Crítica | Star Wars Art: Ralph McQuarrie, de Brandon Alinger e outros

estrelas 5,0

Obs: Não costumamos fazer críticas de livros que não se caracterizam exatamente como literários, mas abrimos uma exceção para este livro de arte, pois, afinal de contas, é Star Wars.

Ralph Angus McQuarrie (1929 – 2012) foi um ilustrador e desenhista conceitual que está na ponta da língua de quem conhece um pouco mais do que a superfície de Star Wars. Começando sua carreira nas artes desenhando modelos de dentes e aparelhos dentários para uma empresa da área, ele foi trazido para o mundo do Cinema por Hal Barwood, roteirista e produtor de Hollywood e, em 1975, o então muito jovem e iniciante George Lucas, impressionado com o que tinha visto, contratou McQuarrie para fazer ilustrações conceituais de uma ópera espacial que estava criando.

O que Lucas queria era mostrar algo palpável a Alan Ladd Jr. e aos demais executivos da Fox cuja máquina de distribuir filmes ele tanto precisava. Até aquele momento, Star Wars só existia na ainda confusa mente de Lucas, que trabalha não só com suas ideias, como, também, diversas versões de roteiros que literalmente atiravam para todos os lados (uma boa ideia da confusão da época pode ser extraída da leitura da HQ A Guerra nas Estrelas, da Dark Horse Comics, baseada em versões originais dos roteiros).

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O livro, em toda sua glória de capa dura!

Assim, a entrada de Ralph McQuarrie nessa equação foi o primeiro momento em que o fantástico universo do que viria a ser uma das mais importantes franquias da cultura pop mundial ganhou forma, ganhou algo que estivesse do lado de fora da cachola de George Lucas. McQuarrie usou os conceitos originais descritos nos roteiros para criar as primeiras visões de C-3p0, de R2-D2, Luke Skywalker (ou Starkiller), Darth Vader (que usava um traje espacial mesmo), os Stormtroopers (de escudo e sabre de luz), Chewbacca e o que viria a ser Tatooine e a Estrela da Morte. Trabalhando com razoavelmente pouco, ele criou um universo ilustrado que literalmente funcionou como o elemento final para convencer a Fox de embarcar na empreitada (à época) tresloucada de Lucas.

Em outras palavras, sem Ralph McQuarrie, Star Wars não existiria ou, pelo menos, não existira como hoje conhecemos a rica franquia. Arriscaria até a dizer que, em um universo paralelo em que McQuarrie não tivesse sido chamado por Lucas e o diretor conseguisse milagrosamente dar continuidade à sua visão, o primeiro filme teria implodido na bilheteria como mais uma ficção científica trash em meio a tantas outras, enterrando ou atrasando, no processo, o futuro do sci-fi de grande escala no cinema e até mesmo o conceito do que se convencionou chamar blockbuster (ainda que, historicamente, o primeiro tenha sido Tubarão, dois anos antes de Star Wars chegar às telonas).

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Mos Eisley ao longe e Luke em sua versão feminina. É ou não é a Rey?

Mas vamos falar do livro em si?

Trata-se de um edição limitada luxuosa com dois volumes de capa dura pesados, cada um com 400 páginas dentro de uma luva rígida belíssima que usa a icônica imagem de destaque da presente postagem como chamariz. As dimensões são respeitosas, com 33,5 cm por 45 cm (medidas com a luva), tornando-o algo que poderia ser o ponto focal de qualquer biblioteca.

O foco do conteúdo do livro em dois volumes organizado por Brandon Alinger, Wade Lageose, David Mandel é nas imagens e, com isso, o papel usado é de gramatura alta, com acabamento brilhante, com as imagens impressas em alta qualidade, muitas vezes ao longo de duas páginas em toda sua glória. E as imagens não se limitam apenas ao primeiro filme, ainda que muitas das mais interessantes estejam nessa seção. Os três filmes da Trilogia Original são vastamente abordados, o que deixa evidente a evolução criativa dos meros conceitos que McQuarrie teve que transformar em desenhos usando como base unicamente o que ele achava, além de obras de ficção científica anteriores (tanto quadrinhos como filmes), para o primeiro filme da franquia, até o que ele faz a partir do que foi efetivamente para as telas para os dois filme seguintes. E sua arte é tão rica que até hoje os filmes da saga bebem da fonte do artista, com designs dele que não foram usados antes sendo utilizados em O Despertar da Força e Rogue One.

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Bespin aguardando a chegada de Luke.

E não há, apenas, ilustrações finalizadas, vistosas e coloridas. Ao contrário até, a organização procurou prestigiar o processo criativo de Mc Quarrie, trazendo imagens de arquivo raras como esboços, rascunhos e até meros rabiscos que dão a dimensão da pesquisa e do esforço deste grande artista. Cada grande painel ou icônica imagem carrega uma “história” por trás e isso fica sobejamente claro nesta completíssima obra.

Mesmo com o foco nas imagens, há um esforço muito claro em se complementar a experiência com textos explicativos sobre as ilustrações e sobre McQuarrie em si, algo que enriquece e muito a experiência de se admirar calmamente as páginas do livro, tornando-o mais do que um “livro de mesa”, ainda que ele tenha perfeita capacidade de ser a peça central em qualquer sala ou quarto nerd ou geek. As informações escritas são em forma híbrida, às vezes como legendas mais polpudas para as imagens e, outras vezes, como pequenos textos apartados, mas contextualizados pelas imagens. É o processo inverso do fenomenal trabalho de R.W. Rinzler nos três livrões de bastidores da Trilogia Original em que o texto é o focos e as imagens são usadas para dar vida às informações.

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Adeus, Jabba!

De toda forma, no final das contas, mesmo com menos elementos escritos, há ainda muito o que ler em Star Wars Art: Ralph McQuarrie se pensarmos no agregado de suas 800 páginas. É um investimento razoável de dinheiro e de tempo, mas o livro merece figurar nas coleções dos admiradores de Star Wars especificamente ou do processo criativo cinematográfico em geral. Ralph McQuarrie merecia uma obra assim, que marcasse estes momentos tão importantes de sua carreira e este livro faz jus à grande mente criativa dele.

Star Wars Art: Ralph McQuarrie (Idem, EUA)
Autores/Organizadores: Brandon Alinger, Wade Lageose, David Mandel
Editora: Harry N. Abrams
Data de publicação: setembro de 2016
Páginas: 800

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.