Crítica | Star Wars #1 a 6 (Marvel – 1977)

estrelas 4,5

Espaço: Órbita de Tatooine, Tatooine (Anchorhead, Mos Eisley, Mar de Dunas e Lar da família Lars), espaço profundo, Estrela da Morte, órbita de Alderaan, órbita de Yavin-4 e Yavin-4 (base rebelde)
Tempo: A Rebelião – Eventos logo anteriores à Batalha de Yavin, a Batalha de Yavin e eventos logo posteriores (a.BY e d.BY)

Há muito tempo, nessa nossa galáxia mesmo, quadrinhos baseados em obras cinematográficas eram raros e normalmente fracassos retumbantes. Em 1975, Charles Lippincott, diretor de marketing da recém-criada Lucasfilm, fez uma oferta a um certo Stan Lee de uma certa editora chamada Marvel: adaptar em quadrinhos o vindouro Guerra nas Estrelas! A resposta de Lee? Um retumbante não. Ele queria esperar o lançamento do filme para medir o sucesso. Mas Roy Thomas, então editor da empresa, conseguiu dobrar Stan Lee em uma segunda reunião e a editora fez um acordo quase inacreditável com a produtora: não haveria pagamento de royalties até que a Marvel atingisse o número de 100 mil revistas publicadas. Vejam bem, o acordo foi de graça para uma das maiores propriedades intelectuais do mundo. Mas faz sentido: em 1975 (e até maio de 1977, na verdade) Guerra nas Estrelas era apenas uma loucura espacial tirada da mente de George Lucas.

Com o sucesso do filme e as publicações já engatilhadas, o primeiro número foi lançado com data de capa de julho de 1977, o que significa que saiu, na verdade, em maio, simultaneamente à obra cinematográfica. Tratava-se do primeiro número de um arco composto de apenas seis que adaptava, completamente, o primeiro filme.

O próprio Roy Thomas ficou à frente do projeto tanto do lado editorial, quanto do lado do roteiro, recebendo ajuda também do sensacional Archie Goodwin, que embarcou de coração no projeto depois da saída de Thomas da Marvel. A arte ficou grande parte ao encargo de Howard Chaykin, mas também de Steve Leialoha e diversos outros artistas. Foi um trabalho hercúleo, difícil, mas que, assim como o filme, provou-se um sucesso retumbante ao ponto de o sucesso do projeto ter literalmente salvado a Marvel em 1977 e 1978 do colapso financeiro a que caminhava. E, lógico, as tais 100 mil edições que eram o gatilho para o início do pagamento de royalties também foi atingido rapidamente, permitindo também à Lucasfilm um novo veio de dinheiro e literalmente dando o pontapé inicial ao chamado Universo Expandido da franquia, hoje contando com dezenas e dezenas de livros e centenas de quadrinhos.

No entanto, não se enganem: o sucesso da empreitada da Marvel não se deveu apenas ao sucesso de Guerra nas Estrelas nos cinemas. O trabalho de Thomas/Goodwin/Chaykin/Leialoha nesse arco inicial é realmente muito bom, merecedor de todos os aplausos. Para começar, apesar de uma arte “em progresso” (mais sobre isso em um instante), é perfeitamente possível notar cuidado com o texto, em um roteiro bem cadenciado que consegue trabalhar todo o escopo do filme em apenas seis números de uma revista própria mensal.

O roteiro de George Lucas foi condensado em quadros eficientes sem que, porém, o leitor perca sequer uma sequência do filme. Aliás, muito ao contrário, pois a versão do roteiro usada para o trabalho de adaptação de Roy Thomas não foi o shooting script, mas sim a versão anterior, já que, claro, o trabalho começara bem antes. Com isso, muitas das cenas que hoje conhecemos apenas em razão das “edições especiais” de George Lucas constam das revistas. Mais precisamente, todas as sequências com Biggs, amigo de Luke Skywalker de Tatooine, estão presentes, antes do reencontro deles pouco antes da batalha de Yavin.

O mesmo vale para a controversa sequência em que Han Solo encontra Jabba no ancoradouro da Millenium Falcon. Hoje, essa sequência foi re-inserida no filme com o uso do Jabba que vemos em O Retorno de Jedi, criando uma das daquelas cenas sem a qual poderíamos facilmente viver. Afinal, ver Han Solo pisar no rabo de Jabba é absolutamente patético. Mas, nos quadrinhos – assim como no roteiro pré-filmagem – Jabba era apenas um homem, não um membro da raça lagartoide Hutt e acaba funcionando bem. Além disso, logo antes, para aqueles que já esqueceram, Han Solo mata Greedo a sangue frio, sem nem dar chance ao rodiano (ah, também aprendemos o porquê de Chewie não ganhar medalha ao final!).

Com certeza, nos dias de hoje, a leitura dessa adaptação pelos fãs tem um valor especial justamente em razão dessas sequências não utilizadas, que incluem, ainda, maiores menções à Força e a redução da ligação entre Darth Vader e Luke Skywalker (ele não sente a Força em Luke durante o dog fight ao final). Acontece que o trabalho de Roy Thomas tem ainda mais valor, por ser, até hoje, uma das melhores – quiça a melhor – adaptação do filme em quadrinhos.

Não só o roteiro estabelece um ritmo invejável desde o início, com a devida atenção a cada um dos personagens, como a arte, especialmente a partir do terceiro número, dá a verdadeira dimensão da saga espacial. E a evolução da arte é sensível mesmo. Howard Chaykin trabalha sozinho no primeiro número, valendo-se apenas das cores de Marie Severin. Com isso, a arte é crua, quase inacabada mesmo, com traços confusos, feições pouco expressivas e uma sequência de quadros tumultuada, até mesmo bagunçada.

Na medida em que Steve Leialoha, porém, primeiro como arte-finalista (no número 2) e, depois, como co-desenhista, arte-finalista e colorista (nos números 3 a 5), vai se embrenhando no trabalho de Chaykin, vemos uma melhor palpável, dramática mesmo. Os traços inacabados que vemos no primeiro número abrem caminho para um trabalho mais completo e belo nos seguintes, com especial destaque à ação dentro da Estrela da Morte e a preparação do ataque dos rebeldes. A progressão visual da narrativa se torna mais fluida, os personagens mais interessantes e a história ganha seu verdadeiro impulso, imediatamente engajando o leitor até o número final, quando Leialoha sai e é substituído por Rick Hoberg e Bill Wray, que conseguem muito bem segurar o traço de Howard Chaykin, criando memoráveis sequências de batalha espacial na difícil tarefa de reproduzir o trench run na Estrela da Morte.

O primeiro arco de Star Wars pela Marvel, no longínquo ano de 1977, estabelece o molde pelo qual todas as adaptações cinematográficas em quadrinhos se pautariam por décadas a fio. Além disso, esses seis números abrem caminho para a definitiva expansão desse fantástico universo imaginado por George Lucas. Um feito e tanto, não é mesmo?

Star Wars #1 a 6 (EUA, 1977)
Roteiro: Roy Thomas (também editor)
Arte: Howard Chaykin (#1 a 6), Steve Leialoha (#3 a 5)
Arte final: Steve Leialoha (#2), Rick Hoberg (#6), Bill Wray (#6)
Letras: Jim Novak (#1), Tom Orzechowski (#2 a 5), Lay & Royer (#6)
Cores: Marie Severin (#1), Steve Leialoha (#2, 3, 4), Glynis Wein (#5), Paty (#6)
Consultoria editorial: Archie Goodwin (#4 a 6)
Data de publicação original: julho a dezembro de 1977
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editoras (no Brasil): Editora Bloch, Editora Abril e DeAgostini
Páginas: 115

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.