgiou acaba não sendo muito bem justificada, provando ter sido em certa medida inserida na história por puros motivos de roteiro, garantindo que tivéssemos Michael e Philippa interagindo aqui em um paralelo com o ocorrido na abertura da temporada. O maior sentido em ser ela e não algum outro agente da Frota Estelar a segurar o detonador da bomba fala mais de uma tentativa da Frota e da Federação em realizar um genocídio com as mãos lavadas (delegando a culpa a uma terrana) do que da necessidade do gênio tático ou da experiência de Georgiou – e o primeiro ângulo é completamente passado a largo após a cena da ameaça de motim por parte da Discovery. A atuação de Michelle Yeoh é empolgante como sempre, e temos momentos explorando lados seus até então não vistos, mas nada disso se prova necessário ou ao menos significativo para garantir um bom fechamento às tramas centrais da temporada. O mesmo pode-se dizer das ótimas cenas de humor com a sempre divertida Tilly (Mary Wiseman), que funcionam para dar corpo ao episódio, sem no entanto ornar muito bem com a tonalidade que a situação exigia. Material muito bom, utilizado na hora errada. Tratam-se de escolhas estranhas para investir o escasso tempo de tela que tínhamos para adereçar tantas questões e encerrar uma guerra que quase pôs fim à centenária Federação de maneira mais significativa do que um semi-cop out.

Estas inserções são sinalizadoras de algo perceptível em geral ao longo da temporada, de maneira mais marcada do que nunca neste episódio: uma certa crueza do roteiro, como se o enredo passasse por checkpoints necessários e pré-estabelecidos sem que no entanto eles contribuíssem para um todo harmonioso narrativamente. Assim o foi de forma mais evidente com o relativamente desapontador final do arco do Universo Espelho, What’s Past is Prologue, seguindo a ocorrer nos dois episódios seguintes de forma marcada. Que fique claro: tratam-se mais de inconsistências pontuais na hora de amarrar o todo do enredo do que de um problema estrutural que tire os méritos de tudo aquilo que a produção atinge com precisão. Nos momentos em que funcionou e tomado sob uma perspectiva panorâmica, tivemos um arco sólido e uma primeira temporada acima da média para a série, que acabaram mal refletidos em uma reta final em que ficou ausente o polimento presente em seus melhores momentos.

Ao contrário do que se poderia ter pensado ao final do episódio anterior, o encaminhamento da missão impossível rumo ao núcleo de Qo’noS não envolvia nenhum plano mirabolante e arriscado em meio ao qual veríamos a tripulação da Discovery se envolver com seu inevitável dilema ético. Tal dilema estranhamente se resume aqui a: “uma maluca com uma bomba de nêutrons portátil pronta para detonar um planeta cheio de civis sob autorização explícita da Federação – como agir?”. Premissa eficiente em colocar muito em jogo nas decisões de nossa tripulação, mas não como exploração de possibilidades inesperadas de enredo. Não há nenhum elemento de ficção científica mais imaginativo do que a troca de um drone por uma bomba, nenhum elemento de construção de personagem mais nuançado do que a confrontação entre Michael e Philippa no subsolo, que começa muito bem e traz até uma boa exploração dramática das personagens (ainda que apressada e reeditando muito de seus encontros anteriores), mas que acaba se resolvendo rápida e desajeitadamente com uma chegada repentina de L’Rell – que repentinamente ganha confiança por parte da tripulação e aceita tomar frente em uma investida pela paz.

Por outro lado, temos um excelente resgate das temáticas da Batalha das Estrelas Binárias, com Michael se dando conta da violência que sua tripulação estava prestes a promover e disposta a realizar até mesmo um motim para ir contra suas ordens superiores: não mais para ter o ataque pré-emptivo e fazer o que fosse necessário para vencer em batalha, mas para demonstrar empatia com um inimigo implacável, pensar fora da caixa mesmo que seja contra todas as probabilidades possíveis. O intento de Burnham permanece o mesmo: são suas experiências que a tornaram melhor informada para agir conforme o contexto atual exigia, ou seja, é a situação que favoravelmente mudou. Aqui temos que dar o crédito a um bom aproveitamento do personagem de Ash/Voq. Para além do valor de choque do twist bem construído com o romance de Michael, o agente infiltrado acaba lançando luz sobre a dinâmica da guerra sob uma perspectiva única, uma vez que é capaz de vê-la sob ambas.

A redenção de Michael não se dá assim como uma transformação radical sobre a personagem, mas como uma forma de possibilitar que seu senso ético, sua forma pessoal e muito própria de interpretar as diretrizes da Federação tivessem uma segunda chance de se provarem valiosas (pois para isso, afinal de contas, são possíveis segundas chances), como o foram quando ela confronta Cornwell na ponte de comando da Discovery, recebendo o apoio dos oficiais presentes, inclusive de Saru (Doug Jones) e dos companheiros que antes a culpavam pela tragédia da USS Shenzhou. A ciclicidade significativa desta cena mostra aqui o quanto a tripulação se desenvolveu neste curto espaço de tempo, e é o tipo de momento do qual deveríamos ter tido mais ao longo do finale. Em contrapartida, a redenção da dupla klingon Voq e L’Rell se dá de forma extremamente acelerada, desperdiçando a oportunidade de trazer algo à mesma altura. Para uma série que investiu tanto em cenas alongadas interpretadas apenas em linguagem klingon, é bastante estranho o quão enxuta é a participação dos antagonistas neste episódio. Assim como nós não presenciamos em primeira mão os efeitos da guerra, graças ao skip de 9 meses após a viagem para o Universo Espelho, o desenvolvimento final desses importantes personagens e, principalmente, de todo o Império Klingon acaba sendo vítima da enfermidade do “falado, porém não mostrado”.

Os destinos efetivos de L’Rell e Voq são condizentes com seus arcos pessoais, e as interpretações de Chieffo e Latif não ficam aquém do necessário para que tenhamos acesso a eles. O problema é a forma acelerada com que tudo ocorre, com diálogos expositivos excessivamente econômicos e cortes bruscos de cena. Vemos L’Rell sendo espancada pela tentativa de Georgiou de interrogá-la. Da próxima vez em que a vemos, ela já está vestida com seus trajes klingon e tendo simplesmente aceitado a proposta de liderar os klingons para fora da guerra. Há no mínimo uma cena intermediária faltando aí, e se tratando de um ponto central para a trama, é uma falta que acaba pesando. Claro que existe subtexto o suficiente para embasar o sentido do que ocorre – mas isso não pode servir de justificativa para esse tipo de atalho, uma vez que muito do impacto dramático desse desenvolvimento acaba se perdendo aqui. A despedida entre Ash e Michael traz um ótimo diálogo, porém a entrega de Latif deixa um pouco a desejar e – novamente – a coisa parece acontecer de forma apressada demais, em comparação a como a série vinha abordando tais momentos.

Tais distorções se agravam com a pressa em nos fazer alcançar a narração externa de Burnham, que descobrimos acontecer na sede da Federação em Paris, já na segurança da Terra e sob um otimismo renovado recém-encontrado. Somada à aparição da Enterprise, o conjunto todo dessas sequências finais pode parecer dedicado a se não quebrar, ao menos abrir uma bela rachadura na quarta parede, através da qual os personagens parecem querer nos dizer: “Fiquem tranquilos, nós vamos melhorar, nós vamos voltar a ser o Star Trek que sua nostalgia pede, era essa nossa intenção o tempo todo!”. É claro que brinco e exagero aqui, mas sem dúvida há algo nesse finale que tenta (como se fosse necessário) mostrar que a produção é capaz, sim, de encarnar a versão otimista da franquia – mas o modo como a mão pesa nessas sequências, somado ao caminho curto utilizado para chegarmos até aqui sabotam um pouco desses belos momentos. Mas não de todo.

Mesmo com todas essas reservas, é gratificante ver nossa tripulação sã e salva aqui, recebendo o devido reconhecimento pelas inúmeras provações pelas quais passaram – ainda que pudéssemos ter nos detido com mais calma sobre algumas delas. Assim, as maiores faltas do episódio se dão em sua realização mais do que em suas premissas. O mesmo pode-se dizer desta primeira temporada de maneira geral. Em termos de conteúdo, o roteiro traz elementos o suficiente para carregar um finale carregado de temáticas relevantes, ainda que com pouca ação e jogando para escanteio jogadores centrais da temporada como Saru e Stamets (Anthony Rapp). É no âmbito da forma que a coisa acaba ficando aquém do próprio potencial: saltamos de uma intercalação prolixa em meio à periferia dos orions para uma rápida disputa em torno da bomba, que rapidamente desemboca em uma paz que parece chegar de forma muito mais repentina do que deveria e então “epa, peraí, é a Enterprise?”. Comparado ao extremo cuidado em armar o palco da guerra ao longo de praticamente três episódios, vemos aqui um exemplo da inconsistência de tom e ritmo que marcou esta temporada de estreia.

Mesmo nos momentos em que a série nos entregou episódios excepcionais como Into The Forest I Go e Despite Yourself, permaneceram sempre alguns pontos mal justificados no contexto inicial de sua apresentação, que o bom-senso do espectador provavelmente o fez deixar em aberto em favor de futuros desenvolvimentos. De certa maneira o que ocorre em Will You Take My Hand? é uma amarrada a passos largos de todas essas brechas e aberturas possíveis, um estreitamento de possibilidades por assim dizer, em favor de uma conclusão um tanto forçosamente otimista que, se parece ganha, é mais sob o mérito dos excelentes momentos de episódios anteriores do que de algum evento climático deste finale que, por si só, joga seguro demais, rápido demais. Fica claro que, quando voltarmos para a segunda temporada, teremos novos encaminhamentos que, se forem retomar algo do que ficou “em aberto” aqui, será somente enquanto sequência, já que os arcos atuais se encontram para todos os efeitos finalizados.

O “twist” final é emblemático das dificuldades da série, atuando como a cortina de fumaça da vez, inserindo um encontro com a Enterprise do Capitão Pike, de todas as coisas, para sinalizar a empolgante jornada rumo ao “futuro”! A série parece ter tido mais esmero com seus cliffhangers do que com a resolução deles, vício que tende a cobrar seu preço. Que o período de produção da segunda temporada sirva para um amadurecimento da produção em torno de trabalhar melhor os (muitos) pontos fortes de sua identidade, deixar de lado a necessidade de surpreender em favor de seguir até o fim com suas premissas. Foi um grande ano para Trek, e uma primeira temporada cambaleante está longe de ser algo nunca antes ouvido para a franquia. No balanço total pode-se dizer que, mesmo com todas essas reservas, esta primeira entrada de Discovery foi excelente, ainda que sua inconsistência tenha minado algo de seu grande potencial. Fica a torcida para uma produção mais suave e centrada para o seguimento da série, que certamente merece uma vida longa (e próspera)!

Star Trek: Discovery – 1X15: Will You Take My Hand? — EUA, 11 de fevereiro de 2018
Showrunners:
 Gretchen J. Berg, Aaron Harberts
Direção: Akiva Goldsman
Roteiro: Akiva Goldsman, Gretchen J. Berg, Aaron Harberts
Elenco: Sonequa Martin-Green,  Doug Jones, Shazad Latif, Anthony Rapp, Mary Wiseman, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Jayne Brook, Mary Chieffo, James Frain, Emily Coutts, Clint Howard
Duração: 48 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.