Crítica | Star Wars #1 (Marvel – 2015)

estrelas 2

Espaço: Cymoon 1 (polo industrial coreliano)
Tempo: A Rebelião – Poucos meses após a Batalha de Yavin (d.BY)

É no mínimo profético lembrar que a Marvel Comics foi a primeira editora a publicar quadrinhos baseados na saga espacial de George Lucas. Afinal, a editora teve sucesso por 10 anos, entre 1977 e 1987. Em 1991, a licença foi passada para a Dark Horse Comics que fez um magnífico trabalho, expandindo ainda mais o universo de Star Wars, com publicações que continuaram ininterruptamente até dezembro de 2014. Depois que a Disney comprou tanto a Marvel quanto a Lucasfilm, a profecia se tornou realidade e Star Wars voltou a ser publicada debaixo do guarda-chuva da Marvel.

E, como não poderia deixar de ser, a Marvel investiu pesado em marketing para atiçar a curiosidade dos fãs que, por um lado, temiam e, por outro, ansiavam pela mudança. O trabalho da Dark Horse é difícil de ser seguido, ainda que, lógico, ela tenha sido cheio de altos e baixos. Mas o cômputo geral depois de 23 anos é muito positivo e invejável. Será que a Marvel daria conta dessa responsabilidade toda?

Com apenas um número de uma revista publicado, ainda é muito, mas muito cedo para sequer tentar especular. Se depender da vontade marketeira da Marvel, porém, que lançou a revista com mais de 100 (sim, 100!) capas diferentes para enlouquecer colecionadores ávidos e já anunciou duas outras publicações, Darth Vader e Princess Leia, além de encadernados gigantescos das coleções clássicas, esse projeto vai longe.

Mas vamos ao que interessa.

Star Wars #1 se passa algum tempo após a Batalha de Yavin, que é o marco pelo qual se conta os eventos do Universo Star Wars. Para aqueles que não sabem, essa é a batalha do final de Guerra nas Estrelas (ou Episódio IV, como preferirem), em que a primeira Estrela da Morte é destruída por Luke Skywalker. O arco, intitulado Skywalker Strikes (ou Skywalker Ataca, em tradução livre), mostra um plano de infiltração de Han Solo, Luke Skywalker, Leia Organa e Chewbacca em uma fábrica imperial de armamentos em Cymoon 1, aproveitando o momento mais “fraco” das forças do Imperador.

A operação em si lembra muito o plano de quase os mesmos heróis para libertar Han Solo das garras de Jabba em O Retorno de Jedi, o que coloca o leitor imediatamente em águas calmas, sem muitos riscos. O mesmo vale a escolha do tempo em que se passa a história, entre os Episódios IV e V, o único momento “entre filmes” que os mais famosos personagens desse universo podem ser usados simultaneamente. É um período fértil, sem dúvida, mas que também demonstra que a Marvel não quer arriscar nada.

Com isso, Jason Aaron, prolífico autor que já está com a Marvel há mais de 12 anos, trabalha em espaço confinado, mas tendo que, ao mesmo tempo, enxertar o máximo possível de personagens icônicos da saga. Não há nenhuma tentativa de se fazer mistério. Das primeiras duas páginas, em que vemos uma nave chegando a Cymoon 1, com um “enviado de Jabba” que logo se revela como sendo Han escoltado por Luke e Leia disfarçados de guardas Skiff, passando pelas posições estratégicas de Chewie e de C-3P0 e terminando com a revelação óbvia, mas ainda assim estranha que Darth Vader é o “negociador” que está chegando para negociar com quem Han Solo diz que é, tudo é muito corrido, acavalado e, no final, das contas, jogado nas páginas para atrair o máximo de leitores possíveis em detrimento de uma história realmente engajante, que constrói mistérios.

Novamente, trata-se do primeiro número de Star Wars pela Marvel em 28 anos e o início de um arco. Não dá ainda para saber que desdobramentos teremos. No entanto, isso não significa que esse primeiro número deva ser perdoado. Star Wars é um universo riquíssimo, que se vende sozinho. Não era necessário exagerar no recheio logo no primeiro número, com atos heroicos por Luke, trocas de farpas verbais entre Han e Leia e uma sensacional – mas talvez deslocada e certamente cedo demais – demonstração de poder por parte de Vader.

Em termos artísticos, John Cassaday faz um trabalho que encapsula muito bem o universo “tecnológico antigo” da série, com belos visuais aéreos e uma bem estruturada sequência final com Darth Vader. No entanto, seus rostos sofrem entre a tentativa de desenhar algo próximo dos atores, mas distante o suficiente para que não seja algo fotográfico. O resultado desaponta. O mesmo vale para seus equivocados usos de do que no cinema se convencionou chamar de “ângulo holandês” em que a imagem é levemente virada para a direita ou esquerda, com o objetivo de causar estranhamento (repare na imagem em destaque que escolhi para ilustrar a crítica). Ele usa esse artifício basicamente em todas as páginas, sem qualquer razão aparente, desgastando-o e cansando o leitor.

Mas a escolha que mais me causou espécie foi a mudança de roupa de Luke e Leia. Um detalhe? Não, não é. Os dois, como disse, estavam disfarçados de guardas de Jabba. Quando eles tiram os capacetes e passam pela ação inicial, no momento seguinte os vemos com suas roupas clássicas – Leia de branco e Luke com o uniforme com jaqueta amarela que usa bem no final de Guerra nas Estrelas, na cerimônia de premiação – sem a menor explicação lógica. Obviamente, esse deve ter sido um mandamento da Marvel, que queria seus heróis 100% reconhecíveis, mas cabia a Aaron e a Cassaday trabalharem em uma solução para isso que não seja a aparição mágica de roupas dos rebeldes. É tamanha a estranheza que senti, que fui catapultado para fora da história e não consegui mais regressar de verdade. Péssima escolha de todos os envolvidos que espero que consiga esquecer já no próximo número.

Star Wars merecia um tratamento inicial melhor pela Marvel. De nada adianta pompa e circunstância se o conteúdo é vazio e mal concebido. É torcer para que as exigências da editora para um primeiro número comecem a se dissipar nos próximos, permitindo que Aaron mostre seu trabalho.

Star Wars #1 (EUA, 2015)
Roteiro: Jason Aaron
Arte: John Cassaday
Cores: Laura Martin
Letras: Chris Eliopoulos
Data de publicação original: 14 de janeiro de 2015
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Páginas: 35

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.