Crítica | Star Trek / Planeta dos Macacos: A Diretiva Primata

estrelas 4

Após o sucesso do crossover em quadrinhos de Star TrekDoctor Who, roteirizado por Scott Tipton e David Tipton, os dois irmãos foram abordados pela editora IDW na intenção de que encabeçassem um novo encontro de franquias, dessa vez Star TrekPlaneta dos Macacos. Com os direitos da série dos símios nas mãos do Boom! Studios, ambas as editoras trabalharam em conjunto para nos trazer A Diretiva Primata, minissérie de cinco edições na qual a tripulação da Enterprise, comandada por James T. Kirk, acaba indo parar na Terra dominada pelos símios.

A obra claramente se apoia no estilo narrativo da série original de Jornada nas Estrelas. Aliás, é importante observar que as aparências utilizadas são as da série e não do reboot encabeçado por J.J. Abrams em 2009, cinco anos antes da publicação da revista em questão. Dito isso, acompanhamos Kirk e os outros tripulantes da Enterprise enquanto eles investigam os rumores de que o Império Klingon está se preparando para a guerra. O que não esperavam, contudo, é que a raça rival da Federação construíra um portal que possibilita a viagem entre dimensões. Prontamente a Enterprise segue os klingons pelo portal, apenas para encontrar o planeta Terra dominado por símios, com os humanos todos incapazes de falar, à exceção de George Taylor.

Claramente estamos falando de uma obra à parte de ambas as cronologias das franquias, mas, se precisássemos localizar temporalmente, A Diretiva Primata se passaria logo após os eventos de O Planeta dos Macacos, de 1968, visto que encontramos Taylor, vivido no filme por Charlton Heston, próximo à Estátua da Liberdade em ruínas. Inclusive, é interessante notar como as reações dos personagens de Star Trek são substancialmente diferentes quando comparamos com as de George no filme original. Ambas as franquias surgiram mais ou menos na mesma época (dois anos de diferença), mas claramente a criada por Gene Roddenberry traz personagens com pensamento mais científico.

A principal ideia do crossover, como seu título já sugere, é o dilema em torno da diretiva primária da Federação, que proíbe qualquer uma de suas naves de interferir no desenvolvimento e progresso de uma raça tecnologicamente menos avançada. Tal questão entra em debate por estarmos falando de uma realidade paralela e, claro, isso gera o imediato conflito com George Taylor, o qual solicita a ajuda de Kirk para destronar os símios cruéis. Dessa forma, os irmãos Tipton fogem completamente do óbvio, estabelecendo três diferentes ameaças para a tripulação da Enterprise: os klingons, os símios e Taylor. Isso sem falar, é claro, no evidente respeito às obras originais, que são muito bem transpostas para as página ilustradas.

Os Tipton somente exageram consideravelmente no desfecho, o qual, apesar de oferecer uma solução, envolvendo o efeito estilingue, comum à série original de Jornada nas Estrelas, acaba desconsiderando os filmes posteriores de Planeta dos Macacos. Considerando todo o esforço observado para harmonicamente dialogar com ambas as obras, tal fator vem como uma certeira decepção, mas que, no fim, acaba não estragando a obra, a qual plenamente se sustenta pelo que veio antes.

Rachael Stott, estreante como artista de quadrinhos, faz um excelente trabalho ao captar as feições dos diversos personagens de ambas as franquias, além, é claro, da aparência dos símios, que se apoia naquelas dos filmes originais. Stott sabiamente não deixa o realismo entrar em seu caminho e consegue criar uma narrativa fluida, com personagens que muito bem criam a ideia de movimento, algo que nem sempre se faz presente quando levamos em conta adaptações ou materiais inspirados em obras cinematográficas. É importante notar, também, como a artista se apoia na clássica decupagem da série original de Star Trek, trazendo painéis que mimetizam a linguagem do seriado, seja através dos constantes closes ou a câmera over the shoulder. Tudo isso faz nos sentir como se assistíssemos mais um episódio estrelado por William Shatner, Leonard Nimoy e os outros icônicos atores.

Apesar de deslizar nos trechos finais, A Diretiva Primata é uma minissérie perfeita para os fãs de Star Trek Planeta dos Macacos, com roteiro e arte que profundamente respeitam os materiais originais, nos oferecendo um belo “e se” na forma de um crossover que funciona como uma mistura verdadeiramente homogênea. Depois de acertarem com Doctor Who/Star Trek, os irmãos Scott e David Tipton repetem o feito, mostrando verdadeiro domínio em adaptar filmes ou séries de ficção científica.

Star Trek/ Planeta dos Macacos: A Diretiva Primata (Star Trek/Planet of the Apes: The Primate Directive, EUA – 2014/15)
Roteiro: Scott Tipton, David Tipton
Arte: Rachael Stott
Editora original: Boom! Studios, IDW Publishing
Data original de publicação: dezembro de 2014 a abril de 2015
Editora no Brasil: Não publicado no Brasil
Páginas: 133

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.