Crítica | Star Trek: Portal do Tempo, de A.C. Crispin

estrelas 4

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Star Trek é um clássico do cinema e da televisão, trata-se de uma das marcas mais conhecidas de toda a cultura pop. Porém a saga não é uma grande conquistadora de novos fãs, sua força esta em seu fandom já conquistado, e não vemos a obra ter grandes forças entre crianças ou até mesmo adolescentes.

A Paramount, vendo esse “problema”, decidiu por reconstruir a a franquia, em 2009 o estúdio contratou J.J Abrams para dirigir e dar uma nova cara a toda a saga. Desde então, vemos uma grande tentativa de a remodelar, hoje já pudemos assistir ao terceiro filme do reboot, conhecido como Kelvin Timeline e uma serie de TV, produto de mais força da franquia, vem em 2017, distribuída pela Netflix. Surfando junto com essa tentativa, a Editora Aleph decidiu por republicar o livro Star Trek: Portal do Tempo, escrito por A.C Crispin.

A escritora já é uma conhecida no mundo nerd, foi a responsável por toda a trilogia de livros, que hoje possuem o selo Legends, do personagem Han Solo. Em seu prefácio, ela faz quase que uma declaração de amor a Star Trek. Essas linhas apaixonadas até chegam a parece um “justificativa” da autora que diz: se você não gostar do livro, nunca diga que eu não amo a saga.

Mas, o livro de Crispin não tem a necessidade de uma justificativa. O primeiro pensamento que tive a respeito do romance foi, por que tão pequeno? A obra possui apenas 240 páginas, curto comparado ao tamanho de conteúdo de seu material mãe. Depois de ler algumas linhas escritas pela autora percebi que o pequeno número foi um grande acerto. Crispin é objetiva em sua escrita, não faz rodeios, eles tem uma missão e vão cumpri-la, sem contemplações desnecessárias.

All Our Yesterdays é um dos episódios mais lembrados e adorados da terceira temporada da serie clássica, nele vemos que Spock, devido a uma viagem no tempo, se apaixona por Zarabeth. A missão é realizada e a tripulação volta para nave. Porém, mais coisas aconteceram na ausência do vulcano. A breve paixão de Spock dá frutos, e o menino Zar é gerado 5 mil anos no passado.

Logo nas primeiras páginas de Portal do Tempo vemos Spock descobrir que possui um filho preso no passado. Como a cultura do primeiro oficial tem seu pilar principal a família, o vulcano irá voltar no tempo, com o portal chamado Guardião, e resgatar seu descendente. É óbvio que quando Kirk fica sabendo de tudo isso, não deixa seu amigo ir sozinho, e quando a autora faz o leitor pensar que o médico, Magro, não vai embarcar nesse resgate, somos surpreendidos juntos com o capitão e seu oficial, e vemos McCoy entrar nessa aventura.

Escrever uma história com os três foi um grande acerto de Crispin, o mais esperado é que a trama fosse escrita só para os dois personagens mais famosos da saga, Kirk e Spock. Mas a autora mostra em sua decisão que realmente entende a franquia. Ela consegue desenvolver na obra a já conhecida relação de ego, super-ego e id que os três possuem. Vemos cada um realizando muito bem seu papel quando lhes é apresentado um conflito.

A.C não é certeira só em escrever os três, quando a narrativa passa a ser dentro da Enterprise, vemos que  a autora sabe desenvolver Sulu, Uhura, Scotty e até mesmo a própria nave é muito bem colocada dentro da narrativa. Ela lida corretamente com todo o esmero que a nossa conhecida tripulação tem com a nave mais importante de toda a frota.

O livro nos insere muito bem no cotidiano da Enterprise, narrando toda a relação que a tripulação possui. Por ser uma grande fã da saga, tudo que a autora coloca na trama é muito condizente com o material original. Vemos diálogos, artefatos, situações e lugares que realmente parecem ser tirados da série de TV.

Escrever sobre Star Trek é muito difícil, a série exige todo um conhecimento sobre elementos da física e até astronomia. Como os personagens principalmente vivem no espaço e convivem com algo muito desconhecido pelo público, é natural que os leitores se sintam perdidos na escuridão do novo, cabe a escritora a missão de fazê-los entender, de forma fácil, um conceito que não é conhecido por eles. Crispin cumpre essa tarefa, vemos uma narrativa que possui diversos elementos desconhecidos mas que não é de nenhum difícil entendimento.

Uma das maiores receitas para o sucesso de Star Trek é seu roteiro, por muitas vezes vemos o visual da série clássica não se sustentar, devido a diversos fatores, que vão de orçamento até a época na qual fora produzida. Todavia, quando os efeitos visuais caíam eram as linhas que sustentavam o seriado, é muito comum ouvir que a série é uma grande aula de roteiro. Isso é uma grande verdade, lá vemos uma escrita que consegue inserir assuntos políticos, preconceitos, dilemas e muito mais coisas dentro de sua narrativa, então escrever um livro sobre a franquia significa escrever uma excelente trama que leve sua “audiência” para uma grande reflexão.

Refletir, isso é algo que o livro de Crispin consegue fazer. A autora não aposta na complexidade da história para levar seu leitor a esse propósito, muito pelo contrário, A.C faz o básico. Ela apresenta um roteiro que não almeja ser algo que ele não é, e em sua simplicidade, vemos uma trama redonda e sem grandes erros surgir.

Mas nem só de acertos vive Portal do Tempo, o livro possui dois erros que não podem deixar de ser mencionados. Existe uma grande desaceleração na trama que acontece quase que em todo o segundo arco do livro. Entende-se que pisar no freio é, as vezes, necessário, porém essa pausa não deve acontecer de forma brusca. Alentar a história muito agressivamente fez com que quase toda a segunda parte do romance seja difícil de engolir.

Quando se cria uma história deve-se entregar o que se promete. Se o autor cria uma trama que naturalmente leva-nos para um grande final, e isso não é entregue, vemos um livro perder força. Crispin faz isso em sua narrativa, tudo indica que teremos uma grande batalha no final, tiros e manobras serão feitas e a ponte de comando entrará em estado de loucura. Mas quando essa grande batalha acontece, a escritora prefere focar em um núcleo de personagens que não está nela. Isso é muito decepcionante, é lógico que deve haver um equilíbrio, não podemos focar muito na guerra, como O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos fez, porque teremos algo muito repetitivo, porém não devemos esquecer completamente do embate que todo o livro prometeu. A falta de um grande encerramento é algo que tira um pouco do brilho final do roteiro.

Mesmo com esses deslizes, a obra escrita por Crispin trata Star Trek com o respeito e a reverência que a série deve ter. Nos é entregue uma obra que possui um roteiro que faz seu receptor refletir sobre a sua humanidade lendo sobre histórias de alienígenas. Portal do Tempo é realmente uma viagem pelo tempo, quando lemos ele, voltamos a ver as viagens da nave Enterprise, explorando mundos estranhos e audaciosamente indo onde ninguém jamais foi.

Star Trek: Yesterday’s Son (Star Trek: Portal do Tempo) — EUA 1983
Autor: A.C Crispin
Tradução para o português: Norberto de Paula Lima
Publicação original: 1983
Editora original: Pocket Books
Editoras no Brasil: Editora Aleph
Páginas: 256


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PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".